‘Dark Horse’, no centro de polêmica com Vorcaro, cola Bolsonaro a imagem divina

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‘Dark Horse’, no centro de polêmica com Vorcaro, cola Bolsonaro a imagem divina


“Você ama sua esposa, seus filhos. Tenho certeza de que reverencia o Espírito Santo e todos os santos, que chora em batismos, casamentos e funerais. Debaixo de tudo isso, o que você é?”, pergunta uma jornalista a Jair Bolsonaro no começo de “Dark Horse“.

“Algo que você nunca encontrou —um homem”, responde ele na sétima versão do roteiro do filme, de outubro do ano passado, à qual a reportagem teve acesso.

Com estreia prevista para o dia 11 de setembro nas salas de cinema, “Dark Horse” protagoniza, agora, um escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro.

Na quarta-feira (14), o site The Intercept Brasil divulgou um áudio em que o último pede ao dono do Banco Master dinheiro para finalizar o filme. Segundo o site, Vorcaro teria pago R$ 61 milhões, de um total de R$ 134 milhões acordados, à produção, por meio do filho do ex-presidente.

Ao longo de todo o roteiro de pouco mais de cem páginas, Jair Bolsonaro é descrito como uma espécie de divindade, um salvador do povo brasileiro que quer eliminar do país os “abutres” —jornalistas— e uma “doença infecciosa” —o socialismo.

Os termos aparecem não na boca de personagens, mas nas descrições técnicas do roteiro, isto é, em cabeçalhos que, em teoria, deveriam descrever objetivamente o que acontece em cena.

“Azarão”, em tradução livre, foi idealizado por Mário Frias, deputado do PL e ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, e retrata a internação do ex-presidente após ser vítima de uma facada, em 2018, durante a campanha eleitoral daquele ano.

Para Frias, que nega ter direcionado R$ 2 milhões de verbas públicas para a Go Up Entertainment —produtora brasileira, sediada na Califórnia, que também nega ter recebido auxílio de Vorcaro para a realização do projeto— o filme é uma “superprodução hollywoodiana”.

Não por acaso, o longa rodado em São Paulo mistura atores brasileiros a profissionais americanos, como Jim Caviezel, o Jesus de “A Paixão de Cristo” e apoiador de Donald Trump e suas pautas conservadoras. Ele assume o papel do protagonista, Bolsonaro, sob a batuta do diretor Cyrus Nowrasteh, que tem entre seus trabalhos diversos títulos de teor religioso e político, como “O Jovem Messias”.

É ele, ao lado do filho, Mark Nowrasteh, que assina o roteiro de “Dark Horse”, a partir de uma ideia original de Frias. No elenco estão ainda a americana Camille Guaty, como Michelle Bolsonaro, e Edward Finlay, Sergio Barreto e Marcus Ornellas, nos papéis de Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro.

Fora as polêmicas envolvendo Vorcaro, o projeto ainda foi alvo de denúncias de criativos e técnicos brasileiros que trabalharam nas gravações. Segundo relatório do Sated-SP, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo, a rotina no set de filmagem incluía agressões contra figurantes brasileiros, com assédio moral recorrente, revistas abusivas feitas por seguranças, diferenças no tratamento a brasileiros e americanos e até refeições com alimentos estragados.

O documento ainda cita termos de autorização de uso de imagem e voz com cachês abaixo do padrão de mercado, atraso em pagamentos, a proibição do uso de celulares em locações de filmagem, o trabalho de profissionais estrangeiros sem o recolhimento de taxas necessárias e a contratação de figurantes sem formação profissional e contratos formais.

Até a publicação da reportagem, a Go Up Entertainment não se pronunciou sobre o caso.

Marcado para estrear um mês antes das eleições presidenciais, o filme ainda não consta da base de dados da Ancine, a Agência Nacional do Cinema. Para ser lançado comercialmente nas salas brasileiras, ele precisa submeter um pedido de registro para o órgão.

Outra cena que funciona como um dos ápices emocionais do roteiro é aquela em que Bolsonaro recebe uma espécie de presságio, num almoço em família. Segurando a Bíblia, uma idosa chamada Dolores se aproxima do então candidato à Presidência e o abraça. Ela diz ter sido enviada por Deus e dá a ele pílulas caseiras, que o “protegerão de uma febre iminente”. Segundos depois, some como um fantasma.

Algumas páginas adiante, depois que a facada leva o personagem à UTI, a figura misteriosa volta com novos remédios. “Deus seja louvado. Ele poupou você para a nação, para o mundo”, afirma ela, que concede a Bolsonaro “permissão espiritual” para voltar aos debates.

