Logo nas primeiras sequências, um dos personagens explica o sentido do título, “Rosebush Pruning“. Em português, ele poderia ser traduzido por poda da roseira. Por razões desconhecidas, a distribuição preferiu mantê-lo no original.
Um equívoco em vários sentidos. Está certo que um nome como “poda de roseira” poderia atrair apenas amantes do cultivo de flores ou jardineiros. Pode não ser muito, mas ao menos haveria um público. Com esse nome no original, é uma dificuldade a mais que enfrentará. As demais não serão menores.
No primeiro movimento, o filme se empenha em mostrar uma família muito rica que se mudou dos EUA para a Espanha. Compõe-se de um pai, três filhos homens e uma filha, que têm por hábito venerar a estátua da mãe, que mantêm em uma sala especial. A mãe teria sido morta por lobos, de maneira que a estátua substitui o túmulo, pois dela nada sobrou —é o que se diz.
Em homenagem a ela, todo mês sacrificam um cordeiro e o levam ao local onde os lobos a teriam destroçado.
Logo em seguida somos introduzidos aos membros da família, constituída pelos cinco milionários ociosos e absolutamente perversos que vivem em uma mansão. As perversões já tiveram seu tempo. Hoje, recorrer a elas em nível hiperbólico não escandaliza ninguém e nem desvenda nada. No caso, cada qual tem seu hábito e, para ser bem franco, não há razão para se deter em nenhum deles.
Genericamente, estamos diante de um mundo que se quer fechado; as relações interpessoais são exclusivamente familiares. Ou quase, já que Jack (Jamie Bell) atreve-se a namorar uma garota de fora desse círculo, Martha (Elle Fanning) —o que todos consideram uma excentricidade. Anna, a irmã, é a mais ostensiva na matéria: trata de sabotar o namoro tão logo Jack a leva para sua casa.
Esse é o espírito da coisa, e ninguém se espantará de que o roteiro tenha sido escrito por Efthimis Filippou, conhecido por sua colaboração com o também grego Yorgos Lanthimos. É mais estranho que tenha sido inspirado no belo “De Punhos Cerrados” (1965), de Marco Bellocchio, que trata de uma relação incestuosa entre dois irmãos, mas esse lado incestuoso é a única semelhança entre os dois filmes.
Mesmo Karim Aïnouz não parece ter grande paixão pelo roteiro, que dirige com frieza, sem demonstrar interesse por nenhum dos personagens. No que tem certa razão: com exceção, talvez, do pai, que em sua cegueira carrega um pouco de mistério, e da mãe —que, veremos, nem tão morta assim está.
E, sim, há Ed (Callum Turner), o rapaz que se dedica às rosas e entende que as famílias, assim como as roseiras, precisam passar por podas periodicamente. Ele é que nos introduz ao segundo movimento do filme, que consiste no plano de exterminar sua própria família.
Aïnouz se interessa habitualmente por personagens homossexuais, e eles (ou esse traço, que de um modo ou outro é partilhado por vários dos familiares) é que acabam tendo algum relevo no filme. Sobretudo com Ed, que, logo na sequência de abertura, em uma visita à Grécia, conhece um rapaz que consegue expandir seu interesse exclusivo por moda e música pop —um traço comum na família— e lhe contar algo sobre a Grécia, seus mitos e sua história.
No fundo, todo o filme é dominado por duas forças: uma que leva os personagens a saírem do círculo familiar e outra que os mantém aprisionados. Essas linhas antagônicas parecem interessar pouco ao diretor, o que não beneficia o filme, já que o roteiro é construído essencialmente sobre elas.
A direção fria é completada por um grupo de atores que, em linhas gerais, parecem também pouco interessados, ou incapazes de dar vida a personagens cuja existência se restringe ao que acontece na tela.
Compreende-se o problema. Ele ajuda a entender por que os distribuidores nem mesmo se interessaram em dar um título em português para o filme, não por acaso lançado num momento em que o interesse de quem gosta de cinema está nos filmes da Mostra de Cinema.












