Crítica: Julia Ducournau, em ‘Alpha’, mostra seus excessos na direção

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Crítica: Julia Ducournau, em ‘Alpha’, mostra seus excessos na direção


O mais recente longa-metragem de Julia Ducournau é feito de ingredientes preciosos e raros. Ambientado em Le Havre, na Normandia, na década de 1980, “Alpha” tem um duplo pano de fundo: por um lado, o medo e o desconhecimento que acompanharam o surgimento dos primeiros casos de AIDS; por outro, o cotidiano de uma família originária da região norte da Argélia, a Cabília, vivendo na França.

Premiada com a Palma de Ouro por “Titane”, a cineasta retoma, aqui, a estética do “body horror” que a consagrou, apostando numa visualidade do exagero.

Em primeiro lugar, é louvável quando um filme traz para o primeiro plano relações de afeto que fogem das configurações mais exploradas, como o amor romântico, a maternidade ou a paternidade. Na trama de Ducournau, Alpha (Mélissa Boros) é uma garota de 13 anos que, de repente, vê-se obrigada a dividir o quarto com o tio, Amin (Tahar Rahim), viciado em heroína. O fato de o tio ser soropositivo e viver entre a iminência da overdose e as agruras da abstinência não impedem a sobrinha de se conectar com ele, em improváveis momentos de empatia, carinho e camaradagem.

Além disso, faz bem ver na tela as dinâmicas da presença argelina na sociedade francesa, tensionadas entre os esforços de integração, a ligação com as tradições culturais e o racismo. Parte da família de Alpha vive em bairros marcados pela presença de grandes conjuntos habitacionais, à época novos, construídos para abrigar a população argelina nos anos após a independência. A história da mãe de Ducournau, que tem raízes na Argélia, está entre os elementos autobiográficos a que a cineasta recorreu no roteiro.

Numa festa, alguém faz uma tatuagem em Alpha com uma agulha de origem duvidosa. Será que ela está contaminada? A tatuagem custa a cicatrizar, os colegas a isolam, num amálgama entre o medo da doença desconhecida e o preconceito racial.

Interpretada pela atriz franco-iraniana Golshifteh Farahani, a mãe de Alpha, médica de um hospital para onde se dirigem pessoas infectadas com o vírus HIV, atua como intermediária não só na relação entre o irmão e a filha, mas também entre a geração precedente, que conserva a língua materna, e a seguinte, que só fala francês.

Franco-argelino como seu personagem, Tahar Rahim precisou emagrecer 20 quilos para o papel. A visão de seu corpo, entre o musculoso e o cadavérico, caminhando em passagens mais dançantes da trilha sonora, por vezes lembra a performance de Denis Lavant em “Sangue ruim” (1986), de Leos Carax, cujo enredo também trata da emergência de um vírus misterioso.

Infelizmente, porém, a soma desses elementos interessantes não garante que o filme funcione – sobretudo porque, em determinado momento, a acumulação se torna excessiva.

A narrativa se estrutura na articulação entre dois tempos: a infância e a adolescência de Alpha, ambas marcadas pela visão do tio em situações extremas. O penteado da mãe (ora cacheado, ora alisado), a iluminação (com tons quentes no início dos anos 1980, e mais pálidos depois) e o crescimento da garota ajudam o espectador a distinguir essas duas épocas, que em alguns casos se sobrepõem. Ducournau é até engenhosa ao identificar repetições, recorrências e ecos do passado no presente (e vice-versa), mas a confusão sobrevém em mais de um momento.

Se não bastassem todas essas camadas, há a opção estética, discutível, de atribuir ao corpo dos doentes uma materialidade mineral, como se a pele se transformasse gradativamente em pedra, aproximando-se do mármore das sepulturas. Não fica claro o propósito desse recurso.

Na França, parte da crítica considerou exagerado o sofrimento atribuído a uma protagonista tão jovem. Mais problemáticos talvez sejam os excessos melodramáticos da heroína, que desempenha os papéis de irmã, mãe e médica salvadora geral dos enfermos, e de sua filha, em choque permanente entre a descoberta da sexualidade, a exclusão na escola, os cuidados com o tio e as dúvidas sobre a própria sanidade.



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