Estudantes de Pernambuco usam ciência e tecnologia para criar soluções para comunidades; equipes são semifinalistas de programa global

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Estudantes de Pernambuco usam ciência e tecnologia para criar soluções para comunidades; equipes são semifinalistas de programa global


Três escolas públicas de Pernambuco são semifinalistas do Solve for Tomorrow Brasil, programa da Samsung voltado à inovação sustentável

Por

Mirella Araújo


Publicado em 09/09/2026 às 15:24
| Atualizado em 09/09/2026 às 15:57


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Criar soluções que ultrapassam os muros das escolas e chegam às comunidades, utilizando ciência, tecnologia, engenharia e matemática para enfrentar desafios relacionados à saúde, à água, ao saneamento, à sustentabilidade e à educação, é o que norteia a proposta do programa global de cidadania corporativa da Samsung, Solve for Tomorrow Brasil.

A iniciativa chega à sua 13ª edição e, dos 30 semifinalistas, 11 equipes são de escolas públicas de sete estados do Nordeste — Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe —, região que concentra o maior número de projetos selecionados.

Em Pernambuco, três escolas se destacaram: a Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Gil Rodrigues, do município de Vertentes; a Escola Técnica Estadual (ETE) Professor Paulo Freire, localizada em Carnaíba; e a Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Aura Sampaio Parente Muniz, em Salgueiro.

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Os projetos mostram como problemas observados no cotidiano podem se transformar em oportunidades para a aplicação prática da ciência e da tecnologia. Entre as propostas estão ferramentas com inteligência artificial para análise de dados e combate ao Aedes aegypti, soluções de saneamento e tratamento de água, e materiais desenvolvidos a partir de resíduos que seriam descartados de forma irregular.

“O Nordeste sempre teve uma presença forte no Solve for Tomorrow Brasil. Isso mostra a potência da inovação nesse território do País, bem como a capacidade dos estudantes de transformar desafios que fazem parte de suas comunidades em oportunidades de aprendizado e inovação”, afirmou Helvio Kanamaru, diretor de ESG e Cidadania Corporativa da Samsung para a América Latina.

Nesta etapa do programa, que vai até o dia 2 de outubro, as equipes estão passando por uma mentoria que utiliza a abordagem STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para incentivar os estudantes a desenvolver soluções para desafios presentes em suas comunidades.

“Na semifinal, a mentoria amplia as possibilidades de aprendizagem ao ajudar estudantes e professores a olhar criticamente para seus projetos, identificar potencialidades e fragilidades e aprimorar seus protótipos. A mentoria é conduzida por profissionais de diferentes áreas do conhecimento, com experiência na aplicação da metodologia científica em projetos”, explicou Beatriz Cortese, diretora executiva do Cenpec.

Da castanha ao paver: estudantes de Vertentes criam solução sustentável para resíduo

No município de Vertentes, no Agreste do Estado, os alunos da EREM Gil Rodrigues encontraram na casca da castanha de caju uma forma de transformá-la em matéria-prima para a produção de blocos de pavimentação.

O projeto “Pavers Sustentáveis a partir da Casca de Castanha de Caju”, que conta com a orientação do professor João Paulo e é desenvolvido pelos estudantes Ana Clara Tomás Bezerra, Jarson Gabriel da Silva Vieira e João Ryan Andrade Deniz, busca desenvolver uma alternativa mais sustentável e econômica para calçadas e espaços comunitários, aproveitando um resíduo agroindustrial que seria descartado.

Em conversa com a coluna Enem e Educação, nesta quarta-feira (8), o professor João Paulo explicou que a iniciativa surgiu como resposta a um grave problema ambiental: o descarte irregular da casca da castanha pode provocar a contaminação do solo. Segundo o docente, a mobilização escolar foi tão grande que resultou na elaboração de um Projeto de Lei enviado à Câmara Municipal para validar a iniciativa desenvolvida pelos estudantes e oferecer assistência tecnológica aos trabalhadores locais.

“Desde março a gente vem pensando em traço, vem pensando na estrutura do paver, testes, e até hoje tivemos diversos resultados vitoriosos”, disse João Paulo. “Inclusive, um desses que deixou a gente muito orgulhoso ontem foi que a gente enviou para a Câmara Municipal uma proposta de lei, um projeto de lei para não só validar o nosso projeto, mas também para que o governo municipal participe, atue e consiga nos ajudar a colocar essa proposta em prática”, afirmou.

