Crítica: Romance de Mariana Salomão Carrara explora vários limites da Justiça

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Crítica: Romance de Mariana Salomão Carrara explora vários limites da Justiça


Mariana Salomão Carrara já havia provado sua inventividade para tramas com “Não Fossem as Sílabas do Sábado” e seu talento para a experimentação com a linguagem em “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” –ambos reconhecidos com o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2023 e 2025.

Agora, em “Cláudia Vera Feliz Natal”, ela se debruça sobre o mundo do direito. Este é não só terreno fértil para a ficção, como numerosos filmes, seriados e livros comprovam, mas também o universo cotidiano de Carrara, que é defensora pública em São Paulo.

Não se espere aqui algo com clima de pesadelo kafkiano –embora uma das epígrafes do romance venha de “O Processo”.

O ponto de partida do enredo de “Cláudia Vera Feliz Natal” é, sim, um embate burocrático, porém o desenrolar é bem brasileiro, especificamente interiorano.

Um jovem juiz é acusado de demorar demais para decidir em um determinado processo e precisa apresentar sua defesa ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso. O romance seria a peça de defesa que apresenta ao desembargador responsável pelo seu caso.

O livro se abre seguindo a regra desse tipo de texto, “juridiquês” e tudo o mais. Contudo esse elemento disparador é apenas o pretexto para que o personagem narre sua vidinha nas comarcas de Feliz Natal, Vera e Cláudia, desfiando a sucessão de situações mais ou menos comezinhas que o teriam levado ao atraso de que é acusado.

Em poucas páginas, o tom empolado dos tribunais se mescla aos achados humorísticos com que o juiz vai narrar sua trajetória. Vive numa solidão danada, que não se deve somente à pasmaceira das cidadezinhas, mas principalmente ao seu parco traquejo social.

O magistrado é consciente de suas limitações e não resvala nunca para a autocomiseração, nem mesmo nos resumos de seu ralo cotidiano, que faz em telefonemas semanais à mãe.

Compara suas tentativas de tecer amizades àquelas que as crianças fazem em hotéis durante as temporadas de férias. Para se distrair, compra regularmente quinquilharias domésticas pela internet. Tenta se aproximar dos promotores, aos quais ele chama pelo nome inventado de Dúzio ou Dúzia.

Estes e outros personagens secundários são bem compostos, de forma a ressaltar os traços do protagonista que, com muita verve, Carrara constrói –um personagem ao mesmo tempo, ridículo e capaz de despertar empatia.

A linguagem jurídica aparece comedidamente, nos títulos e numerações dos capítulos e em intervenções nas quais o narrador se dirige ao desembargador. O recurso vem na medida para não ser enfadonho –ao contrário, reforça o tom cômico.

Logo entendemos que a maior aflição do magistrado não é a dificuldade de socialização ou a falta de perspectivas, mas o que ele próprio chama de “falta funcional”, uma verdadeira ojeriza a decidir, que ele tenta driblar propondo acordos.

Conforme vai se desenhando como uma espécie de Bartleby –o famoso personagem de Herman Melville que se recusa declaradamente a suas tarefas como escrivão–, o personagem vai ficando mais indefensável e a acusação que imputam a ele, mais crível.

Até que uma reviravolta do coração o dota de poderes que ele desconhecia, e sua vida, enfim, começa a ter sentido.

É assim, transformado, que ele se depara com o complexo caso cuja decisão teria retardado. Estamos já no quarto final do livro e, neste ponto, quando talvez já não esperássemos nada de novo, a trama ganha um tema maior, um que a autora diz, em entrevistas, ser pessoalmente caro a ela –o questionamento sobre o que define um núcleo familiar.

Enquanto o juiz tenta, pela primeira vez, de forma genuína, tomar uma decisão, somos também obrigados a refletir sobre essa indagação. E, no fim, entendemos que a Justiça pode até se esforçar, mas nem sempre seu aparato será suficiente para responder à sociedade com a celeridade desejável.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *