Um céu que desabou, estrelas espalhadas pelo chão e três corpos tentando reencontrar algum equilíbrio. Foi desse universo de ficção científica que a coreógrafa israelense Dana Naim Hafouta partiu para criar “Oh My Electric Eye”, apresentado na noite desta terça-feira (21), no Teatro Juarez Machado, dentro da programação do Festival de Dança de Joinville.
Interpretada pelos bailarinos Yasmin Gariv, Shahar Hanin e Gilly Geva, a obra começa em absoluto silêncio. Uma bailarina permanece de pé em um dos cantos do palco, enquanto os outros dois estão deitados no chão —uma delas de bruços sobre bolas coloridas e iluminadas de diferentes tamanhos.
No início, os movimentos são tão lentos e contidos que chegam a ser quase imperceptíveis. Aos poucos, os bailarinos aceleram e passam a estabelecer um ciclo contínuo de aproximações e afastamentos, como se fossem atraídos por uma força invisível e, ao mesmo tempo, tentassem escapar dela. Nos primeiros 15 minutos não há música.
A maior parte da coreografia acontece rente ao chão, em uma ambientação retrofuturista marcada por figurinos minimalistas em tons de azul-acinzentado, além das bolas coloridas iluminadas espalhadas pelo palco.
Segundo Hafouta, a criação nasceu de uma longa investigação sobre a sensação de instabilidade existencial. Para representar o sentimento de ansiedade, decidiu transportar a coreografia para um espaço fantástico, inspirado pela ficção científica e pela astrofísica.
“Percebi que essa obra não acontecia aqui. Ela precisava existir em um espaço fantástico”, afirmou a coreógrafa. Ela conta que encontrou nos buracos negros uma metáfora para a forma como percebe o mundo —forças invisíveis que atraem os corpos e alteram permanentemente sua relação com o espaço.
As bolas luminosas, segundo Hafouta, representam inicialmente as estrelas espalhadas após a queda do céu. Depois tornam-se joias, objetos de poder e, por fim, olhos artificiais que transformam os bailarinos em criaturas entre o mito e a tecnologia. Em um dos momentos mais marcantes da apresentação, as pequenas esferas são levadas até os olhos dos intérpretes, que parecem entrar em um estado de êxtase ao enxergar uma realidade paralela.
“Com esse olho eu consigo me localizar. É uma pequena metamorfose —viro uma espécie de ciborgue fantástico”, afirmou Hafouta.
Ao longo da apresentação, os três intérpretes parecem formar, em alguns momentos, um único organismo, antes de voltarem à solidão. Essa tensão entre conexão e isolamento é, segundo a coreógrafa, um dos eixos da obra.
“Estamos juntos, mas vivemos essa experiência sozinhos. Existe uma solidão existencial muito forte e, justamente por isso, estar junto se torna ainda mais importante”, disse.
Em alguns momentos de maior exigência técnica, os intérpretes parecem titubear antes de executar determinados movimentos. Não fica claro se a hesitação é um recurso deliberado da coreografia ou uma insegurança dos próprios bailarinos. De todo modo, ela antecipa mudanças importantes na movimentação e reduz o efeito de surpresa.
O tom permanece melancólico durante quase toda a montagem. Apenas perto do fim, “Starman”, de David Bowie, rompe brevemente a atmosfera sombria, sugerindo uma esperança antes que a sensação de desamparo retorne nos instantes finais.
A apresentação em Joinville também marcou a estreia internacional de “Oh My Electric Eye”, após apresentações em Tel Aviv e Jerusalém. Hafouta afirmou considerar importante apresentar sua visão artística para públicos de outros países em meio ao contexto vivido por Israel.
“É importante que as pessoas ouçam os artistas e a forma como percebem a realidade. A peça não fala sobre guerra, mas ela nasce da experiência de viver em um lugar marcado por conflitos”, afirmou. Até agora, segundo ela, seu trabalho não sofreu nenhuma hostilidade em razão da sua origem.
A jornalista viajou a convite do Instituto Festival de Dança de Joinville














