Crítica: ‘Fé Disfarçada’ explora dinâmicas de dominação no sexo, mas é limitado

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Crítica: ‘Fé Disfarçada’ explora dinâmicas de dominação no sexo, mas é limitado


Fé Verdejo é historiadora. Pesquisa vestígios da vida íntima de mulheres escravizadas em arquivos dispersos pela América Latina. Martin Tirado, especialista em documentos que trabalha na equipe dela em uma universidade, narra como o encontro entre os dois mudou sua vida ao longo de um ano.

Os capítulos de “Fé Disfarçada” alternam a ação no presente com relatos coloniais que misturam religião, maternidade, violência sexual e estratégias para obter a alforria.

A protagonista é uma intelectual negra com o projeto de restituir alguma dignidade para mulheres que figuram em registros históricos como sedutoras e manipuladoras, embora tenham sofrido toda espécie de abusos.

O romance aborda inúmeras contradições, inclusive como é possível conhecer uma história coletiva de traumas e agressões sexuais e ainda assim, individualmente, se excitar com práticas consensuais de dominação entre adultos.

A autora, a porto-riquenha Mayra Santos-Febres, observa a complexidade do desejo. O narrador, um homem branco, se envolve com a chefe em um jogo de sedução baseado em silêncios e trocas intelectuais. É a historiadora quem toma a iniciativa com o colega, dá a ele uma série de orientações para conduzir a relação, mas usa um traje que fere sua pele durante o ato sexual.

Martin se apaixona por Fé, mas é um narrador não confiável. O fato de só sabermos o que ele nos conta sobre a pesquisadora serve de lembrete da assimetria de poder entre quem narra e quem é retratada pelo outro.

“Fé Disfarçada” tem apenas um capítulo narrado pela protagonista: a memória de sua primeira relação sexual, iniciada com tesão e curiosidade, mas que termina num estupro. O episódio mescla excitação, medo e o prazer apesar da agressão.

A experiência dialoga com os arquivos da pesquisa da personagem, deixando a pergunta: seria possível para qualquer mulher ter uma vida sexual sem contato com a violência?

É possível ler o relato de Martin como ironia, uma vez que o narrador foi criado por uma autora negra. O personagem pode representar um branco bem-intencionado, imerso em fantasias, que se supõe capaz de libertar uma mulher negra de traumas passados.

A maior evidência do quanto Martin é risível é seu vocabulário formal e pouco excitante para se referir ao sexo. “Ao fundo de suas pernas, um púbis largo e negro se entreabre. Os lábios tremem como as asas de uma borboleta, rosados, enquanto Fé se acomoda sobre o divã, que enterra ainda mais os ferros do traje dentro de sua carne. Mordo minha língua. Quero comer essa carne. Abeberar. Enterro meu rosto entre coxas de Fé. Lambo e mordo até me faltar o ar.”

O livro parece ambicioso por abordar os traumas históricos coletivos da escravidão e as possibilidades de mulheres negras vivenciarem, hoje, o prazer de forma saudável —tendo seus desejos e limites respeitados, embora persista um imaginário racista de sensualidade e desejo insaciáveis.

Mas a obra se limita a refletir como o presente repete o passado —ainda que protagonista alcance independência financeira e capital intelectual. Isso porque, quando Fé narra sua história, de todas as experiências que poderiam ser destacadas para dar nuances à personagem, a escolha da autora é por um estupro.

É fato que um romance não precisa responder a temas tão complexos, nem é esse o papel da literatura. Se “Fé Disfarçada” é um livro provocador, ele se torna cansativo com a repetição de cenas violentas e descrições constrangedoras de encontros sexuais.

O romance estimula a imaginar os não-ditos e também a desejar outras histórias, em que mulheres negras podem gozar sem ter seu sangue derramado.



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