Clique aqui e escute a matéria
O engenheiro e CFO (diretor financeiro) da usina hidrelétrica Itaipu Binacional, André Pepitone da Nóbrega, lançará um livro sobre as circunstâncias e os fundamentos de decisões que marcaram o setor elétrico brasileiro durante seu período como diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), entre 2018 e 2022. Intitulada “O Peso da Decisão — Crises e escolhas por trás da conta de luz dos brasileiros”, a obra conta com prefácio do ex-presidente da República José Sarney, acadêmico e decano da Academia Brasileira de Letras (ABL), e será apresentada na Conferência Ibero-Brasileira de Energia (Coniben) deste ano.
Segundo o autor, o livro surgiu a partir de uma inquietação que levou um tempo até tomar forma. “Ao longo daqueles anos, muita coisa decisiva ficou registrada em processos, votos e atos normativos — mas não estava em nenhum documento o porquê: por que uma escolha se tornou necessária, o que estava em jogo naquele instante e em que ambiente ela foi tomada. Faltava contar essa camada. Eu não queria escrever sobre uma carreira, muito menos apresentar a versão definitiva dos acontecimentos. Queria preservar experiências que não deveriam desaparecer quando o mandato terminou. Uma instituição amadurece quando guarda o que aprendeu — os acertos e também os limites de cada decisão — e transmite essas lições às próximas gerações”, relata.
Para André, a obra procura “iluminar” o instante em que o conhecimento técnico se transforma em responsabilidade pública. Entre os episódios marcantes da gestão estão o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho (MG); a pandemia e a Conta-Covid; o apagão do Amapá; e a maior crise hídrica desde 2001; além de temas estruturais, como tarifas, subsídios, abertura do mercado, geração distribuída e modernização dos direitos do consumidor.
“Escolhi os episódios que melhor mostram a natureza da decisão regulatória. Procurei situações em que não havia solução perfeita, em que o tempo pressionava e em que a escolha produzia efeitos concretos sobre consumidores, empresas e instituições. Também pesei a relevância histórica, o impacto na conta de luz e o que cada caso podia ensinar a quem trabalha no serviço público”, destaca o autor.
André conta que se baseou em documentos da época, dados, notas técnicas, atos normativos e anotações pessoais. “Mas minha preocupação foi não transformar o texto num relatório. Os números estão ali porque dão precisão à memória; o centro da narrativa, porém, são as escolhas, as pessoas envolvidas e as consequências de cada decisão”, pontua.
O ex-diretor-geral da ANEEL ressalta a atuação na crise hídrica de 2021 como uma das mais desafiadoras na perspectiva da complexidade sistêmica. “Os reservatórios caíam, a chuva não vinha e as medidas precisavam produzir efeito antes do ponto de não retorno. Foi uma crise que exigiu antecipação, coordenação entre muitas instituições e decisões difíceis para preservar o abastecimento. Ela me ensinou algo que repito no livro: existe medida tecnicamente correta que, tomada tarde demais, deixa de ser solução”, declara.
O engenheiro também elenca o episódio que considera mais marcante para os cidadãos: o apagão de energia elétrica do Amapá. Ele relata que a prioridade da ANEEL era restabelecer o serviço, sem permitir que a urgência afastasse o dever de apurar as responsabilidades.
“Menos de um dia depois do apagão eu já estava em Macapá, acompanhando as equipes no terreno e ali a dimensão humana da energia ficou evidente de um jeito que nenhum relatório traduz. Uma moradora me perguntou apenas quando a energia voltaria. Não quis saber de transformadores ou linhas de transmissão; precisava conservar o peixe que pescava para vender, carregar o celular e recuperar a rotina da família”, conta.
Prefácio de José Sarney
Receber o prefácio de José Sarney foi, para Pepitone, uma honra de enorme significado pessoal e institucional. O autor destaca um elo que atravessa quatro décadas: “Em 1985, eu tinha 11 anos e acompanhei meu pai, o engenheiro Francisco Nelson Queiroga da Nóbrega, no desvio das águas do rio Uatumã, durante a construção de Balbina. O então presidente Sarney estava lá”. Ele ressalta a frase com que o ex-presidente abre o texto: “Antes de o conhecer como homem, conheci-o menino”.
O ex-presidente da República e decano da Academia Brasileira de Letras (ABL) José Sarney é responsável pelo prefácio de ‘O Peso da Decisão — Crises e escolhas por trás da conta de luz dos brasileiros’ – Reprodução/Instagram/@andre.pepitone
O engenheiro ressalta, ainda, que a contribuição do ex-presidente acrescenta ao livro o olhar de quem exerceu o cargo mais elevado da federação e que conhece o peso das decisões públicas e acompanhou o amadurecimento das instituições brasileiras.
