Espetáculo musical revisita os cem anos de um clássico do teatro negro no Brasil

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Espetáculo musical revisita os cem anos de um clássico do teatro negro no Brasil


Antes mesmo de subir ao palco, “Tudo Preto” já enfrentava a desconfiança dos críticos. Em uma cena teatral em que artistas negros eram relegados à posição marginal, muitos duvidavam de sua competência técnica.

A estreia da Companhia Negra de Revistas, em 31 de julho de 1926, no Rio de Janeiro, provou o contrário. Inspirado na “Revue Nègre”, a revista negra, de Josephine Baker, o espetáculo reunia um elenco negro e marcou a criação da primeira companhia negra de teatro do Brasil.

Cem anos depois, os diretores Tainah Longras e Mauricio Lima conduzem uma releitura do texto original. “Tudo Preto: uma re_vista”, que estreia no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro nesta sexta-feira, conserva cenas inteiras da dramaturgia de 1926, mas as modifica com novos recursos de dança e música.

Com texto de Chocolat e direção musical de Pixinguinha, a revista musical propunha uma vibrante celebração das tradições afrobrasileiras diante de uma plateia branca. No entanto, para atrair esse público, recorria a caricaturas do negro, comuns na produção cultural da época.

“Tudo Preto” foi um sucesso. Atraiu a atenção de nomes como Tarsila do Amaral, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Porém, boa parte desse entusiasmo foi delimitado por uma visão que associava as culturas negras a um suposto primitivismo —ideia que ajudou a estruturar o modernismo brasileiro.

O espetáculo, no entanto, oferecia outra visão sobre o lugar da população negra no processo de modernização da cultura nacional. Ao colocar em cena um negro urbano e cosmopolita, a peça ampliava o sentido de modernidade e reivindicava a participação ativa dos negros na construção de uma identidade nacional. Esses esforços, porém, acabaram ficando em segundo plano na historiografia do teatro brasileiro.

A nova montagem valoriza as contribuições da original de forma crítica: “Tivemos o cuidado de não reproduzir nada. É sempre um diálogo”, afirma Longras.

A adaptação prossegue uma pesquisa anterior dos diretores. No espetáculo “Vinte!”, que rendeu à dupla o Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia em 2026, os movimentos estéticos negros na década de 1920 são investigados como expressão de um projeto de país que não se consolidou.

Para eles, o que está em disputa na nova adaptação de “Tudo Preto” são as tensões atreladas à ideia de um Brasil moderno e profundamente desigual. Longras questiona “como a gente inclui as artes negras num projeto de modernidade que desejava branquear a cultura do país?”

Enquanto a montagem de 1926 era marcada por extravagância visual —típico do teatro de revista— a nova aposta na sutileza das composições gestuais e sonoras. As trocas de cenários, por exemplo, não são ocultadas. O público testemunha a engrenagem que move a cena, enfatizando seu caráter artesanal.

A ironia é outro elemento crucial de “Tudo Preto: uma re_vista”. Por meio de jogos vocais e musicais, a encenação ora se aproxima do texto original, ora o questiona. Esse recurso de dupla ironia não só atribui novos sentidos às ambiguidades da obra de Chocolat, como oferece uma chave de leitura para as contradições da própria sociedade brasileira.

“Como a gente honra uma obra sem se tornar acrítico, e como a gente critica uma obra sem cair no juízo de valor?”, diz a diretora. A resposta vem por meio de rasuras na dramaturgia original. A cena em que um rei escolhe a favorita de seu harém, por exemplo, é atravessada por um comentário que problematiza a sexualização da mulher negra. Em outra, o fascínio da elite carioca dos anos 1920 pela moda parisiense divide espaço com cenas de um ônibus lotado no Rio de Janeiro de hoje.

A sobreposição de referências musicais é outro recurso para reinterpretar “Tudo Preto”. Para contornar a ausência de registros fonográficos ou partituras da maior parte das composições originais, a nova encenação contou com trilha assinada pelo premiado compositor Muato, que reuniu sonoridades de décadas distintas. Para reverenciar Pixinguinha, recorreu a uma variedade de metais. O caráter contemporâneo vem das batidas de afrobeat e de samples do hip-hop.

O artista procurou dar forma à concepção não linear de história que embasa a releitura. “Procuramos nos basear em uma concepção mais corpórea da matéria historiográfica”, afirma Longras, referindo-se à importância do trabalho da historiadora Beatriz Nascimento para a encenação.

Para a pensadora sergipana, o corpo e o território são centrais para repensar a história do negro no Brasil. Como forma de corporificar a presença de Nascimento no espetáculo, o trecho de uma de suas entrevistas é transformado em uma fuga —estilo de composição polifônica que tem origem na música barroca.

Ao sobrepor tempos, vozes e referências musicais, o espetáculo faz do movimento o princípio que reorganiza os ecos e as ressonâncias da Companhia Negra de Revistas. Como sugere uma personage, da nova encenação, é importante reaprender a ouvi-las.



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