Correndo com os lobos: o massacre atual das mulheres

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Correndo com os lobos: o massacre atual das mulheres


Nessa crônica, o neologismo faz recordar a frase da ministra do STF, Carmen Lúcia: “Resolveram nos matar: Nós, mulheres, resolvemos viver”



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Quando criou a palavra agnotologia, Robert Proctor tinha em mente a indústria do tabaco e menos a chacina de mulheres decorrente da ignorância humana.

Nessa crônica, o neologismo além de adquirir uma tradução única, faz recordar a frase da ministra do STF, Carmen Lúcia: ”Resolveram nos matar: Nós, mulheres, resolvemos viver”…”Quiseram matar nossa presença. Nós cuidamos de aparecer”.

Tais afirmações são verdadeiras ou estão apenas contidas no verbo? Queremos mesmo sobreviver como seres livres em um contexto controlado por homens? Desejamos ter um tipo de autonomia adversa, sem responsabilidade nas escolhas, sem preservação da individualidade e da liberdade?

Recordo, nessa descrição, a obra de Clarisse Pinkola Estês – “Mulheres que correm com os lobos” integrada por 19 contos, mitos e lendas, revelando a transição entre a inocência e a maturidade feminina. Igualmente, a capacidade que as mulheres têm de fortalecimento das suas energias, de ultrapassagem de seus temores e ambivalências para arrostar, correr e até ultrapassar os lobos, numa metáfora de complexa apreensão.

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Lembro-me, na obra de Estês, nomeadamente, no conto do “Barba Azul”, do predador que habita a psique feminina, desde o nascimento, sabota, a cada minuto, a capacidade de a mulher ser ela própria, fazer opções acertadas, sem sentir vergonha ou bloqueio na manifestação das suas potencialidades, poderes, intuição, inteligência, imaginação e criatividade.

Nesse plano, as mulheres são posseiras excepcionais da chave da sua clausura e dela podem fazer uso no instante em que decidem escancarar as grades do cárcere para deixar de ser caça, presa ou vítima.

Ao longo da minha existência, pouco ouvi falar no assassinato descomedido de mulheres. É algo que nos inspira perplexidade nos dias atuais. Mata-se por vileza.

Recordo, na adolescência, uma narrativa curiosa. Ela inicia o repertório de slogans, motes e rótulos de justificação do morticínio feminino. O primeiro deles é o da “legítima defesa da honra”. E a história é verídica.

Numa Universidade pernambucana um ilustre catedrático, casado com uma senhora de má fama, estava sendo alvo de chacotas, motas e escárnio dos alunos. A notoriedade do cônjuge se expandiu pelo campus universitário e os estudantes imitavam os touros quando o professor passava.

Numa certa manhã, o médico-docente percebeu que seria difícil ministrar a aula que planejara. Ingressou no anfiteatro e percorreu o ambiente numa calma preocupante. Com o olhar pesado logrou fraturar o silêncio: “Os senhores são tão ignorantes que acreditam que a honra de um homem se oculta entre as pernas de uma mulher.Para os mais cultos eu serei mais preciso: estou falando da parte superior da genitália feminina (vulva) bem acima da sínfise púbica”.

A frase teve o efeito de um punhal e ganhou o campo e todos os estádios do tempo.

O relato ordinário ou vulgar do Direito Penal no Brasil foi tecido com bordões dessa natureza. Basta recordar o caso de Ângela Diniz na década de 70, de Eliane de Grammond em 80, de Maria da Penha, de Dana de Teffé e outras.

O assassinato de Dana de Teffé, pelo seu advogado e amante Leopoldo Heitor, foi o mais emblemático. Gerou uma história irracional com a finalidade de justificar o desaparecimento da milionária que falava seis idiomas e nasceu na antiga Tchecoslováquia, numa família judaica.

A imaginação da sociedade teceu a conspiração de que Dana era espiã de alemães, russos e ingleses e teria sido capturada e colocada, por agentes da Guerra Fria, num submarino rumo ao Leste Europeu. Foi assassinada na Rússia e seu corpo atassalhado.

O falecido cronista Carlos Heitor Cony, que integrou a Academia Brasileira de Letras, converteu Dana em um de seus avantes mas o artigo “Onde estão os ossos de Dana de Teffé? ”, publicado em agosto de 2001 na Folha de São Paulo, contém o relato desse fato.

Leopoldo Heitor casou duas vezes e foi residir, impunemente, no palacete da milionária. Teve dez filhos e um deles, que recebeu o seu nome, foi assassinado a facadas por uma jovem que ele tentou estuprar. Questão de carma ou lei de causa-efeito.

A tese adotada na absolvição de Leopoldo, (“não há crime sem corpo”) deve ter sido aplicada no julgamento, sem sucesso, do ex-goleiro Bruno Fernandes de Souza (Goleiro Bruno) condenado pelo assassinato e ocultação de cadáver de sua ex-amante Eliza Samúdio.

Todos esses episódios estão insertos na palavra agnotologia ou ignorância conforme artigo escrito por Sérgio Rodrigues. Na ideia do escritor, a palavra foi entrançada usando as fibras mais resistentes do tecido social contemporâneo.

Ela dança diante dos nossos olhos no formato de borrões para compor o epílogo: Darcy Ribeiro afirmava que “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto. Nesse sentido, ele teria sido o precursor da agnotologia.

Tudo isso é para afirmar que a sociedade tecnotrônica do nosso tempo também é responsável pelo revigoramento do preconceito e trucidamento de uma mulher a cada quatro horas.

Durante os últimos tempos, outra máxima ocupou a mídia “quem ama não mata”. A grande questão é que os clichês têm pouco significado no universo da violência quando não estão atrelados à educação.

Enquanto isso não acontece, os homens estarão sendo treinados para a bestialidade e conversão das mulheres em instrumentos de posse e objeto de prazer e luxúria.

Nesse aspecto, falar em selvageria é, acima de tudo, pensar na violência estrutural do machismo. Em outro dizer, os homens assimilaram, ao longo do tempo, o poder, o controle da desigualdade e a violência.

Por isso é imprescindível que as mulheres resgatem sua intuição no processo de escolha dos parceiros, tenham coragem de enxergar o perigo, superar a ingenuidade, impor limites e se reconectar com a sua parte mais selvagem.

É desse modo que se consegue desconstruir a cultura da subalternidade.

Convém recordar que está emergindo no Brasil o movimento “os legendários” criado na Guatemala em 2015 que poderia ser identificado como “grupo de pressão ideológico de direita” com o objetivo de implantar valores familiares conservadores.

Dissemina a ideia de aversão, desprezo ou ódio direcionado às mulheres (misoginia), reforça a percepção do homem como provedor exclusivo e da mulher como figura acessória destinada a perpetuar os valores masculinos abjetos.

Clarice Lispector escreveu: “Espero viver sempre às vésperas. E não no dia”.

Creio que estava certa. A mulher deve valorizar as suas expectativas, viver o instante da antecipação onde é possível experimentar cada desejo e cada experiência, saboreando, na corrida com os lobos, o antes e o depois.

Tudo isso sem preocupação com as consequências. Afinal, vida é curta demais. Amanhã é, acima de tudo, um advérbio de tempo.

Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas.






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