Para pensar no impacto da proposta, a equipe buscou entender o contexto em que a utilização da castanha está inserida na região. Segundo João Paulo, há cerca de 2 mil pessoas trabalhando diretamente com a castanha, desde a torra até o transporte e a venda do material.

 

Arquivo Pessoal

O Pavers Sustentáveis a partir da Casca de Castanha de Caju foi desenvolvido por estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Gil Rodrigues, em Vertentes – Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

O Pavers Sustentáveis a partir da Casca de Castanha de Caju foi desenvolvido por estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Gil Rodrigues, em Vertentes – Arquivo Pessoal

Cortesia

O Pavers Sustentáveis a partir da Casca de Castanha de Caju foi desenvolvido por estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Gil Rodrigues, em Vertentes – Cortesia

“A gente não pode deixar que essa cultura morra; a gente precisa conviver com ela. E a ciência e tecnologia vêm trazendo, no caso do nosso projeto, uma solução bem viável. Antigamente, aqui a gente tinha fornos comunitários de farinha, onde o pessoal trazia e fazia a farinha. Então, já que a gente tem essa ideia do paver, é fazer voltar esses fornos, o que é economicamente mais viável e ambientalmente também”, explicou.

A região, inclusive, recebe castanhas do Ceará, do Maranhão, do Piauí, do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Semanalmente, chegam caminhões carregados de castanhas, que são distribuídas por toda a comunidade. “Por que lá eles não partem essa castanha? Porque existem leis municipais e estaduais que proíbem por causa do resíduo, que é altamente tóxico e danoso”, completou.

A estudante Ana Clara Tomás, 17 anos, contou que esse foi seu primeiro contato com um projeto de sustentabilidade capaz de mudar a realidade das pessoas de sua comunidade.

“Eu acho muito interessante essa área, tanto da parte de Química quanto da de Biologia. Quando ele [professor] falou da nossa ideia e a gente começou a discutir isso, acho que para mim foi muito especial. Eu gosto muito realmente de participar desse projeto e dessa questão da sustentabilidade”, disse em entrevista à coluna Enem e Educação.

Até a relação com a família e o olhar para as problemáticas que podem contar com soluções acessíveis mudaram nesse período em que os pavers têm sido desenvolvidos. “Muda porque eles também não tinham muito contato, não tinham conhecimento sobre. Eles pensavam que a castanha não era tóxica. Aí, depois que eu comecei no projeto, fui explicando a eles, e eles ficavam muito curiosos em saber o que a gente estava fazendo, por que era ácido, tudo sobre a sobra da castanha”, disse.

Jurema-preta e catingueira viram aliadas de estudantes para testar qualidade da água

Os estudantes da ETE Professor Paulo Freire, localizada no município de Carnaíba, no Sertão do Pajeú, encontraram uma forma acessível de verificar se a água utilizada pelas comunidades rurais da região é própria para o consumo.

O projeto “Sertanino: Uma solução natural para um direito essencial” consiste em uma pastilha bioindicadora que utiliza extratos de plantas nativas da Caatinga e busca oferecer uma alternativa acessível para regiões distantes de laboratórios e equipamentos sofisticados.

A iniciativa conta com a orientação do professor Gustavo Bezerra e é desenvolvida pelos estudantes Matheus Gonçalves Lacerda, Jamilly Gadelha da Silva e Leandra Viviane Marques Lins.

“O Sertanino é uma pastilha bioindicadora que é feita a partir de duas plantas nativas aqui do Sertão nordestino, que são a jurema-preta e a catingueira. Ao entrar em contato com a água contaminada, ela muda a sua cor para uma tonalidade mais escura, fazendo assim com que a gente consiga visualmente ver se essa água está própria para consumo e para atividades domésticas ou não”, explicou o estudante Matheus Gonçalves, 17 anos, em entrevista à coluna Enem e Educação.

Nas palavras do próprio Matheus, “a educação pode transformar a vida das pessoas”. Por isso, participar de projetos que estimulem a busca por soluções para problemas locais, aliando tecnologia e sustentabilidade, tem sido uma oportunidade de contribuir para a melhoria da qualidade de vida e para o empoderamento da população da região.

“Se a gente for hoje olhar no mercado, uma pastilha bioindicadora, ela pode custar mais de R$ 300 e não tem por aqui. Então, se a gente conseguir trazer uma pastilha de baixo custo e que utilize plantas daqui da nossa região, a gente vai estar trazendo uma ajuda muito grande para essas comunidades”, destacou o jovem.

