Com ‘Backrooms’, youtubers exploram o terror por redes sociais e tomam Hollywood

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Com ‘Backrooms’, youtubers exploram o terror por redes sociais e tomam Hollywood


Aos 16 anos, Kane Parsons aterrorizou a internet com seus curtas animados. Sua inspiração foi uma foto viral e perturbadora de um corredor vazio, banhado por uma luz amarelada. A imagem atiçou a criatividade de centenas de usuários, em fóruns como o 4chan, que descreviam um mundo de salas vazias e sem saída, fedendo a carpete úmido e habitadas por criaturas arrepiantes.

As salas, apelidadas de “backrooms”, são uma espécie de bastidor do mundo em que vivemos —e ganharam traços estranhamente realistas nas mãos de Parsons, em vídeos no estilo “found footage”. Quatro anos depois, chega aos cinemas “Backrooms: Um Não-Lugar“, que fez do rapaz americano, hoje aos 20, a pessoa mais jovem a trabalhar com o estúdio A24.

Não é a primeira vez que a casa, queridinha de jovens cinéfilos, confia milhões de dólares a um influenciador. Em 2022, firmou uma parceria com Danny e Michael Philippou, conhecidos por esquetes com zumbis explosivos, que rendeu os aclamados “Fale Comigo” e “Faça Ela Voltar“.

O primeiro —sobre adolescentes que espalham possessões demoníacas pelo Instagram— reforçou uma onda de autores que aprenderam com o YouTube, ou exploram o terror das redes sociais para despontar em Hollywood.

É o caso de Curry Barker, de 26 anos, que trocou a faculdade para investir na plataforma e fez de “Obsessão” um dos filmes mais lucrativos dos últimos tempos —orçado em US$ 750 mil, já fez quase US$ 110 milhões—; e nativos digitais como Jane Schoenbrun, de 39, que já filmou com uma webcam e teve seu horror mais recente premiado em Cannes.

Outros nomes, como David Sandberg, que resgatou a boneca “Annabelle” em 2017, e Chris Stuckmann, que financiou “Terror em Shelby Oaks” pelo Kickstarter e publica críticas em vídeo desde 2009, por exemplo, também começaram online.

Segundo Parsons, que não é formado em cinema, tutoriais do YouTube são mais livres do que cursos tradicionais. Assim, seu “Backrooms” une estrelas como Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve —atriz do celebrado “Valor Sentimental“— e cenários idealizados pelo Blender, software de animação gratuito que o youtuber sempre usou.

Orçado em US$ 10 milhões —isto é, menos de 3% do último “Vingadores“—, o terror teve uma das maiores estreias na história do gênero, com US$ 38 milhões só nos Estados Unidos. Os vídeos de Parsons, aliás, inspiraram jogos derivados e outros curtas baseados na lenda digital.

No longa, um vendedor de móveis acha um portal no subterrâneo de sua loja. Ele encontra uma dimensão paralela, em que salões amplos, com alguns poucos objetos e papéis de parede mofados, são o lar de seres que simbolizam traumas pessoais e se conectam por corredores infinitos.

O filme faz do ambiente uma prisão psicológica e, de certo modo, uma analogia à internet —um lugar sem limites físicos, mas que causa estranheza por unir rastros da realidade. A ideia também define “The Oldest View”, outra websérie do jovem, em que um vlogger invade a réplica de um shopping abandonado.

“Esse espaço traduz uma sobrecarga de informações. A internet tem grande papel nisso”, afirma Parsons, que descreve os “backrooms” como resposta a bairros repetitivos e muito urbanizados. “É uma reação a um sistema superior ao que conseguimos aguentar.”

Apesar da popularidade do terror e dos baixos orçamentos, ele diz não ver uma relação específica entre o gênero e o YouTube. “É um apelo a espectadores que consomem informações virtuais e que dão feedback instantâneo. Não é tão diferente do que artistas sempre fizeram, de onde quer que venham os instintos.”

Para a pesquisadora brasileira Maria Luiza Staut, a dependência em relação às redes e a rapidez das transformações fazem do universo digital um combustível para narrativas horripilantes.

“O desconhecido nos assusta, e as pessoas têm percebido que os limites da internet estão cada vez mais nebulosos”, diz a realizadora, que teve a animação “Paty” selecionada para um festival britânico. Dos desenhos em 2D aos efeitos sonoros, o curta de horror corporal foi totalmente feito por ela.

“Antigamente, o medo do futuro popularizou a ficção científica. Agora, ele chegou, e é obscuro. Não temos carros voadores ou mochilas a jato, mas vemos a inteligência artificial substituir empregos e as formas de comunicação se tornarem apavorantes.”

