Ele foi o mais berlinense dos baianos. Quem conviveu com Eduardo Simões certamente ouviu suas histórias de amor com a capital da Alemanha —sobretudo com as baladas eletrônicas da cidade, que frequentou em diversos momentos desde a juventude, nos anos 1990.
Germanófilo desejoso das loucuras de Berlim, apreciava também a vida calma dos amigos instalados à beira de lagos no interior da Alemanha. Mas o sonho do pacato era onda passageira, porque ele vivia pela efervescência da rotina de jornalista cultural, transitando entre assuntos, cidades, idiomas e pessoas, sempre com elegância e desenvoltura.
Com passagens por alguns dos principais jornais e revistas do país, cobriu cinema, livros, artes visuais, arquitetura, design e mercado de luxo, numa carreira que abraçou com paixão depois de quase concluir o curso de engenharia química. “Ser engenheiro daria mais estabilidade a ele. Mas Edu nunca teve medo de não ser convencional”, lembra o irmão, Jarbas.
Ao longo de quase três décadas, foi repórter no jornal O Dia, no Segundo Caderno d’O Globo e na Ilustrada da Folha (de 2005 a 2009), editor das revistas Cult, Wish Casa, Made e Arte Brasileiros, além de ter tido uma passagem pelo Instituto Goethe. Aos 55 anos, assumira havia pouco a edição da Esquire brasileira e se mostrava entusiasmado com a nova função.
Dono de um texto impecável, entrevistava o maior número possível de pessoas para suas reportagens. Inquieto, estava sempre com um texto para escrever, um personagem para conversar, um evento aonde ir —mesmo que, às vezes, tivesse preguiça da socialização intensa e só quisesse ficar em casa com sua gatinha, Dynka, e um prato quente de sopa.
Se isso soa paradoxal, é porque as contradições eram parte de sua personalidade. Edu era um soteropolitano que não gostava de sol, praia e calor, mas amava comida baiana, a vista sobre o mar e seus conterrâneos tropicalistas ou quase (Bethânia era sua abelha rainha).
Berlim e Salvador tinham, para ele, o mesmo valor. O homem de cabelos grisalhos sempre arrumados convivia com o menino que adorava as festas de são João da casa dos avós paternos.
“Era muita alma para caber num corpo só”, nas palavras da amiga Ligia Braslauskas. A gentileza, a agilidade de raciocínio (fogos de artifício intelectuais, na definição de outro amigo) e o humor são lembrados de maneira unânime por quem conviveu com ele.
Ria e fazia rir —das pequenas misérias particulares, do cotidiano, da vida, de si mesmo. A gargalhada roncada que ele gostava de soltar entre amigos, com uma cerveja ou um gim tônica na mão, ainda ecoa.
Edu morreu no início desta semana, em São Paulo. Deixa a mãe, dona Dinalva, os irmãos Jarbas e Luiza e os sobrinhos Sônia e Lucas.
coluna.obituario@grupofolha.com.br
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