Crítica: Em jogo de beisebol, ‘Eephus’ manipula a passagem do tempo

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Crítica: Em jogo de beisebol, ‘Eephus’ manipula a passagem do tempo


Em uma manhã comum, dois grupos da Nova Inglaterra se reúnem para jogar beisebol. Divididos entre vermelhos e azuis, eles se aquecem nos bancos e vestiários. Crianças brincam nos arredores, pouco atraídas pelo confronto de titãs. O vendedor de um food truck atrapalha o treinamento com anúncios desenfreados. Um senhor tenta prever o placar enquanto conversa sozinho na arquibancada. Tudo segue em plena normalidade, mas este não é um dia como qualquer outro. É a última partida que o campo irá presenciar.

Se alguns diretores passam toda uma vida procurando maneiras de filmar milagres, o que Carson Lund propõe com “Eephus”, em exibição na Mostra Internacional de São Paulo, é praticamente o contrário. O cineasta escolhe um local fadado ao esquecimento para chamar de paraíso e dedica uma hora e quarenta à sua falência natural. Somos testemunhas de uma terra de possibilidades cuja magia está prestes a acabar, nem que para isso precise viver as suas últimas horas de encantamento.

Diferente da perfeição que um deus esperaria para a sua criação idílica, a direção de Lund não está preocupada com a performance desses esportistas. Na verdade, até mesmo aqueles que nunca acompanharam uma partida de beisebol perceberão facilmente que todos jogam muito mal. Nosso olhar perde interesse pelo jogo e somos atraídos por um cenário maior.

O trunfo está na valorização do que dá sentido à partida. A memória do senhor esquecido insiste em resgatar jogos do passado. Um garoto seduzido pelos saques e rebatidas ameaça se aproximar da grade metálica. Seu rosto é contraposto ao de um jogador veterano. Passado, presente e futuro se encontram em uma mesma imagem.

Os enquadramentos se esforçam para encaixar os seres errantes. Lund comprime gerações, mistura sonhos e frustrações através da câmera, distorcendo o espaço segundo a vontade dos personagens. Por vezes, parece maior do que realmente o é, escondendo corredores e bancadas que guardam novos detalhes. Por outras, parece se fechar, sufocando os personagens incapazes de viver sem uns aos outros.

É como a jogada título. Em determinado momento, um jovem arremessador explica a sua principal estratégia: a bola “Eephus”. Nem rápido nem devagar demais, o arremesso confunde aquele que se prepara para rebater. Dá a impressão de estar manipulando o tempo, avançando e retrocedendo simultaneamente. Uma síntese do projeto, que estende os minutos para abrigar seus últimos momentos, sem que a opressão do avanço deixe de afetar os jogadores.

Esse temor aumenta quando as luzes se apagam. O cair da noite obriga os times a persistirem no escuro. Tudo se torna sugestão, guiada por gritos, acertos de bola e corpos disparando sobre o chão terroso. É um momento em que o filme atinge um estado quase transcendental, onde o culto à partida convence o espectador daquilo que não é possível ver.

A partir daí, o filme brinca com os seus personagens enquanto ilustrações e os mergulha em uma espécie de transe expressionista. As sombras fortes e o alto contraste os deslocam da realidade, alinhados ao seu desejo de preservar o campo de beisebol e livrá-lo dos efeitos do tempo.

“Eephus” é esse exercício duplo. Projeta uma realidade quase paralela, onde o tempo se alonga e os jogos de beisebol podem durar por horas e horas. Mas seu cronômetro nunca para de avançar, teimando anunciar um fim iminente. Nunca uma partida foi tão espirituosa.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *