Um jantar, um buquê de flores e um cara que realmente te escuta. Isso resume o que seria, para muitos, o encontro perfeito com o homem ideal. Para o terror contemporâneo, no entanto, esse cenário pode ser o início de uma tortura psicológica sangrenta.
Em substituição aos monstros sobrenaturais, os filmes do gênero agora voltam suas lentes para um novo vilão –o homem comum. Frustrado por suas inseguranças e seus fracassos, ele vem transformando a vida de personagens femininas num verdadeiro inferno.
Com o sucesso de “Obsessão“, de Curry Barker, e “Backrooms – Um Não Lugar“, de Kane Parsons, o cinema de terror tem discutido cada vez mais os relacionamentos tóxicos, dando origem a um subgênero que muitos já chamam de “incel horror”, no qual também se encaixam “Acompanhante Perfeita“, de Drew Hancock, “Fresh“, de Mimi Cave, e “A Empregada“, de Paul Feig.
Mesmo há dez anos, “Passageiros“, comédia romântica mascarada de ficção científica, estrelada por Chris Pratt e Jennifer Lawrence, já havia sido lida por alguns como o retrato de uma sociedade habituada a romantizar relacionamentos abusivos e o que se popularizaria como o comportamento de um “incel“.
O termo surgido na internet vem da abreviação das palavras “celibatário involuntário“, em inglês, e se refere a homens que não conseguem se relacionar romântica e sexualmente e que culpam as mulheres por isso.
Nesse tipo de trama, a protagonista é ameaçada por uma figura perigosa que assume o papel de alguém de confiança, como o marido, o pai ou um amigo –o famoso “cara legal”.
“Cinema e literatura são um reflexo da sociedade em determinado momento. Infelizmente, enquanto as mulheres continuarem sofrendo violência, haverá histórias de terror sobre isso, porque é uma forma de oferecermos um espelho para o espectador“, diz Raphael Montes, escritor de diversos livros de crime e suspense, e que viu obras suas que dialogam com esse conceito, como “Bom Dia, Verônica” e “Dias Perfeitos“, serem adaptadas para séries na Netflix e no Globoplay.
Por mais grotescas que as cenas dessas e de outras histórias possam parecer na tela, a realidade que buscam retratar é muito palpável. Segundo a OMS, a Organização Mundial da Saúde, 840 milhões de mulheres pelo mundo já foram vítimas de violência de um homem, conhecido ou não, ao longo da vida.
Mesmo que muitas vezes, na realidade ou na ficção, a ameaça que esses homens representam esteja mascarada, há quem se apresente como vilão logo de cara. Há uma outra safra de longas e séries recentes que também bebem do “incel horror”, mas deixam claro desde o princípio que seus personagens masculinos são pessoas tóxicas.
É o caso, por exemplo, de “Socorro!“, de Sam Raimi, “Noites Brutais”, de Zach Cregger, e “O Homem Invisível“, de Leigh Whannell. Eles todos têm personagens que se tornam mais e mais brutais conforme a história avança.
“Sinto que há um cuidado na construção da ambivalência de personagens que, em outros tempos, poderiam ter contornos mais rígidos —seriam ou monstros, ou mocinhos”, afirma Gabriela Amaral, diretora premiada por filmes como “O Animal Cordial” e “A Sombra do Pai“.
“A zona cinzenta na qual se encontram os personagens masculinos contemporâneos confere às histórias um grau de complexidade que expande a representação do humano nas histórias. Nem bons, nem maus, mas assustadoramente comuns —os monstros somos nós.”
Essa quebra de expectativa se dá, em filmes como “Obsessão”, pelo fato de que a ameaça é apresentada primeiramente como afeto. No longa, que é um dos grandes sucessos de crítica e público do ano, o protagonista Bear quer que a amiga, Nikki, o ame mais que tudo. Incapaz de confessar seus sentimentos, ele recorre a um amuleto mágico que realiza o seu desejo.
