Para quem começa a ler o primeiro romance de Albertine Sarrazin, além de uma abrupta e inesperada incursão no submundo francês, o que mais chama atenção é o quanto o corpo —os afetos, as sensações, o erotismo— salta aos olhos, roça a pele e faz das tripas o coração das palavras.
Ficamos assim de pronto entre esse amálgama de experiências carnais e uma narradora que busca dar consistência literária para uma vida de golpes, furtos e prostituição —uma narradora entre os macetes e gírias do meio em que se encontra e uma cultura erudita que a seduz. Entre o desejo de ser reconhecida e o gozo de estar à margem, entre a busca de um lugar de acolhimento e o constante estado de fuga.
Afinal, trata-se de um romance em primeira pessoa que conta a fratura entre esses mundos e, materialmente, se desdobra na fratura do “astrágalo” —um osso da parte superior do pé— durante a escapada de um presídio. Disso se segue toda uma trama de personagens e lugares que escondem, usurpam ou acolhem a nossa narradora.
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Primeiro de uma trilogia, “O Astrágalo” continua em outros dois romances ainda não traduzidos: “La Cavale” (a fuga), no qual a heroína foge de novo da prisão, e “La Traversière” (a flauta transversal ou a travessia), que descreve um difícil e lento desligamento da vida na cadeia.
Num primeiro momento, parece ser evidente o que causou o sucesso desta trama —publicada pela primeira vez em 1965, no auge do estruturalismo francês e às vésperas de maio de 1968—, pela aura e o glamour de uma vida bandida, à margem da lei, pondo em questão instituições disciplinares como a família, a escola, o hospital, a prisão.
Por outro lado, pensando em sua republicação hoje, também parece saltar aos olhos seu interesse em um contexto no qual a autoficção se tornou quase hegemônica.
No entanto, há algo mais em jogo. Não apenas somos jogados naquelas cenas corpóreas e cruas como vemos o quanto esse mundo “à margem” exige estratégias constantes de ficcionalização e de leitura rápida e arguta do cinismo e das perversões alheias que atravessam a vida social como um todo.
Nesse sentido, a cultura refinada de uma fugitiva permite interpretar em um outro grau as encenações que constituem o mundo da lei e à margem da lei. Em outras palavras, a autoficção não aparece apenas como um gênero ligado a uma experiência real, mas revela a ficcionalidade como estratégia de sobrevivência.
Mesmo porque é a arguta interpretação desse “theatrum mundi” que dá força às cenas, entre as gírias e a norma culta, o corpo e o simbólico, a lei e o fora da lei.
Não seria difícil, então, ver aqui algo daquela malandragem muito conhecida dos brasileiros. Malandragem que faz com que a autoficção seja na verdade o desdobramento da “paratopia” da escritora, que se coloca ao mesmo tempo dentro e fora do mundo, dentro e fora da narrativa.
A excelente tradução de Mônica Kalil capta com profundidade e precisão esse movimento, dando ao texto uma grande fluidez, sem tentar suturar os delírios e passagens que atravessam a suposta realidade descrita, encontrando soluções excelentes para o corpo a corpo com a linguagem que atravessa a narrativa.
Nem sempre é fácil de entender, como neste romance, que o corpo não é um objeto dado, anterior à experiência: ele é uma construção que se faz com a linguagem, no mundo, com o mundo e através do mundo. Um astrágalo estragado não é apenas uma palavra difícil e deslocada para um contexto de bebedeiras e contravenções, feridas e cicatrizes que atravessam a vida da fugitiva.
A narrativa vai além para tornar-se a própria linha que delineia a relação entre esses mundos —o que faz de uma fuga e um astrágalo algo que permite ouvir “um estupor infinito” de uma “ferida estranha” que se entranha à vida e aos encontros e desencontros que se perfazem pelo caminho.
E eis que emerge, no avesso da autobiografia, um corpo e um mundo que se constroem com a experiência e se confundem com a própria narrativa. Afinal, como diria Lacan, não é a ficção que precisa ser verdadeira, mas é a verdade que tem a forma da ficção.













