Talvez o maior medo para um romancista do porte de Haruki Murakami, dono de uma obra tão vasta e singular, seja o risco de se repetir e se tornar uma caricatura. Seu novo romance, “A Cidade e Suas Muralhas Incertas”, põe o leitor diante dessa questão.
Trata-se da reafirmação de uma identidade autoral, uma elegante variação dos temas que marcaram sua obra? Ou de uma insistência nas características que “deram certo” em outros momentos, sinal do esgotamento de uma forma e de uma visão de mundo?
No livro, Murakami encara esse risco e investe na repetição como método. O romance parte de uma novela publicada em 1980, depois renegada pelo autor, e lança um olhar retrospectivo sobre sua própria obra.
O que havia naquela história, escrita há mais de 40 anos, que ainda se sustenta? O que permanece, para o próprio Murakami, como uma imagem incontornável? O que acontece quando um escritor já consagrado retorna a uma narrativa de juventude não apenas para corrigi-la, mas para descobrir o que continuou a acompanhá-lo?
Murakami volta, assim, às cidades muradas, às bibliotecas, aos homens sem nome, às mulheres desaparecidas, aos fantasmas, aos Beatles, aos animais enigmáticos e às passagens entre mundos.
Em seus melhores momentos, o romance reafirma a habilidade de Murakami para construir atmosferas em que cotidiano e fantástico convivem sem choque. A cidade murada se torna uma imagem do luto: um lugar protegido da dor porque é protegido também do tempo e da mudança. Nela, nada pode ser perdido, mas tampouco algo novo pode acontecer.
A questão é que esse manuscrito de 1980 já havia sido reescrito em “O Fim do Mundo e um Impiedoso País das Maravilhas”, lançado em 1985. Os dois livros partem da mesma cidade, de suas muralhas, de seus unicórnios e da separação entre o homem e sua sombra, mas desenvolvem esse material de maneiras bastante diferentes.
Enquanto no romance mais antigo encontramos um escritor vigoroso, de imaginação excessiva, mesclando ficção científica, policial e fantasia num enredo de grande densidade emocional e alegórica, no novo livro vemos um Murakami mais contemplativo, escrevendo com uma lentidão que por vezes se torna enfadonha.
Murakami já não parece interessado na velocidade ou no choque entre gêneros, mas na permanência das imagens e na maneira como elas retornam transformadas pelo tempo.
A repetição então se torna o assunto do livro: o narrador não consegue abandonar seu primeiro amor, não consegue abandonar sua cidade, e o romance inteiro se organiza em torno da pergunta sobre como sair de um mundo imaginário que durante décadas ofereceu abrigo.
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O problema é que essa aposta nem sempre produz a intensidade esperada. O romance retoma informações que o leitor acabou de receber e insiste didaticamente no significado de suas principais imagens. Personagens explicam uns aos outros acontecimentos já narrados, refletem demoradamente sobre as muralhas, as sombras e a fronteira entre os mundos, como se o livro não confiasse na força de suas próprias metáforas.
A segunda parte se alonga em cenas que prometem contemplação, mas nem sempre acumulam força emocional; a terceira, em contraste, parece curta e abrupta. A impressão é de que um processo de edição mais firme poderia ter preservado a lentidão sem permitir que se transformasse em redundância.
“A Cidade e Suas Muralhas Incertas” talvez seja, ainda assim, um dos livros mais íntimos de Murakami. O escritor pergunta que nunca conseguiu deixar aquele texto antigo para trás. Sua história editorial reproduz sua própria matéria: um livro sobre a repetição a partir de uma narrativa que retornou repetidamente ao autor.
O resultado pode ser lido como uma variação sinfônica de seus temas, agora executados num andamento mais lento. Mas deixa a impressão de um romance protegido demais dentro do universo que Murakami construiu para si.
Suas muralhas conservam a singularidade de sua voz, ao mesmo tempo que dificultam a entrada de qualquer elemento verdadeiramente novo. Mais do que se repetir, o risco de um autor desse porte talvez seja apaixonar-se demais pela própria obra.












