Numa conversa com jornalistas, o presidente americano diz que acaba de matar um assassino em série. A confissão traz dúvidas sobre suas taxas de aprovação. “Eu jurei proteger o povo, e, às vezes, isso significa não ganhar curtidas e inscritos. Se você não gosta disso, tudo que posso oferecer é um emoji de um prato e da minha bunda”, afirma, imponente.
A cena pertence ao desenho “Presidente Curtis”, que chegou ao HBO Max nesta segunda, mas poderia ter ocorrido no atual governo dos Estados Unidos, já que Donald Trump fez de ameaças à mídia uma das marcas de seu segundo mandato.
Não à toa, Dan Harmon diz que decidiu reduzir a brutalidade do personagem, introduzido em “Rick and Morty” durante o segundo mandato de Barack Obama, e cortar uma piada que parecia satirizar planos recentes, e nada fictícios, de anexação da Groenlândia.
“O programa não existe para as pessoas lembrarem do que querem esquecer —que a política se baseia em propaganda e somos enganados pelas redes, entre outros assuntos. A ideia é ser uma válvula de escape”, afirma o criador, que há mais de uma década lançou o desenho sobre um cientista alcoólatra que rompe leis intergalácticas.
Escrito para o segundo ano da série —hoje na nona temporada e o maior sucesso do Adult Swim, braço do Cartoon Network para adultos—, Andre Curtis foi eleito para ter o próprio spin-off ainda no governo de Joe Biden, quando Hollywood criticava o governo mais abertamente.
Na trama, o líder joga videogame e tira selfies com eleitores fiéis. Isso, claro, quando não está defendendo Louisiana —que recentemente limitou uma lei de proteção a cidadãos negros— de franceses ressentidos, enfrentando monstros numa prisão de segurança máxima ou roubando energia de uma Terra alternativa.
As insanidades lembram outras que Keith David, dono da voz grave e sedutora do protagonista, já encarou na carreira. Sob direção de John Carpenter, por exemplo, conhecido por filmar tramas de terror com pouco dinheiro, viu aliens disfarçados de empresários tomarem o mundo em “Eles Vivem“, de 1988.
“Curtis não liga para a opinião dos outros e governa do jeito que considera melhor”, afirma o ator, para quem o seriado chega numa época em que o absurdo ocorre dentro e fora das telas. “Ele é um homem do povo e tenta fazer o melhor para o país. Você pode nem sempre concordar, mas sua agenda é sincera.”
Para o cocriador James Sicialino, o personagem é uma mistura entre um golden retriever e um menino de oito anos, carentes e teimosos no mesmo nível. Na mesa dos roteiristas, o desafio foi equilibrar a imagem de diplomata disciplinado e a de cowboy destemido.
Daí surgem episódios que ironizam mitos do governo americano. O primeiro não só confirma a teoria de que o pouso na Lua foi encenado por Stanley Kubrick, como mostra um filho mutante de Richard Nixon vivendo no espaço sideral.
Noutro capítulo, agora em Camp David, o acampamento militar dos presidentes americanos, Curtis se isola para eliminar uma entidade que perturba suas memórias e tenta levá-lo para a cama.
“É preciso ir longe o suficiente para explorar o lado mais absurdo de uma teoria da conspiração. É o que a comédia faz —ela intensifica e explora esses assuntos”, afirma Jim Rash, que dubla o agente principal das forças presidenciais.
Numa época de retração —vários artistas, antes vocais contra Trump, têm escolhido o silêncio em eventos recentes—, o personagem, ironicamente, é biologicamente incapaz de esconder opiniões.
Em dado momento, para reaver a confiança de superiores, é submetido a um teste com robôs psicóticos.
À luz do cancelamento de humorísticos como o Late Show e da possível fusão entre a Warner, dona do Cartoon Network, e a Paramount —cujo CEO é aliado de Trump—, há quem tema que canais como o Adult Swim percam a liberdade.
“É possível. Venho trabalhando para chefes diferentes desde que comecei na televisão”, diz Harmon. A sitcom “Community“, em que alunos de uma faculdade questionam o sistema educacional, é outro destaque de sua carreira.
Ao longo de seis temporadas, o projeto trocou de emissora e enfrentou a demissão temporária do criador, afastado do quarto ano da produção por conflitos criativos. Hoje, é lembrado especialmente por episódios bizarros, como os que envolvem batalhas de paintball.
“Hoje, tenho o privilégio de poder ignorar essas mudanças. Sou veterano, um ‘autor’, e tenho estabilidade garantida, então posso me dar ao luxo de ser um pouco desleixado. Mas jovens de 25 anos não têm esse privilégio”, diz o artista.
“É algo que não se pode controlar. Mais um motivo para lançar seu projeto no mundo e só depois se preocupar com o que será dele.”
Rash reforça a esperança de Harmon ao citar títulos longevos como “Os Simpsons“. “É um ótimo exemplo de algo que cruzou o tempo, testemunhou diversas lideranças e explorou várias abordagens.”
“Para nós, o melhor escapismo é o que põe uma lente de aumento sobre as coisas. Há aí um grande fator de união —é um jeito de mostrar que não estamos sozinhos.”













