Tânia Maria não concorreu ao Oscar, mas “O Agente Secreto” fez dela a melhor atriz com cigarro numa lista do The New York Times. Apesar de simbólica, uma brincadeira proposta pelo jornal no ano passado, a láurea reflete a volta de um signo controverso a Hollywood.
Há dois anos, mais da metade dos 152 filmes mais vistos trouxeram cenas com tabaco, lista liderada pelo longa “Clube dos Vândalos“, sobre motoqueiros dos anos 1960. É o que diz um estudo da Truth Initiative, entidade voltada ao controle da substância, segundo a qual tais imagens quase dobraram entre 2023 e 2024.
Antes da popularização do movimento antitabagista, especialmente entre as décadas de 1930 e 1950, gigantes da indústria e do tabaco andavam de mãos dadas, vendendo um hábito como símbolo de poder, charme e rebeldia. Anúncios de empresas como a Lucky Strike e a Chesterfield dominavam páginas de revistas, marquises de cinemas, comerciais e as bocas das maiores estrelas.
Agora, a depender das tramas que destacam o fumo, a ideia é associar a prática a um cotidiano do passado. Segundo o estudo, os cigarros têm aparecido mais com personagens históricos —alheios aos alertas da ciência— e em tramas anteriores à virada do milênio, quando a presença de tabaco virou um critério de classificação indicativa.
Uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde indica que o número de fumantes, de fato, caiu em um terço nas últimas duas décadas. Ainda assim, no Brasil, o cenário é preocupante, já que o país registrou, há dois anos, o primeiro aumento na prevalência de fumantes adultos desde 2007, segundo o Ministério da Saúde.
Há um alerta em relação à exposição às crianças. No portal Smoke Free Media, “Operação Natal“, com um Papai Noel que usa cachimbos, e o primeiro “Senhor dos Anéis“, relançado em 2024, estão entre os filmes daquele ano que mais tiveram tabaco dentre os liberados para adolescentes a partir de 13 anos.
Criada pela Universidade da Califórnia, a plataforma calcula essas representações em várias obras. Ainda em 2024, o filme “PG” —isto é, adequado para todos, mediante supervisão dos pais— com mais aparições do tipo foi “O Castelo Animado“.
A animação japonesa do Studio Ghibli, originalmente de 2004, ganhou uma cópia restaurada na época e segue uma menina que vira uma idosa após enfurecer uma bruxa. No longa, cachimbos aparecem 68 vezes, enquanto cigarros tomam a tela em 15 ocasiões.
Essas 83 ocorrências ficam pouco atrás das 94 de “Back to Black“, longa sobre Amy Winehouse que foi criticado por focar a dependência química da cantora. Também é algo onipresente nos anos 1960 retratados na cinebiografia “Um Completo Desconhecido“, em que Timothée Chalamet vive Bob Dylan.
No caso de papéis fictícios, há ainda quem queira parecer descolado —como Dakota Johnson no filme “Amores Materialistas”—, vilões e um filão de personagens emocionalmente instáveis, como os do longa “Coringa: Delírio a Dois”, das séries “Treta” e “O Urso“.
Esta última, ambientada num restaurante caótico de Chicago, retrata traumas e obsessões do chef Carmen Berzatto, que une maços para aliviar o estresse antes de decidir largá-los. Ainda na TV, é comum ver o elenco de “Industry” usar cigarros eletrônicos após enervantes negociações bancárias.
Como em “Euphoria“, com Zendaya, o seriado da HBO acompanha o frenesi de jovens adultos entre festas, drogas e aventuras sexuais, em que os vapes aparecem com frequência. Mas não se engane —para especialistas, esses objetos ainda não são tão comuns nas telas quanto o tabaco tradicional.
Dono da Honeyrose, líder global na produção de cigarros herbais —feitos com ervas legais, flores aromáticas e especiarias—, Vartan Alumyan diz que a marca vem sendo usada principalmente em filmes de época e que a empresa não planeja investir em cigarros eletrônicos.
Recentemente, seus produtos estiveram em longas como “A Noiva!“, uma releitura da monstra de Frankenstein nos anos 1930, “O Irlandês“, que marcou a volta de Martin Scorsese às narrativas de máfia, e “Era uma Vez em… Hollywood”, homenagem de Quentin Tarantino ao cinema americano da virada para os anos 1970.
A Honeyrose passou a fabricar cigarros sem tabaco e nicotina há seis décadas, com a intenção de combater o vício, e atraiu o mercado audiovisual por volta de 2010. Naquela época, o uso dos produtos reais em filmagens se tornou mal visto e narrativas com fumantes diminuíram.
