Crítica: ‘Castlevania: Belmont’s Curse’ vampiriza outros títulos para se renovar

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Crítica: ‘Castlevania: Belmont’s Curse’ vampiriza outros títulos para se renovar


Era uma vez um ser antiquíssimo, com um passado de glórias e tormentos, que, de tempos em tempos, vai atrás de sangue vivo para rejuvenescer. A sina do Drácula parece, hoje, ter algo a ver com os rumos da franquia quarentona “Castlevania”, que volta à praça, nesta quinta (15), com “Belmont’s Curse”.

É o primeiro jogo original para valer da série desde 2014, quando saiu “Lords of Shadow 2”, uma aventura malajambrada em 3D, já sem a força do criador Koji Igarashi. Nesses 12 anos, a Konami preferiu emprestar a marca para máquinas de “pachinko” —uma espécie de cassino com bolinhas metálicas, muito popular no Japão— e um game online hoje descontinuado.

No meio-tempo, boas coletâneas reviveram títulos do GameBoy Advance e do Nintendo DS. Agora, a cargo do estúdio francês Evil Empire, “Belmont’s Curse” consegue fazer o básico —mostra que o coração de “Castlevania” ainda bate, mesmo que sem o vigor de antes.

É um prazer voltar à pele de uma caçadora de vampiros para explorar os labirintos do castelo do Drácula num bom e velho jogo de plataforma explorativo em 2D com visual tridimensional. O pacote se destaca com o belo visual no estilo “cel shading”, que deixa as figuras tridimensionais no limiar entre uma iluminura e um desenho animado, e a trilha medieval futurista de Danny Asadi, com coro, cravo e sons eletrônicos pesados.

Ainda assim, é difícil não sentir que algo da franquia pioneira foi superado por indies dos últimos anos que beberam na sua fonte, como “Hollow Knight”, “Blasphemous”, “Animal Well” e “Dead Cells” —este último com expansões feitas pela própria Evil Empire. A sensação cresce nas cerca de 20 horas de aventura, sobretudo quando desafios de plataforma interrompem o fluxo.

Falando em sangue novo, o jogador encarna a jovem Rose Belmont, filha de Trevor —de “Castlevania 3″—, que viaja com o pai a Paris, em 1499, após um suspeito pedido de ajuda do arcebispo local. O terror já está comendo solto na cidade e, claro, tudo não passa de uma armadilha para ressuscitar o Drácula.

Rose quer vingança após o conde ter amaldiçoado o sangue de sua mãe, a feiticeira Sypha Belnades, e, consequentemente, também da jovem. Antes de morrer, Sypha deixou à filha um baralho de tarô, cujos mistérios ela só descobre agora.

O enredo dos jogos tende, no geral, a exageros e a uma linha temporal confusa que atravessa milênios. Ciente disso, a história de “Belmont’s Curse”, econômica, é eficiente em apresentar seus personagens a um novo público, sem perder a chance de agradar fãs de longa data.

Há conexões com figuras mais ou menos lembradas, como o antepassado Leon Belmont de “Lament of Innocence”, Alucard, do celebrado “Symphony of the Night” e personagem da série da Netflix, a Morte, a Medusa e vilões obscuros, como Carmilla e Isaac, agora repaginados em visual demoníaco sexy ao estilo do game “Hades”. Há até espaço para gente como Joana D’Arc, Rei Artur e Leonor da Aquitânia.

Após as divertidas batalhas com chefes, eles são aprisionados em cartas de tarô equipáveis que dão poderes a Rose, como a conhecida cruz-bumerangue da franquia, feitiços de fogo, teletransporte etc., que consomem pontos da barra de magia e são integradas ao combate fluído.

O grande diferencial de “Belmont’s Curse” é o uso do chicote não só como arma, mas para Rose sair se pendurando e balançando entre ganchos espalhados pelas paredes e tetos. A habilidade funciona bem no geral, mas por vezes os controles podem parecer lentos e frustrantes em seções que exigem mais precisão.

O recurso se integra melhor aos combates, já que o jogador pode usar a habilidade para se agarrar nos inimigos e sair voando na direção deles. Esse dinamismo, que remete à fluidez de “Dead Cells”, difere dos habituais protagonistas “travadões” da série, mas, depois de algumas horas, as batalhas tendem a se repetir em ciclos de porradaria e cura —é possível beber até três poções que restauram vida—, sobretudo pela diversidade limitada de oponentes.

Rose vai passar pelas ruas, catacumbas, cemitérios até a Catedral de Notre-Dame de Paris antes de encarar as torres do castelo de Drácula. Cada região esbanja personalidade e segredos para serem descobertos gradativamente com a conquista de novas habilidades —como uma esquiva aérea, pulo duplo e uma aura para atravessar paredes e defletir ataques.

Depois de algumas horas mais lineares, “Belmont’s Curse” solta a mão do jogador e deixa que ele explore o mundo com mais liberdade, o que também pode levar a muitos becos sem saída. Quem conhece o gênero já está acostumado, mas algumas vezes fica a impressão de que o design do mapa tem suas imperfeições, obrigando o jogador a voltar a pé por caminhos extensos e sem graça.

Quando engrena, porém, a jornada vale a pena pelo seu senso de progressão similar ao de “Symphony of the Night”. A personagem brilha ao subir de nível, por exemplo, e a variedade de armas —há sete categorias ao todo, de espadas a lanças e manoplas— e acessórios —que mudam seus status de ataque, defesa, vida etc.— permite que cada jogador se encontre no que preferir. Muitos desses itens, no entanto, chegam só no fim, deixando pouca chance de testá-las sem refazer trechos.

Felizmente, por fim, “Belmont’s Curse” não quer fazer parte da onda de jogos dificílimos, inspirados por “Dark Souls”, focados mais em punir do que em alegrar. Se morrer, é só levantar e seguir de novo. Na mesma toada, a Evil Empire conseguiu trazer “Castlevania” de volta à vida, sem dúvida, mas não à vanguarda.



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