Sobre o papel das agências reguladoras, o ex-diretor-geral da ANEEL enfatiza: “Políticas públicas são legitimamente formuladas pelos Poderes eleitos; ao regulador cabe implementá-las dentro da lei, com transparência, previsibilidade e proteção do interesse público. Técnica sem capacidade de diálogo pode não se transformar em solução. Política sem respeito às instituições pode produzir insegurança. O equilíbrio está no diálogo responsável, sem captura, sem personalização e com clara definição dos papéis de cada instituição.”
Desafios atuais no setor energético
Para o engenheiro, um dos principais desafios na gestão de entidades ligadas ao setor energético como a ANEEL é preservar, na prática, a autonomia que a lei assegura à agência. Ele destaca que a autonomia não significa isolamento nem ausência de controle.
“Significa decidir com base em evidências, dentro das competências legais, longe dos interesses de ocasião, e prestar contas à sociedade. Ela depende de orçamento previsível, quadro técnico qualificado, governança sólida e estabilidade institucional”, acrescenta.
Outra questão é acompanhar a velocidade da transformação do setor. Pepitone explica que a regulação precisa estimular a inovação sem perder de vista a segurança do suprimento, a qualidade do serviço e a justa distribuição dos custos. Isso envolve fatores como a expansão das fontes renováveis, da geração distribuída, do armazenamento, das redes inteligentes e da abertura do mercado.
O ex-diretor-geral também elenca traduzir decisões complexas como outro desafio para as gestões. “A ANEEL é uma instituição técnica, mas seus atos chegam à casa das pessoas. Publicar uma nota técnica não basta; é preciso tornar compreensível quem se beneficia, quem paga, quais riscos estão sendo assumidos e quais alternativas foram examinadas. A confiança pública nasce da combinação entre competência, transparência e coerência”, detalha.
André destaca a necessidade de planejar geração e transmissão de energia de forma coordenada, além de incorporar baterias e outros recursos de flexibilidade e aperfeiçoar os sinais econômicos. Ele elenca a Coniben como um dos importantes fóruns que contribuem para esse debate, porque reúne reguladores, formuladores de políticas, empresas, investidores e especialistas. “Quanto mais qualificado e plural for o debate, maior a chance de transformarmos diagnósticos técnicos em soluções sustentáveis e socialmente compreendidas”, reforça.
Lançamento na Coniben 2026
André afirma que a escolha da Coniben como palco para o lançamento do livro se deu porque a conferência reúne exatamente os elementos que atravessam o livro: “Diferentes visões, experiências institucionais e a necessidade de construir decisões para um setor em transformação. O livro não trata apenas do passado. Ao reconstituir crises e escolhas, ele procura extrair lições úteis para os desafios que continuam diante de nós.”
“Lançar ‘O Peso da Decisão’ na Coniben permite que a memória dialogue com o futuro. É um ambiente em que o livro pode cumprir seu propósito mais importante: não apenas recordar decisões, mas provocar uma conversa franca sobre como decidir melhor”, declara.
Além disso, há uma relação pessoal e institucional entre o autor e a agenda ibero-americana. André se orgulha por ter sido o primeiro brasileiro a presidir a Associação Ibero-Americana de Entidades Reguladoras de Energia (ARIAE) depois de três anos como vice-presidente. “Essa experiência reforçou em mim a convicção de que os reguladores melhoram quando compartilham práticas, comparam resultados e aceitam submeter suas próprias instituições a padrões elevados”, afirma.
O ex-diretor-geral da ANEEL ressalta que países como Portugal e Espanha oferecem experiências valiosas sobre integração de mercados, ampliação da competição, incorporação de fontes renováveis e construção de instrumentos de proteção ao consumidor. Para ele, o principal aprendizado não é “copiar soluções”, pois os sistemas têm histórias e características diferentes, mas sim aprender com instituições estáveis que estudam, ajustam regras e coordenam interesses em ambientes complexos.
Coniben 2026
A Conferência Ibero-Brasileira de Energia (Coniben) reúne autoridades, empresas, especialistas e instituições do Brasil, Portugal e Espanha para um intercâmbio de conhecimento técnico e estratégico para acelerar inovações e transformações essenciais.
A edição deste ano acontecerá nos dias 12 e 13 de novembro de 2026, no Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade) em Lisboa, Portugal. Com o tema “Mudanças globais na geopolítica e na geoeconomia impactando o setor de energia”, o evento terá 10 painéis.
Além de lançar um livro na Coniben, André Pepitone será moderador do painel sobre Aspectos Regulatórios da Energia Elétrica, do qual participarão o presidente do Conselho de Administração da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), Pedro Verdelho; o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Sandoval Feitosa; o conselheiro da Comisión Nacional de los Mercados y la Competencia (CNMC), Enrique Monasterio; e o diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Pietro Mendes.
As inscrições para a Coniben 2026 podem ser feitas através do site oficial da conferência.












