Em ‘Mestre Zu’, Zelito Viana faz documentário de amigo sobre Zuenir Ventura

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Em ‘Mestre Zu’, Zelito Viana faz documentário de amigo sobre Zuenir Ventura


O cineasta Zelito Viana fez em “Mestre Zu”, que estreia nesta quinta nos cinemas, um documentário de amigo —desses que são de quase irmãos— sobre Zuenir Ventura, talvez o grande expoente do jornalismo literário no Brasil.

Foi Elisa Ventura, filha de Zuenir, quem idealizou o projeto. Viana a conhecia porque ele e Zuenir foram amigos por décadas, desde os anos 1960: os filhos tinham sido criados juntos, as famílias viajavam unidas nos feriados. “A Elisa teve vontade de fazer um filme [sobre o pai], e aí me perguntou se eu queria dirigir”, conta o cineasta.

Zuenir Ventura já estava com problemas de mobilidade, mas nunca deixou de estar lúcido, nos meses em que o documentário foi rodado, segundo o documentarista. O jornalista, que morreu no dia 22 de setembro, aos 95 anos, teve tempo de ver a obra pronta. “Adorou, viu duas vezes”, conta o amigo, orgulhoso.

Antes, Viana havia consultado Zuenir para saber como ele imaginava que o filme deveria começar. Com que cena? “Ele me falou assim: ‘Tem que começar com a cuidadora me dando um banho’.”

A sugestão, mesmo que em tom de brincadeira, diz muito sobre Zuenir. Podia não ser a cena mais edificante do mundo, mas era a verdade dele, naquele momento da vida. O filme, amoroso e delicado, não tentou reproduzir o duro rigor jornalístico do homenageado.

Na cena de abertura que sobreviveu à edição, um grupo de amigos de Zuenir, quase todos jornalistas da Zona Sul do Rio de Janeiro, se reúne em uma sala de estar da classe média alta carioca para falar de maneira íntima e cordial sobre Mestre Zu, definido desde o início como uma “unanimidade” e tratado, pelo cineasta, como uma espécie de santo.

A pessoa teria que ser muito desalmada —ou jornalista— para fazer diferente. Ainda mais com um personagem como Zuenir.

Filho de um pintor de paredes e de uma mãe que lavava batinas para poder mantê-lo no colégio de padres, Zuenir trabalhou desde a adolescência. Depois cursou letras e, por falar francês, batucou um texto muito bem feito sobre o escritor argelino Albert Camus para a Tribuna da Imprensa, o diário de Carlos Lacerda.

O artigo o promoveu do arquivo, onde trabalhava, para a redação do jornal. Ainda jovem ganhou uma bolsa de estudos do governo francês e, já na Europa, virou correspondente em Paris da Tribuna.

Na volta, dirigiu redações e abriu as portas do jornalismo para gerações de repórteres e editores. Aquilo de que todo mundo se lembra, quando fala de Zuenir, é da doçura e da bondade. Traços que apareciam na voz baixa, no ritmo calmo da conversa, no olhar acolhedor —e que estão lá, no filme. “Eu nunca o vi falar mal de ninguém”, acrescenta Viana.

Embora apareça no filme como uma figura pura e sem arestas, lembrada com direito a choro e embargo na voz dos entrevistados, Zuenir era um exímio observador de contradições.

Seu best-seller “1968 – O Ano que Não Terminou” não é uma ode à geração de que ele próprio fez parte. Antes, tem olhar atento para as contradições daqueles jovens idealistas.

Sobre a revolução sexual dos anos 1960 e 1970, por exemplo, Zuenir escreveu: “Provavelmente, falava-se e escrevia-se mais do que se fazia sexo. Como em geral só se fala de liberdade na sua ausência, a liberação era mais aparente do que real”.

É verdade que o texto de Zuenir se assemelha ao clima de uma sossegada conversa entre amigos na sala de casa. A prosa é relaxada, dando a impressão de que o narrador se acomoda em uma poltrona mole, com a janela aberta à altura da copa das árvores.

Mas o que o texto relata cria desconforto, como se o leitor viajasse em um apertado trem de subúrbio (“Cidade Partida”) ou em uma estrada esburacada no Acre (“Chico Mendes: Crime e Castigo”).

“O Zuenir escrevia leve sem ser superficial”, afirma Viana. O ponto alto desse seu talento talvez apareça no capítulo de abertura de “1968”.

Ali, ele relata uma festa na passagem de 1967 para 1968. O “réveillon da casa da Helô” reuniu em uma mansão do bairro do Jardim Botânico gente da cultura e do dinheiro do Rio de Janeiro, o pessoal do teatro e do cinema, de um lado, e “grupos de jovens assessores lacerdistas”, de outro.

O episódio é narrado a princípio dentro do registro da cordialidade, da alegria de pertencimento que as relações pessoais criam. Zuenir reproduz no texto a satisfação de fazer parte de um grupo. Havia esperança também, na festa —quem sabe o Brasil não caminhasse, nos meses seguintes, para algum tipo de abertura democrática?

O tom de coluna social, que de certa forma permanece até o fim do capítulo, não obscurece a tensão que contamina a festa, e que cresce à medida que as pessoas se embriagam. Em certo momento, explode uma pancadaria generalizada. Na sala da casa.

“Eu entrei no salão feito um trator, batendo em todo mundo e apanhando de todo mundo”, relata o produtor Luiz Carlos Barreto, no livro. “Não sei em quem bati, nem quem me bateu.” Sob a cordialidade, em um ambiente cheio de notinhas para a coluna de Ibrahim Sued, a violência.

Há um momento análogo a esse, mas tratado com muito menos destaque, no filme de Viana. É quando ele narra o que diz ser “um ponto fora da curva” de Zuenir.

Zuenir havia sido ofendido por Hélio Fernandes, no final dos anos 1980, na Tribuna da Imprensa. Fernandes, à época dono do jornal, fazia isso a torto e a direito, criava inúmeros desafetos e era agressivo com seus adversários, nas páginas da Tribuna. Em 1987, sobrou para Zuenir, que resolveu se vingar.

O futuro autor de “Cidade Partida” comprou uma lata de tinta marrom. Ele sabia que Fernandes costumava caminhar ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. Zuenir esperou que o desafeto passasse pelo trecho habitual e atirou a tinta, cobrindo Fernandes com um melado brilhante e amarronzado.

O episódio aparece de forma breve, sem muito contexto nem maiores explicações, no filme. Segundo Viana, até nessa reação indignada Zuenir foi elegante. “Não era para fazer mal”, afirma. “Foi só para encher o saco” do Hélio Fernandes.

A reportagem quis saber se Viana imaginava como o próprio Zuenir trataria esse episódio, se fosse ele a dirigir o filme.

“É possível que ele, como jornalista, fosse investigar mais a fundo o que foi aquilo”, diz o cineasta. “Se bem que, também, é uma coisa tão fora da curva da existência dele que dá para ele me perdoar.”



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