Independentemente dos ingredientes e dos contextos em que cigarros têm aparecido, há quem diga que a sua exposição midiática segue prejudicial. Até porque ela não se resume ao cinema.
Nomes como Lady Gaga, Addison Rae, Chappell Roan e Sabrina Carpenter aparecem baforando em clipes recentes, sugerindo uma atitude “cool” e algo niilista, num tipo de protesto contra estilos de vida excessivamente controlados que se populariza entre a geração Z.
Charli XCX, por exemplo, associa a atitude “brat” a ter, entre outras coisas, “um maço de cigarros e um isqueiro” —de modo que a própria Rosalía deu, de presente, um buquê de cigarros à britânica.
Da mesma forma, a modelo Hailey Bieber, símbolo do estilo de vida “clean girl”, não se furtou a um Marlboro em editorias de moda para a revista Interview há poucos meses. Já Kylie Jenner, uma das maiores influenciadoras do mundo, decidiu posar para a capa da Vanity Fair acendendo um cigarro.
Essas e tantas outras estrelas, aliás, foram pinçadas pela curadoria do Cigfluencers, um perfil no Instagram com mais de 100 mil seguidores que se dedica a mostrar famosos soltando fumaça. A mais recente por lá é Milly Alcock, do recém-lançado “Supergirl”.
“Muitas obras banalizam a nocividade. Os cigarros costumam estar em cenas de grande emoção para os personagens, e nem sempre esses registros incluem as consequências desse consumo”, afirma a doutora em psicossociologia Rosa Vargas.
Estudiosa dos efeitos psicológicos que essas imagens podem causar, ela explica que altos índices de exposição aumentam as chances de a população se tornar fumante, especialmente entre adolescentes.
Seu artigo “Ilusão das Imagens” mostrou que, entre 2003 e 2008, mais da metade das grandes bilheterias brasileiras incluíram cigarros. É o caso de “Carandiru“, sobre aquele que foi o maior presídio da América Latina, e “Tropa de Elite“, que retrata policiais militares na periferia carioca.
“Precisamos lembrar, também, que há diferença entre as escolhas artísticas de um filme e a publicidade diretamente voltada ao cigarro, embora os dois tipos de imagens exerçam alguma influência.”
Embora a regulamentação dessas propagandas esteja em curso desde 1996, quando foram estabelecidas restrições para a circulação, o Brasil só proibiu o fumo em locais fechados em 2009, com a Lei Antifumo, e baniu totalmente os conteúdos publicitários em 2011.
Também na época estudada por Vargas, a Global Adult Tobacco Survey apontou que, no país, as novelas eram o principal meio em que adultos viam atores fumando. A organização também mostrou que a maior parte das informações sobre os perigos do tabagismo era veiculada pela TV.
No ano passado, o remake da novela “Vale Tudo” reduziu drasticamente cenas com cigarros em relação à original —com uma breve exceção à vilã Odete Roitman, que fumava em situações de tensão. Outro exemplo é a releitura de Rubinho, que, se antes fumava em quase todas as cenas, passou a fumar só o necessário para se somar ao infarto que causa a sua morte.
Para a diretora de arte Juliana Di Grazia, a burocracia exigida por essas sequências também justifica esse sumiço em títulos nacionais. A Ancine, a Agência Nacional do Cinema, exige cada vez mais documentos para aprovar representações de tabaco, álcool e remédios. “Em obras que se passam no contemporâneo, personagens que fumam diminuíram drasticamente. Mesmo os cinzeiros usados nos cenários se tornaram raros”, afirma.
Entre seus trabalhos, a diretora de arte cita o suspense folclórico “Cidade Invisível“. Na série da Netflix, as poucas cenas que remetem ao fumo se resumem a seres como a Cuca, que mistura ervas para fazer feitiços. Ainda assim, ela diz, as pausas para fumar não sumiram da rotina de gravações.
Apesar de não retratarem seus sintomas, estúdios americanos também concentram os cigarros em obras sobre tragédias. Daí as cenas de “Oppenheimer“, premiado longa sobre o inventor da bomba atômica, que encheram as telas de fumaça em 2023. “Séries médicas estão entre as poucas que mostram os impactos [à saúde]”, afirma Di Grazia. “O cigarro tem sido usado, principalmente, para caracterizar a subjetividade das personagens.”