Em janeiro, o youtuber Markiplier elevou essas tensões em “Iron Lung“. Baseado em um game independente, ele dirigiu e estrelou o filme distópico, em que um prisioneiro pilota um submarino por um mar de sangue. Na trama, um aparelho de raios-x mapeia os arredores com imagens de baixa qualidade, próximas a arquivos duvidosos de fóruns online.

O visual lembra o de “Skinamarink“, hit de 2022 que recorre a enquadramentos escuros e granulados para simular um pesadelo. O longa de Kyle Edward Ball ganhou clipes no TikTok e reforçou o talento do idealizador, dono de um canal inspirado em sonhos de seguidores. Nesses dois projetos, os personagens questionam sua sanidade e são manipulados por vozes onipresentes.

Markiplier publica gameplays no YouTube há 14 anos. Seus milhares de inscritos e os US$ 4 milhões investidos em “Iron Lung” superaram a bilheteria do documentário sobre Melania Trump —ambos foram lançados em 30 de janeiro.

“A qualidade dessas obras tem deixado de ser questionada. É natural que pessoas que praticam há tanto tempo sejam responsáveis por trabalhos desse nível”, diz o influenciador, cujo nome real é Mark Edward Fischbach.

Não à toa, o YouTube atraiu o Oscar, que passará a ser transmitido por lá em 2029. No ano passado, a plataforma se tornou a maior empresa de mídia ao atingir US$ 62 bilhões em receita, segundo a Forbes.

A paranoia ainda pauta títulos como “Undertone”, lançado em março nos cinemas americanos. Nele, a criadora de um podcast é atormentada por áudios misteriosos. Especialista em curtas de realidade virtual, o cineasta Ian Tuason já pensa em sequências e reviverá a saga “Atividade Paranormal” —uma das mais rentáveis da história, com seus fantasmas registrados por câmeras de segurança.

A Bruxa de Blair“, de 1999 —um marco do estilo “found footage”, com fitas cassete sobre mortes num bosque assombrado—, terá um destino semelhante, já que quem herdará a franquia será o youtuber Dylan Clark, adepto a histórias amadoras sobre figuras satânicas.

Materiais perturbadores guiam também o remake de “Faces of Death”, filme de 1978 em que um cientista estuda VHS sangrentos. Agora, uma moderadora de vídeos curtos persegue um psicopata inspirado por cenas do original.

O longa, em cartaz nos Estados Unidos, é de Daniel Goldhaber, que despontou com um filme perturbador sobre uma camgirl que tem a conta roubada por uma sósia. Em “Cam”, que foi licenciado pela Netflix em 2018, a menina que ganha a vida com vídeos sensuais começa a notar mudanças surreais em seu corpo, enquanto é perturbada por esse seu duplo virtual.

Agora, “Faces of Death” chegou aos cinemas sob produção do Shudder. O streaming voltado ao terror foi impulsionado pela pandemia, investindo em títulos originais como “Cuidado com Quem Chama”, em que espíritos invadem uma reunião no Zoom.

Hoje, o serviço tem mais de cem títulos próprios. Segundo Maria Luiza Staut, a pesquisadora, esse movimento se ajusta à velocidade atual e ao excesso de informações. Nesse sentido, os realizadores herdam a habilidade de assustar a plateia rapidamente.

“Há quem diga que dão até mais medo, já que transmitem várias sensações em pouco tempo”, afirma ela sobre os curtas que, mesmo antes do YouTube, lançaram brasileiros como Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”.

Por outro lado, diz ainda a pesquisadora, a hiperconexão reduz a sensibilidade do público a narrativas abstratas. Embora a internet democratize a produção, também é evidente a concentração desses projetos entre homens brancos.

Ainda assim, nomes como Jordan Peele, premiado pelo horror racial “Corra!“, abriu espaço com esquetes que tomaram as redes, e curtas virais como “Monster” e “Call Girl” levaram Jennifer Kent, de “O Babadook“, e a cabeleireira Jill Gevargizian a trabalharem em longas.

À frente da M.V.B, produtora de terror que registrou aos 13 anos, sob mentoria dos pais, a cineasta americana Meosha Bean debate o preconceito na indústria e a proteção de propriedades intelectuais.

Hoje, todos podem mostrar que há demanda por suas ideias. Mas o sistema que controla a distribuição, o financiamento e o marketing em Hollywood segue o mesmo”, diz ela, que estrela um documentário do Shudder sobre o horror negro.

“Ideias são replicadas antes mesmo que possamos perceber. Jovens realizadores precisam entender que suas criações são ativos. Sobrevivem aqueles que protegem sua criatividade com a mesma paixão com que criam.”



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