Recordei, de repente, um fato antigo: a parisiense Alice Guy-Blanchá. Em 1896, ainda muito jovem, ela obteve permissão para produzir um filme…
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Tempo, tempo, tempo… é uma das músicas mais emblemáticas do repertório de Caetano Veloso. É uma espécie de exortação ou súplica poética ao senhor tempo – soberano exclusivo do nosso destino. Lembrei-me, repentinamente do sobrinho de Agamenon Magalhães, ex-governador de Pernambuco, Ministro, catedrático da UFPE e ex-Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (SEC) – Roberto Magalhães Melo.
No tempo em que ele foi Secretário, eu era jovem e aceitei dirigir um Departamento na SEC, embora carregasse comigo, em função da idade, uma arca de imaturidade. Recebi a delegação de formar a minha equipe com pessoas capazes e assim procedi. Mas dei uma grande trombada ao aceitar um jovem desconhecido. Papel sempre suporta tudo e o professor tinha uma “curriculum vitae” de fazer inveja. Só não constava do histórico, o seu maior talento: a bajulação.
Suportei o salamaleque do profissional por um semestre. Prevendo o que sucederia com minha psique, falei a respeito do rapaz, num dos meus despachos diários, com o Professor Roberto Magalhães. Naturalmente, não mencionei o puxa-saquismo. Conhecia a índole ou temperamento do Secretário e admiti, erradamente, que ele não toleraria esse defeito. Contudo, comecei a supor que meu silêncio era uma modalidade de rancor não domado. Lembrei-me do dia em que entreguei ao brilhante e eficiente Secretário uma relação de profissionais que comporiam uma alta Comissão educacional. A lista era formada por figuras competentes. Só esqueci de indicar os partidos políticos. E essa foi uma das grandes dificuldades que gerei para o Dr. Roberto Magalhães. .
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Uma manhã, quando eu entrava em sua sala, escutei o que não desejava: “A senhora não possui talento algum para a política”. E tinha razão. Eu estava sendo paga para ser técnica, mas nada impediria que eu estivesse atenta a outras “qualidades”, entre muitas, a vinculação dos nomes indicados aos partidos políticos.
Retorno ao professor bajulador. Num final de semana, já deixando a sala rumo ao elevador, tive vontade de cumprimentar o Secretário. Entrei no grande gabinete. Estava silencioso numa sexta-feira e início da noite.
Sequer encontrei o chefe-de-gabinete. Sentado em sua mesa, o Secretário despachava tranquilamente. Inclinado sobre os papéis e numa atitude de veneração, estava o “professor que eu havia despachado para o gabinete. Tive um susto. Nem mesmo o Dr. Roberto, havia resistido ao puxa-saco. Ali estava o rapaz no exercício pleno da sua vocação. Afinal, dizia uma grande amiga, : “amar a bajulação é apanágio dos políticos”. E o poder é a razão de tudo. Tem um eflúvio ou fragrância irresistível. Enquanto a figura com poder estiver no topo, será sempre elogiada, enaltecida, engrandecida e cortejada. Dizia o ex-ministro da Agricultura – José da Costa Porto – já falecido e pai de Walter Costa Porto, que no momento em que se perde o poder até os cães se escondem sob a nossa cadeira. E isso é verdade em todos os tempos e lugares.
Recordei, de repente, um fato antigo: a parisiense Alice Guy-Blanchá. Em 1896, ainda muito jovem, ela obteve permissão para produzir um filme. Foi o primeiro na história cinematográfica: “La Féer aux Choux” (A fada do repolho, considerada a primeira ficção narrativa). Logo depois, Alice evoluiria. Além de cineasta, roteirista e primeira mulher visionária no uso da sincronização de som, evoluiu para os efeitos especiais.
Alice dirigiu mais de mil filmes com elenco negro. Durante vinte anos de carreira, administrou seu próprio estúdio e inspirou vários artistas, como Alfred Hitchcock. Deixou a França e migrou para os EUA onde granjeou enorme sucesso, mesmo com uma carreira breve. Perdeu o glamour por conta do marido Herbert Blaché que se apossou de todas as suas invenções. Acabou por se tornar uma figura invisível. O poder havia se convertido em fumaça.
Creio que todos passam pelo “dia do esquecimento”: o dia em que o telefone não toca, o despertador não vibra alto, a solidão não faz ruídos, nenhum velho amigo prime a campainha da casa e nenhum conhecido vem apresentar um pleito ou pedido. Repetindo a festa de casamento do Poderoso Chefão, nenhum puxa-saco se curva para beijar a mão do padrinho. Todos se foram ou zarparam para a “Terra do Nunca”. Agora é a solidão que amedronta e assusta. Enfim, o poder cumpriu a sua função e chegou o tempo em que ele se esturricou e assumiu ares de deserto. O espaço é, agora, um mundo estrangeiro onde a língua falada é difícil de compreensão. Logo descobrimos que o nosso século esbanja facciosismo, intolerância, pompa, aparato e deslealdade. Nesse deserto, somos viajantes cansados, carregados de incertezas e indagações: será possível atravessar sozinho paisagens tão inóspitas ou áridas?
Todos têm dificuldade de pensar no tempo do isolamento. Tempo, tempo, tempo…entre um e outro, o intervalo para o descanso, o sentimento leve da finitude. O medo da tempestade de areia ou do vendaval que raramente acontece no deserto.
Essa crônica está relacionada com a política, mas o poder é privilégio de todos. Até mesmo do homem do cafezinho que circula pela sala como se fosse um avantesma. Ninguém percebe que ele escuta todos os segredos. Descobre-se, afinal, que por trás de cada solidão, existe a insegurança e a solidão que oprime. Dói, ainda mais, o convívio que deixou de existir, a amizade que se perdeu no tempo porque já não existe interesse em alimentá-la.
Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciência-jurídico-políticas pela Faculdade de Direito de Lisboa












