Crítica: ‘Futuro Futuro’ faz reflexão política com a estética do ‘pós-tudo’

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Crítica: ‘Futuro Futuro’ faz reflexão política com a estética do ‘pós-tudo’


Meses após sua primeira exibição pública no Brasil, estreia em nosso circuito comercial o mais recente longa de Davi Pretto, “Futuro Futuro”, grande vencedor do Festival de Brasília do ano passado. A estreia mundial foi há pouco mais de um ano, no prestigiado festival de Karlovy Vary, na República Tcheca.

O filme descreve um mundo distópico em que os mais ricos moram em bairros-fortalezas de uma cidade dividida e os mais pobres, que representam a grande maioria, vivem de subempregos, ou sem emprego algum, e usam rastreadores. O apocalipse da humanidade, de uma sociedade, da vida urbana, do capitalismo.

Nesse contexto, vaga como um zumbi um homem apelidado de K., por causa de uma estranha cicatriz em seu ombro. Ele tem amnésia e não lembra quem é ou de onde veio, mas sonha recorrentemente com um mundo diferente daquele que vê, de prédios altos com belas vistas e grandes piscinas.

Rodado em Porto Alegre, “antes e depois da enchente histórica de maio de 2024”, como informa um letreiro no começo, o filme faz da capital gaúcha um cenário de ficção científica em que um futuro possível realmente acontece, graças ao aquecimento global e ao abandono das políticas sociais que visam diminuir as desigualdades.

K. remete a Kafka e ao personagem Josef K., de “O Processo“. Mas o filme, como muitos outros do cinema contemporâneo, carrega várias referências, de “O Homem Sem Passado”, de Aki Kaurismaki, a filmes pós-apocalípticos como “No Mundo de 2020”, de Richard Fleischer.

Nesse tipo de distopia, porém, ninguém supera George Romero, que, em “Terra dos Mortos“, de 2005, quarto longa de sua série sobre mortos-vivos, faz um horror político de rara força, e de algumas sintonias com a obra de Pretto: pessoas fadadas a se movimentarem como zumbis, ricos protegidos da maioria da sociedade, frágil ligação entre a parcela majoritária e a minoritária, prédio alto cercado por água.

É discutível a ideia de que tudo é político. A resposta mais usada a tal afirmação é: se tudo é político, nada o é de fato. Ou se pensa em uma acomodação conciliadora e se fala em níveis de politização, do mais raso ao mais afrontador. Como medir uma obra de arte nesses termos?

Convém então separar as coisas e dizer que “Futuro Futuro” é também um filme político, de reação às políticas de descaso que vemos, não só em Porto Alegre, como em diversas outras capitais brasileiras, incluindo as maiores, São Paulo e Rio de Janeiro. Parece um Romero light, uma obra que não ultrapassou a estratégia dos meios-tons.

Romero não é tão explícito a ponto de colocar uma fala como “esta vida de merda que a gente leva aqui é o que sustenta eles lá do outro lado”, e talvez por isso seu filme tenha mais força. O recado, ou, se preferirem, a mensagem, é a mesma: exploradores e explorados num futuro em que não há mais nuances entre os primeiros e os segundos.

Se a mensagem é evidente no filme brasileiro, o mergulho nos gêneros nunca chega a ser definitivo, seja na ficção científica pós-apocalíptica, seja no horror psicológico, que fica ainda mais na sugestão. O filme representa a era do “pós-tudo”, do pós-gêneros, do hibridismo como razão de ser.

Essa limitação conceitual é a mesma de boa parte dos filmes brasileiros recentes, embora não seja exclusividade do nosso cinema. E ocorre também em filmes bem-sucedidos artisticamente. Parece que há um receio de se assumir como parte de um gênero, de que a associação desse ao filme uma feição mais comercial.

Talvez por isso muito se comentou entre cinéfilos, nos festivais por onde o filme passou, sobre o uso da inteligência artificial, que neste momento ainda é notícia, mas que provavelmente será a primeira coisa esquecida com o decorrer dos anos. Porque imagens semelhantes estão em filmes passados que não usaram IA. Os meios de se chegar a tais imagens, nesse caso, não importam tanto.

“Futuro Futuro”, nesse sentido e apesar das limitações apontadas, deveria ser mais lembrado por algumas imagens prosaicas, de encontros humanos, de resistência pela afeição. Essa é sua maior força, ainda que as cenas de ficção científica fortaleçam as prosaicas pelos contrapontos oferecidos.



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