 

Arquivo pessoal

O Sertanino: Uma solução natural para um direito essencial foi desenvolvido por estudantes da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire – Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

O Sertanino: Uma solução natural para um direito essencial foi desenvolvido por estudantes da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire – Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

O Sertanino: Uma solução natural para um direito essencial foi desenvolvido por estudantes da Escola Técnica Estadual Professor Paulo Freire – Arquivo pessoal

A ETE Paulo Freire conta atualmente com 54 alunos bolsistas, o que representa cerca de 20% dos estudantes da escola. Eles desenvolvem projetos e ações no laboratório, realizam pesquisas e trabalham em iniciativas voltadas à transformação social.

Mas, segundo o professor Gustavo Bezerra, é necessário apoio governamental, com recursos, para que os estudantes continuem avançando nas pesquisas e iniciativas.

“No projeto Sertanino, fizemos alguns testes com água contaminada e com a outra água limpa, que seria uma água pura. Porém, não tem resultados para a gente comparar, porque o laboratório que a gente utiliza não tem todas essas ferramentas que possibilitam a gente analisar a qualidade da água. Então, muitas vezes a gente fica à mercê de equipamentos, de alguns recursos e de parceria com instituições para dar sequência ao nosso projeto”, afirmou o docente.

IA e plantas da Caatinga são usadas por estudantes no combate às arboviroses

 Na cidade de Salgueiro, no Sertão Central, a alta incidência de arboviroses levou os estudantes da EREM Aura Sampaio Parente Muniz, Allana Lohany Barros Lins, Júlia Nascimento de Sá, Francisco Eduardo Moura Alves e João Adailton Rocha Leite Filho, a criarem o projeto “Bioinovação e IA no Controle Sustentável do Aedes aegypti”.

Sob a coordenação da professora Uanne Freire, a iniciativa consiste em um sistema integrado de combate ao mosquito transmissor da dengue. A solução combina armadilhas inteligentes, larvicidas produzidos a partir de plantas nativas da Caatinga, georreferenciamento e inteligência artificial para mapear áreas críticas e apoiar ações preventivas.

Segundo o estudante João Adailton, o primeiro pensamento da equipe foi: “E se nós usássemos de alguma coisa natural, que pudesse ajudar o meio ambiente e também a população?”. A partir disso, eles buscaram plantas que são pouco pesquisadas para conseguir combater os vetores de doenças como a dengue. 

“Identificamos algumas plantas da Caatinga que têm potencial larvicida, com compostos que podem ajudar no controle das arboviroses. A partir dos extratos dessas plantas, começamos a fazer testes em ovitrampas, utilizando uma pastilha e água para atrair o Aedes aegypti e avaliar como essa solução poderia ser aplicada”, explicou João em entrevista à coluna Enem e Educação. 

Arquivo Pessoal

O Bioinovação e IA no Controle Sustentável do Aedes aegypti foi desenvolvido por estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Aura Sampaio Parente Muniz, em Salgueiro – Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

O Bioinovação e IA no Controle Sustentável do Aedes aegypti foi desenvolvido estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Aura Sampaio Parente Muniz, em Salgueiro – Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

O Bioinovação e IA no Controle Sustentável do Aedes aegypti foi desenvolvido por estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio Aura Sampaio Parente Muniz, em Salgueiro – Arquivo Pessoal

Para João, a etapa de mentoria tem sido importante para ampliar as possibilidades tecnológicas do projeto e aprimorar as estratégias de monitoramento do mosquito.

“A partir dos dados que conseguimos com as ovitrampas, eles [os mentores da Samsung] propuseram ideias interessantes, como o uso de placas de Arduino e sensores para identificar mosquitos em diferentes locais. Com isso, podemos fazer mais testes, cálculos e conseguir engajar a população como um todo. Foi muito importante essa mentoria”, afirmou.

A professora Uanne Freire também destacou o envolvimento da comunidade escolar na iniciativa, incluindo estudantes e famílias, além da busca por parcerias com instituições científicas do município.

“Eles distribuem essas ovitrampas, essas armadilhas, com alunos da própria escola, de acordo com o bairro. Então, o estudante fica também como parceiro do projeto, da pesquisa. Além disso, eles vão atrás da comunidade científica presente no município. Vão ao Instituto Federal em busca de um espectrofotômetro e à Vigilância Epidemiológica para saber mais sobre larvas e ovos”, explicou.






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