Crítica: Livro mostra como alcoolismo de uma pessoa pode adoecer toda uma família

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Crítica: Livro mostra como alcoolismo de uma pessoa pode adoecer toda uma família


O título “Cordão de Aço Não Arrebenta Fácil”, romance de estreia de Bruno Gil Gonzalez lançado pela editora Patuá, já anuncia que estamos diante de uma história sobre vínculos resistentes. Mas o aço não aparece apenas como símbolo de força. Ele também pode prender, machucar e deixar marcas.

Cristina, a protagonista, conhece bem esse peso. Enfermeira, moradora de São Paulo e aspirante a uma vaga na faculdade de medicina, ela tenta construir o próprio futuro enquanto se sente responsável pelo pai alcoólatra.

Li este livro do lugar de uma mulher alcoólatra em recuperação. Por isso, algumas passagens me atingiram de maneira particular. Conheço a doença pelo lado de quem bebeu e causou preocupação, frustração e sofrimento.

Sei que, em certos momentos, a família inteira adoece junto. O álcool entra na casa pela mão de uma pessoa, mas aos poucos ocupa todos os cômodos, muda os afetos e obriga cada um a viver em estado permanente de alerta.

Cristina foi abandonada pela mãe ainda criança e cresceu acreditando que precisava salvar o pai. Divide-se entre o trabalho desgastante no hospital, as longas viagens de ônibus, o cursinho pré-vestibular e as crises provocadas pelo alcoolismo dele.

Seu sonho de ser médica parece sempre adiado por uma emergência familiar. Ela perde oportunidades, dinheiro, tempo e até o direito de pensar em si mesma. Existe amor entre os dois, mas é um amor atravessado pela culpa, pelo medo e por uma responsabilidade que nunca deveria ter sido colocada sobre os ombros de uma filha.

Talvez o maior mérito do autor seja não transformar o pai de Cristina em um vilão sem humanidade. O alcoolismo provoca estragos reais, e o livro não tenta disfarçá-los. Ao mesmo tempo, reconhece que atrás da pessoa alcoolizada existe alguém adoecido, muitas vezes envergonhado, perdido e incapaz de interromper sozinho o ciclo da bebida. Isso não apaga as consequências de seus atos, mas evita o julgamento fácil. Essa escolha torna a leitura mais verdadeira.

Durante muito tempo, pensei que meus problemas com o álcool atingiam somente a mim. Quando bebia, imaginava estar anestesiando uma dor particular. A recuperação me ensinou que a dependência nunca é inteiramente individual. Nossas ausências, promessas quebradas e recaídas alcançam justamente quem mais nos ama. Cristina representa as pessoas que tentam proteger o dependente e acabam esquecendo de proteger a si mesmas.

O livro também acerta ao mostrar que parar de beber não resolve magicamente tudo o que foi destruído. A sobriedade é um começo, não um passe de mágica. Quando o pai tenta se reerguer e ajuda Cristina a retomar o cursinho, abre-se uma possibilidade de reconstrução. Ainda assim, ela precisa enfrentar as feridas do passado e a difícil tarefa de descobrir quem é quando não está ocupada salvando outra pessoa.

Cristina não é uma heroína perfeita. É cínica, às vezes dura e contraditória. É isso que faz com que desejemos tanto sua vitória. Sua entrada na faculdade não surge como prêmio milagroso, mas como resultado de persistência. Ela precisa aprender que amar alguém não significa afundar junto com essa pessoa.

O texto de Gonzalez, publicitário de formação, é direto e visual, com ritmo de roteiro. São Paulo também participa da narrativa: está nos ônibus demorados, no cansaço dos trabalhadores e na distância entre o sonho e as condições materiais para realizá-lo. Essa dimensão social amplia o drama sem tirar sua intimidade.

“Cordão de Aço Não Arrebenta Fácil” é sobretudo um romance sobre a possibilidade de mudança. Como alcoólatra em recuperação, terminei a leitura com esperança. Não aquela esperança ingênua que promete apagar o passado, mas a que nasce quando finalmente assumimos nossas responsabilidades e permitimos que quem está ao nosso lado também tenha uma vida própria.

Alguns laços precisam ser afrouxados para que deixem de ferir. Outros podem ser refeitos com limites, honestidade e cuidado. O cordão de aço talvez não arrebente facilmente, mas pode mudar de forma. E, às vezes, recuperar-se é aprender que ninguém salva ninguém sozinho.



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