Disputa de Lula com EUA não é sobre tarifas. É sobre quem leva a culpa

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Disputa de Lula com EUA não é sobre tarifas. É sobre quem leva a culpa


Governo evita discutir corrupção, facções e trabalho análogo à escravidão e aposta em atribuir aos Bolsonaro o custo político da crise.


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O governo Lula está gastando toda a energia possível para reclamar do castigo, mas nunca esteve disposto a discutir as ações que o levaram a ser castigado.

A reação do Palácio do Planalto às novas medidas anunciadas pelo governo de Donald Trump segue um roteiro conhecido. O foco está nos efeitos. Quase nada é dito sobre as causas apontadas pelos americanos para justificar as sanções, tarifas e restrições. O governo reclama da classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas, mas o país convive há décadas com facções que ampliaram seu poder econômico, territorial e político. Reclama das barreiras comerciais, mas tratou o tema como superado quando as tensões anteriores diminuíram. Reclama das acusações envolvendo trabalho forçado, mas o problema do trabalho análogo à escravidão continua presente em diversas regiões do país.

Causas

Parte das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos também toca em um tema que o governo prefere evitar. As decisões do ministro Dias Toffoli que anularam provas da Operação Lava Jato beneficiaram empresas envolvidas em escândalos de corrupção e reabriram debates sobre concorrência, segurança jurídica e confiança institucional.

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O governo brasileiro considera essas decisões assuntos internos. Os americanos enxergam consequências econômicas e comerciais. O ponto central é outro. Qual esforço concreto existe para reduzir a percepção internacional de impunidade em casos de corrupção?

O tema é desconfortável para o PT porque muitos aliados foram beneficiados direta ou indiretamente por esse novo ambiente jurídico. O próprio presidente Lula teve sua situação processual alterada por decisões posteriores do Judiciário. Não existe disposição política para enfrentar essa discussão.

Estratégia

E se o governo não pretende resolver os problemas apontados por Washington, resta uma alternativa politicamente mais rentável. Você consegue adivinhar? Transformar a crise em disputa eleitoral.

Foi exatamente isso que ocorreu durante o primeiro tarifaço. Naquele momento, o discurso da soberania nacional produziu resultados políticos relevantes para Lula. A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ofereceu ao governo um adversário conveniente. O Planalto atribuiu a ele parte da responsabilidade pela crise e conseguiu melhorar seu desempenho nas pesquisas.

Agora surge uma nova oportunidade. Em vez de concentrar esforços nas acusações feitas pelos americanos, o governo prefere construir a narrativa de que a responsabilidade pertence aos Bolsonaro (como foi antecipado ontem, aqui na coluna, que seria feito).

A presença recente de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump no Salão Oval tornou o senador um alvo ainda mais útil para essa estratégia.

Nem se fosse encomendado pela comunicação lulista teria sido tão útil para a “campanha pela soberania” que o presidente brasileiro tentava reavivar há meses.

Narrativa

Em Brasília, inclusive após uma reunião no Palácio do Planalto nesta quarta (03), integrantes do governo relatam que a orientação é evitar ataques diretos a Trump para não fechar canais de negociação com a Casa Branca. O alvo escolhido é outro. “Toda a carga política deve recair sobre os adversários internos. É pra dizer que a culpa é dos bolsonaro”, contou uma fonte da coluna.

A fala de Lula sobre suposta “traição” dos Bolsonaro não surgiu por acaso. Ela integra uma estratégia coordenada de comunicação.

O mesmo raciocínio explica a escolha do PIX como símbolo da disputa. A discussão técnica desaparece. O objetivo passa a ser associar qualquer crítica americana a algo presente no cotidiano de milhões de brasileiros, porque a mensagem é simples. Se existe ameaça ao PIX, a culpa seria dos Bolsonaro. Tudo é ferramenta de campanha.

Fingimentos

A narrativa também exige que o público acredite em uma premissa pouco plausível. Seria razoável imaginar que Flávio Bolsonaro, sozinho, ou mesmo acompanhado de seus aliados americanos, possui influência suficiente para definir uma extensa lista de tarifas, exceções, sanções e reclamações estratégicas dos Estados Unidos contra o Brasil. Inclusive sobre o PIX? A resposta parece evidente.

Trump utiliza o Brasil como peça de uma negociação maior. Flávio participa desse jogo e aceita representar um papel que lhe interessa politicamente, especialmente após o desgaste provocado pelo caso Banco Master. Trump reforça essa encenação porque ela serve aos interesses americanos. Lula também participa porque a narrativa produz dividendos eleitorais.

Todos fingem desempenhar um papel decisivo. Enquanto isso, os problemas apontados pelos americanos permanecem sem solução, as disputas políticas ocupam o centro do debate e os brasileiros comuns vão acabar pagando a conta. Quer apostar?






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