Acumulado do IPCA estoura o teto da meta, alimentação puxa o índice e projeções apontam pico da inflação em agosto, no auge da campanha
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O IPCA de maio entregou ao Palácio do Planalto um problema que notas técnicas não podem resolver, porque a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,72%, estourou o teto da meta pela primeira vez desde outubro e isso atinge diretamente o eleitor mais pobre que a percebe na gôndola do mercado. O índice cheio até desacelerou, de 0,67% para 0,58%, mas a composição do período é politicamente tóxica.
A alimentação respondeu por metade da alta do mês e a energia elétrica, empurrada pela bandeira amarela, foi o maior impacto individual. A batata subiu 44,69%, o tomate, 20,62%, a cebola, 16,8%. São preços que o eleitor confere toda semana na feira, sem precisar de economista para traduzir ou escrever texto. O dado expõe o duplo risco que acompanha o presidente Lula (PT) até outubro. A carestia ameaça a reeleição, e a estratégia bilionária montada para contê-la ameaça o país que ele pretende seguir governando em 2027. Por menos que isso, Dilma acabou impedida.
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Calendário cruel
O agravante está no calendário, porque as projeções de mercado indicam que o acumulado em 12 meses deve atingir o pico em agosto, exatamente quando a campanha presidencial entra na fase decisiva. Economistas já revisaram a estimativa da alimentação no domicílio para 7% ou mais até dezembro, enquanto um El Niño de forte intensidade ameaça a safra do segundo semestre com seca no Norte e no Nordeste, regiões que concentram a base eleitoral do presidente. Lula chegará às urnas no momento de maior desgaste do índice que mais dói no bolso de quem o elegeu três vezes. O cronograma não poderia ser pior.
Percepção contaminada
Os números mais recentes mostram um favoritismo real, mas cercado de fragilidades. A Quaest divulgada na quarta-feira indica que Lula vence todos os pré-candidatos da direita nas simulações de segundo turno, marcando entre 44% e 45%, mas 56% do eleitorado segue indeciso quanto ao voto para presidente. Um incumbente que não cruza os 50% contra nenhum adversário, com mais da metade do eleitorado em aberto e a comida subindo na feira, lidera uma corrida que ainda não começou de verdade. Liderança que depende do preço do tomate não é liderança, é trégua.
Resposta bilionária
Diante do risco, o governo reage com a ferramenta que melhor conhece: o dinheiro do pagador de impostos. As estimativas chegam a R$ 215 bilhões em aumento de despesas ou renúncia de receitas, volume superior aos R$ 168 bilhões da “PEC da Gastança” de 2022, considerada escandalosa à época e feita para tentar reeleger Bolsonaro (PL). Toda essa despesa trará consequências. A mais imediata será a falsa impressão de que “tudo está bem”. A mais duradoura, e posterior à eleição, será um desarranjo fiscal gerador de crises e com mais picos de inflação.
Espelho de 2014
A história recente oferece dois espelhos ao presidente, e nenhum devolve imagem agradável. O primeiro é 2022, quando a alimentação fechou o ano com alta de 13,23% e a carestia foi apontada como razão central da derrota de Jair Bolsonaro. Lula conhece o mecanismo melhor que ninguém porque foi eleito por ele. O segundo espelho é mais incômodo. Em 2014, Dilma Rousseff forçou a economia para sustentar a percepção de prosperidade, venceu a eleição e entregou ao país, na sequência, a pior recessão de sua história e o próprio impeachment, embalado pelas pedaladas fiscais que os truques contábeis de hoje lembram com desconforto crescente.
Dupla face
O risco de 2026 carrega uma dupla face perigosa, porque se a inflação de alimentos seguir corroendo a popularidade, Lula pode perder a eleição que hoje lidera, e se os R$ 215 bilhões em bondades garantirem a vitória, o país herda uma dívida explosiva e um arcabouço transformado em ficção contábil, problema que caberá ao próprio vencedor administrar no quarto mandato. A lição de 2014 ensina que a fatura da eleição comprada sempre chega. A novidade deste ano de 2026 seria o cobrador e o devedor serem a mesma pessoa.












