Certos documentários valem pelo personagem que apresentam ou revelam. É o caso deste “Toquinho – Encontros e um Violão“. Em primeiro lugar pelo paradoxo que ali se expõe. Trata-se de um compositor bastante famoso, com várias (talvez inúmeras) músicas de sucesso, mas sobre o qual a maioria das pessoas sabe muito pouca coisa.
Sabe, por exemplo, que ele foi parceiro de Vinicius de Moraes. Mas o parceiro, por brilhante que seja, é sempre um coadjuvante. E, no caso, de alguém que trouxe para a música popular o prestígio da erudição e da poesia.
Talvez seja mais que um parceiro. Talvez Toquinho tenha uma luz própria que o leigo não costuma alcançar, que ficou encoberta pela dupla, que o próprio definirá como uma relação de pai e filho, mas um tanto singular, pois às vezes era ele, o jovem, que fazia o papel de pai de Vinicius.
Enfim, como qualificá-lo nesse imenso território que é a música brasileira? Seja como for, Toquinho tem uma existência própria. Ele é o menino que aprende a tocar violão quando consegue impressionar um desconfiado Paulinho Nogueira, um dos maiores violonistas de seu tempo. É o momento em que se define seu destino.
Como Chico Buarque, seu amigo desde a juventude, foi um músico de segunda geração da bossa nova. Ao contrário de Chico, porém, que soube estar dentro e fora da bossa nova e criar um estilo muito pessoal, Toquinho ficou antes como o segundo da dupla. Ao ponto de, quando Vinicius morreu, sua mãe perguntar o que seria de sua carreira agora.
A carreira seguiu. Se o sucesso não vinha do Brasil, vinha da Itália. Sua relação com a Itália não se limita ao fato de ser descendente de italianos. Em sua primeira visita ao país, chegou a tocar na rua, enquanto Glauber Rocha passava o chapéu entre os transeuntes (brincadeira derivada de uma festa em que ambos estavam). Na Itália também reforçou seu laço com Chico Buarque (eram anos de ditadura fechada no Brasil). E na Itália alcançou sucessos tanto entre adultos como entre crianças.
Isso justifica a operação de “soft power” desenvolvida por vários entes italianos, como institutos e embaixadas que aparecem como patrocinadores do filme. Toquinho retribui. Afinal, além do sucesso que fez ao lado de Vinicius no país, ali construiu uma relação sólida tanto com colegas como com o público.
Não terá sido difícil. Ao longo de todo o documentário a imagem que se cria é de uma pessoa afável, chegada no futebol e no bilhar, alguém que gosta das pessoas com facilidade, com colegas e família que se mostram próximos dele.
Se a imagem é de alguém que desperta simpatia, o talento é indiscutível. Pode ser um epígono da bossa nova, mas observando sua trajetória, ninguém sairá do filme dizendo que isso é pouco.
Quanto ao filme, não se espere do trabalho de Érica Bernardini nada além do convencional. Longa entrevista com o músico. Entradas de outros personagens da música, em geral com os elogios de praxe. Produção de uma imagem afetiva, simpática sempre. Entrevistas com colegas, com o irmão por quem ele é apaixonado, com parceiras que parecem desenvolver com ele o mesmo tipo de vínculo que ele criou com Vinicius. E com as crianças, com quem o elo é forte, inclusive a música infantil é um dos pontos fortes de seu trabalho. Um filme modesto, mas eficaz.
Enfim, o que temos em “Encontros e um Violão” é isso mesmo, um trabalho quase em parceria com o objeto. Pois as parcerias para Toquinho nunca são fortuitas, são essenciais. É como se sua arte se apoiasse na proximidade com pessoas de que gosta. No final, é muito interessante ver um filme que não se dedica a um gênio de uma MPB tão cheia deles. Toquinho não é Tom, nem João, Caetano, Gil, Chico, Cartola, Paulinho da Viola, Arnaldo Antunes etc.
É um artista do encontro, da amizade, da conversa serena. Menos um intérprete do Brasil, como esses acima, do que a bom sujeito, bom cidadão, bom irmão e, claro, muito bom músico. Não é nada pouco. Se a música também é arte do encontro, é porque nasce de contatos, do prazer da convivência e das trocas. É onde Toquinho se afirma. Pode parecer pouco, mas não é.











