A alta taxa de cesarianas no Brasil é motivada por fatores psicológicos, sociais e estruturais, e não apenas por decisões individuais das gestantes. É o que aponta uma pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Atualmente, mais de 60% dos nascimentos no país ocorrem por meio de procedimentos cirúrgicos, índice que se aproxima de 90% quando analisada apenas a rede privada de saúde. O levantamento foi desenhado para identificar os motivos que levam mulheres que inicialmente desejavam o parto normal a serem submetidas a uma cesariana.
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Aspectos psicológicos e disparidades entre redes
De acordo com o estudo, a trajetória até a definição da via de parto é fortemente impactada pelo contexto social e pelas experiências prévias da gestante ou de seu círculo social. Os principais fatores identificados foram:
- Histórico e traumas: o medo generalizado da dor, o compartilhamento de relatos negativos por parte de familiares e o receio de vivenciar episódios associados à violência obstétrica;
- Realidade no SUS: na rede pública, a opção pelo parto normal é frequentemente motivada pela necessidade de uma recuperação física mais rápida, uma vez que muitas mães relatam ausência de rede de apoio familiar ou comunitário para o pós-parto;
- Realidade na rede privada: nos hospitais particulares, a preferência pelo parto vaginal costuma estar atrelada ao maior nível de informação sobre os benefícios biológicos do procedimento e ao acesso financeiro a equipes médicas especializadas.
Falhas estruturais no acompanhamento médico
O Unicef identificou lacunas importantes na assistência de saúde durante o período gestacional. A falta de protagonismo da mulher na reta final da gravidez decorre, sobretudo, de falhas de orientação ao longo das consultas de pré-natal.
As gestantes entrevistadas apontaram que recebem poucas informações técnicas sobre as etapas do trabalho de parto e desconhecem a existência ou a aplicação do plano de parto.
O relatório detalha que muitas mulheres enfrentam a sensação de que a decisão final sobre o procedimento é centralizada na equipe médica, sem espaço para o consenso. Além disso, o acesso à analgesia de parto — recurso que mitiga as dores do processo natural — é considerado restrito no Sistema Único de Saúde (SUS).
Recomendações para o sistema de saúde
Para reverter o cenário de cirurgias sem indicação clínica, o organismo internacional propõe uma revisão nos modelos de atendimento vigentes e estruturou um conjunto de metas recomendadas para gestores públicos e privados:
- Qualificar o atendimento básico e o repasse de informações no pré-natal; Ampliar a oferta e o acesso facilitado à analgesia na rede pública;
- Fortalecer as políticas públicas voltadas ao parto humanizado;
- Revisar os modelos de remuneração e plantão que favorecem a realização de cesarianas eletivas.
A entidade também iniciou uma campanha de conscientização para incentivar que as escolhas informadas das gestantes sejam respeitadas pelas equipes de saúde.