Não que todas as passagens, escritas em inglês, descrevam o ex-presidente como uma figura divina. Pelo contrário. Em várias cenas, ele é descrito como um homem próximo à população, um político contrário a gestos exagerados e discursos empostados, que fala com eleitores como “amigos em uma mesa de bar”.

“A extrema esquerda está bem representada esta noite. Socialistas, trabalhistas —comunistas, pseudocomunistas, quase comunistas e comunistas barbudos. A mesma catástrofe nos últimos 30 anos”, diz num desses atos de campanha da ficção.

“[Eles] são parte de uma ortodoxia cansada e fracassada que não produz nada além de desespero, 14 milhões de desempregados, criminalidade desenfreada, 60 mil homicídios e 50 mil estupros por ano.”

Lula, segundo o roteiro, deve aparecer em imagens de arquivo e é um dos poucos políticos da oposição citados nominalmente. A deputada Maria do Rosário, por exemplo, virou Gloria de Rosales nas páginas. Na cena em que aparece, ela chama Bolsonaro de estuprador, num diálogo que remete ao episódio em que o ex-presidente disse a ela que “jamais a estupraria porque ela não merece”.

O roteiro também apresenta como falhas outras passagens da trajetória política de Bolsonaro. Quando ele é acusado de zombar de homens gays, o texto o descreve como uma “pessoa de verdade”, “grosseira, que usa palavrões e dá risada”.

O tom idealizado e ao mesmo tempo mundano do protagonista cria a personalidade perfeita para reproduzir, em “Dark Horse”, a jornada do herói, uma estrutura narrativa estudada pelo autor Joseph Campbell e que diz respeito a personagens que, ao deixar um cotidiano ordinário, atravessam transformações pessoais rumo a objetivos épicos.

É um tipo de estrutura presente em obras de grande apelo popular, como “Star Wars” e “Harry Potter“, que por vezes recorre a clichês que ressaltam o maniqueísmo entre o bem e o mal.

No roteiro, Bolsonaro é descrito como líder improvável, que vê a mídia se voltar contra ele e se recusa a abrir mão dos próprios ideais. Sua postura enquanto homem simples, próximo dos familiares e daqueles que nele acreditam, mas por vezes irreverente, projeta um ser universal, com quem é fácil se identificar.

Os inimigos, por outro lado, se veem restritos a descrições e diálogos caricatos. Responsável pela facada, Adélio Bispo de Oliveira, aqui rebatizado como Aurelio Barba, é o maior exemplo. Na cena em que é apresentado, num encontro entre dois conspiradores num bar sombrio, ele salta da cadeira e diz ser capaz de tudo. “Pelo povo, pela revolução”, entoa orgulhosamente.

Antes mesmo do atentado, descrições de cena atribuem a Aurélio o título de assassino. Quando o ataque enfim ocorre, enquanto uma multidão carrega Bolsonaro nos braços, o sangue que mancha sua blusa é descrito como “uma pequena flor vermelha que floresce em sua camisa”.

Mais tarde, já no hospital, o protagonista pergunta à equipe se alguém viu o responsável. “Não o esfaqueador, mas aquele que segura a faca”, diz, em referência aos mandantes do ataque.

A partir daí, a trama amplia a influência de Bolsonaro via rodas de oração, vigílias em frente ao hospital, a publicação de vídeos e outras formas de apoio popular ao então candidato. É como se a relação entre ele e seus eleitores alcançasse um campo invisível, que ultrapassa a presença física.

Numa dessas sequências, a frase “mito, a lenda” é formada por um conjunto de velas acessas. Já nas cenas finais, quando o protagonista enfim se recupera, ele mergulha entre apoiadores que entoam a frase repetidas vezes.

No fim da trama, quando a polícia detém conspiradores, uma cartela descreve a vitória de Bolsonaro, eleito em 2018, e o veredito do julgamento de Aurélio Barba, inocentado por insanidade.

Após investigações, a Polícia Federal concluiu que Adélio Bispo de Oliveira agiu sozinho. Inimputável, ele segue internado na Penitenciária Federal de Campo Grande, onde cumpre uma medida de segurança por tempo indeterminado após o diagnóstico de transtorno delirante.

Nas últimas páginas do roteiro, numa sala escura, um homem careca, descrito como um bizarro “ser esguio”, assiste à cerimônia de posse numa reunião secreta outros suspeitos do ataque. “Pode ser um juiz da Suprema Corte”, diz o roteiro, em menção a Alexandre de Moraes, que em 2025 condenou Bolsonaro a 27 anos de prisão pela trama golpista. A sentença é descrita antes da cartela que anuncia o fim da trama.



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