Daí em diante, o filme se torna um comentário sangrento sobre obsessão, consentimento, ciúme doentio e dependência emocional, e questiona de quem o espectador realmente deve ter medo –de Nikki, que parece estar possuída por uma entidade violenta, ou de Bear, o homem que se revela egoísta, autocentrado e tóxico.
A perda de autonomia da mocinha, apaixonada pelo rapaz como num passe de mágica, tece um comentário sobre relações amorosas tidas como abusivas, em que vontades e personalidade de uma pessoa vão sendo anuladas pelo bem-estar da outra.
Embates entre homens e mulheres podem até ter ganhado novos contornos e ares de denúncia nos últimos anos, mas não são exatamente novos no terror. É possível traçar paralelos entre o comportamento de Bear, por exemplo, e o de Drácula, um dos monstros mais clássicos do cinema mundial.
No livro que deu origem a diversas adaptações cinematográficas, o vampiro impõe seu desejo –carnal ou material– e anseia não apenas por sangue, mas pelo poder de corromper e controlar a figura feminina.
A leitura está presente, por exemplo, na encarnação de Bela Lugosi de 1931, que trazia um Drácula elegante e sedutor, e na de Gary Oldman no filme de Francis Ford Coppola, um dos mais sexuais na hora de retratar a relação torpe entre o vampiro e Mina Harker. Mais recentemente, Robert Eggers se aprofundou ainda mais nessa relação doentia em “Nosferatu“.
Mas nem sempre há interesse romântico por trás do comportamento abusivo desses monstros contemporâneos. No caso de “Armadilha“, de M. Night Shyamalan, assistimos a um doce e cuidadoso pai, que leva a filha ao show de sua cantora favorita.
Aos poucos, descobrimos que aquele pai de família e marido carinhoso não é tão adorável assim. Ele é um assassino em série procurado pela polícia por crimes sádicos e brutais, que têm como vítimas meninas jovens.
E há também o terror pelo desconhecido, como em “Men: Faces do Medo“, em que Alex Garland acompanha uma mulher que aluga uma casa de campo para se recuperar de um trauma amoroso. De repente, ela se vê perseguida por diversos homens que se apresentam como sujeitos simpáticos, mas logo se revelam uma ameaça.
É como um movimento de denúncia, que vem tomando cada vez mais espaço num dos gêneros mais comercialmente bem-sucedidos do cinema, o terror. Muitos longas vão além, ao mostrar também as mulheres reagindo e se vingando, num outro recorte do gênero conhecido como “female rage“.
Essa inversão de papéis, da mulher antes perseguida e que passa a perseguir, funciona como um expurgo.
“Os debates públicos voltados aos direitos das mulheres, em especial depois do MeToo, tiveram forte impacto dentro e fora de Hollywood. No horror, acabou servindo como uma espécie de resposta à maneira como mulheres eram representadas em filmes, passando de meras vítimas a sobreviventes, heroínas, personagens complexas e com mais camadas”, afirma a pesquisadora e crítica de cinema Beatriz Saldanha.
É o caso de “A Substância“, que, apesar de pôr em confronto duas versões de uma mesma protagonista, na verdade atribui a culpa pelos horrores em cena a uma sociedade tolhida pela misoginia.
Isso fica claro em cenas como a em que o personagem de Dennis Quaid, acompanhado de um grupo de executivos, ronda a protagonista de Demi Moore como se ela fosse uma presa, objetificando seu corpo e a obrigando a sorrir, mesmo que a contragosto.
“O horror não decidiu odiar mulheres do nada, ele apenas representa o que já existe na sociedade”, acrescenta Saldanha. “Muitos filmes de terror contemporâneos se prestam a examinar as rachaduras dessa solidez aparentemente inabalável”, diz ainda Gabriela Amaral, a cineasta, sobre o histórico de privilégios aos homens em nossa sociedade.
É como se filmes como “Obsessão”, para além dos milhões de dólares arrecadados em bilheteria e das várias pipocas vendidas em bonbonnières pelo mundo, extrapolassem o entretenimento para servir de espelho das angústias femininas.












