“Ser gay não é estar num filme”, diz a narração da obra máxima de Rosa von Praunheim, cineasta e ativista alemão que se notabilizou justamente por pôr os LGBTQIA+ nas telas muito antes de isso ser normal ou até mesmo tolerado.
Seu manifesto político travestido de cinema mais conhecido, “Não É o Homossexual que É Perverso, Mas a Situação em que Ele Vive”, abriu nesta terça-feira (6) uma retrospectiva do cineasta, morto em dezembro, neste Festival do Rio. Com sete de suas obras, a seleção é fruto de parceria entre o evento e o Goethe-Institut.
“A grandeza desse filme está em entregar ao público o debate daquele momento histórico, está em decantar o que tinha acontecido dois anos antes com Stonewall“, disse Rita von Hunty, nome do crítico cultural e educador Guilherme Terreri quando se apresenta como a drag queen que se tornou fenômeno nas redes sociais, em debate após a sessão.
Lançado em 1971, “Não É o Homossexual que É Perverso” faz parte de um cinema radical que pretende ser mais registro histórico do que obra de arte. Um falso documentário, ele brinca com os estereótipos dos gays berlinenses da época –muitos dos quais perduram até hoje–, ensaia um desajuste naquela comunidade para, ao final, registrar um grupo de homens, nus, sentados informalmente num colchão, lançando as bases do que seria uma organização política queer.
Para Von Hunty, aquele foi o momento de entender quem era o sujeito político do movimento LGBTQIA+, que acabava de dar seus primeiros passos não só com Stonewall, mas com a organização de grupos de resistência à ditadura no Brasil, por exemplo, e com iniciativas que se opunham à lei que criminalizava o sexo entre homens na Alemanha.
“Uma gay alemã [Von Praunheim] deixou para nós um documento sensível de como se deu a organização dos ‘viados’, o que eles reivindicavam naquele momento, que era a possibilidade de formar um coletivo, de viver enquanto categoria social, de serem reconhecidos para além do pecado, da doença, do crime e da abjeção”, diz Von Hunty.
“Só existe identidade porque antes existiu um processo de desgraçamento de todo um grupo. A identidade nada mais é que a cristalização de um processo de opressão, não o ponto de partida ou a linha de chegada.”
Por isso mesmo, Von Praunheim gera incômodo na primeira parte de seu filme, em que uma narração em off com tom de julgamento fala da vida gay na Berlim dos anos 1960 e 1970. O cineasta toma lado, falsamente, nesse processo de opressão para depois desmoralizá-lo, num alerta sobre a necessidade de organização política naquelas décadas de ebulição social em todo o globo.
“É uma obra que tem muito diálogo com o que estamos vivendo e vamos viver, porque estamos vendo um levante conservador como poucas vezes vimos na nossa história recente”, diz Von Hunty sobre episódios como o cerco à comunidade LGBTQIA+ na Turquia, a ascensão da AfD na Alemanha ou mesmo a votação recorde em figuras como Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, eleitos deputado federal e deputada estadual por São Paulo, respectivamente, após uma campanha que incluiu diversos ataques à população trans.
“Saiam dos banheirões e vão para as ruas, sejam livres”, diz o filme em seus momentos finais, instando os gays do mundo a saírem do armário para que uma organização daquele grupo possa, de fato, acontecer.
Além de “Não É o Homossexual que É Perverso”, são destaques da retrospectiva “O Einstein do Sexo“, biografia de Magnus Hirschfeld, médico alemão que foi precursor dos estudos sobre a sexualidade e que acabou perseguido pelos nazistas, e “Amor Bruto”, que investiga as raízes da violência a partir de um professor de caratê e ex-cafetão com uma juventude marcada por abusos.
O Festival do Rio exibe ainda “Sobrevivendo em Nova York”, “A Bettwurst”, “Cidade das Almas Perdidas” e “Minhas Mães – Em Busca de Rastros em Riga”.
O jornalista viajou a convite do Festival do Rio












