Celso Frateschi, agora em ‘Dois Papas’, narra sua vida pelos palcos e pela política

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Celso Frateschi, agora em ‘Dois Papas’, narra sua vida pelos palcos e pela política


Um teatro engolido por uma grande obra, em uma cidade que beira o caos, parece um argumento instigante para uma dramaturgia. Porém, a história é real e faz parte da trajetória do ator e diretor Celso Frateschi, 74, há cinco décadas nos palcos.

“Tentou engolir. A gente não entrega os pontos assim. Acho que tem muita coisa para acontecer”, ele corrige sobre o antigo prédio do teatro Ágora, localizado no Bexiga, que desabou parcialmente em dezembro de 2024, após a abertura de uma cratera nas obras da linha 6-laranja do metrô na capital paulista.

O novo prédio do teatro, onde também fica a casa de Frateschi e de sua mulher, a arquiteta e cenógrafa Sylvia Moreira, não foi danificado e há a expectativa de que o antigo seja recuperado pelo Metrô, após o final das obras.

A negociação, segundo ele, é civilizada e não tem a violência sentida por grupos como a Cia. Munguzá, despejada pela prefeitura do Teatro de Contêiner, na Luz, onde o terreno dará origem a um projeto habitacional.

“Eu, particularmente, não gosto muito da vitimização que fazemos de nós mesmos. Parece que, quando a gente se vitimiza, a gente já perdeu”, afirma.

O segundo Ágora, na rua Rui Barbosa, tem uma sala com 50 lugares, escritório, café e jardim. Antes da obra, funcionava como uma extensão do primeiro. No dia do desabamento, Frateschi estava no espaço e foi avisado por um funcionário do Metrô sobre a necessidade de sair com urgência. “Foi um susto”, diz. Três horas depois, o prédio foi liberado e segue intacto.

Não foi o primeiro sobressalto do artista, preso aos 17 anos, na ditadura, quando integrava a Ala Vermelha, dissidência do Partido Comunista do Brasil. Estudava teatro com Cecília Boal e Heleny Guariba, depois torturada e assassinada na Casa da Morte, em Petrópolis.

“Eu fui preso, a Dulce [Muniz] foi presa, o [Augusto] Boal foi preso, torturado e exilado, o Izaías Almada foi preso, a Denise [Del Vecchio] foi presa. Esse era o clima que se vivia”, diz.

A segunda prisão, no inverno de 1973, na sobreloja do Theatro São Pedro, na Barra Funda, aconteceu no meio do espetáculo “A Queda da Bastilha”, que começava na rua. Frateschi interpretava um guardador de carros e Denise, com quem era casado, uma vendedora de flores.

O grupo teatral já havia percebido uma movimentação estranha de Chevrolet Veraneios nos arredores, um dos sinais de alerta mais temidos da época. O elenco sabia identificar quando os veículos pertenciam à polícia: havia um miolo pintado de branco nas rodas.

“Quando entrei, eles mostraram o revólver e me prenderam”, lembra. A atriz explicou que o homem detido era um ator e seu marido e, em seguida, também recebeu ordem de prisão.

Foram três semanas sob pressão psicológica no DOI-Codi, um centro de detenção, tortura e morte na rua Tutóia, na Vila Mariana. O ator sabia que a mulher também estava ali, o que aumentava o desespero. Em uma das noites, foi colocado na mesma cela que o irmão, Paulo Frateschi, militante da ALN, a Aliança Libertadora Nacional.

“Acho que talvez fosse alguma estratégia para fazer com que meu irmão confessasse alguma coisa para mim”, diz.

Nascido na Lapa, na zona oeste, Frateschi está nos palcos desde a década de 1970, quando o Teatro de Arena era sua segunda casa e Boal, referência —inclusive, fez parte do Teatro Jornal 1ª Edição, embrião do Teatro do Oprimido.

Perdeu as contas dos papéis no teatro, cinema e televisão até chegar a “Dois Papas”, peça agora em cartaz no Tuca, em sequência ao sucesso iniciado no ano passado e que já passou por várias cidades do país. No papel do cardeal Jorge Bergoglio, depois papa Francisco, ele apresenta um duelo moral e religioso ao lado do amigo Zécarlos Machado, como o papa Bento 16, sob a direção de Munir Kanaan.

Frateschi diz ter tido espaço próprio nos grupos de que participou. Depois do Arena e do São Pedro, criou o Teatro Núcleo Independente, em São Miguel Paulista, na zona leste, em parceria com associações de bairro, igrejas e escolas.

O teatro no Bexiga é fruto de duas derrotas, depois que ele e o diretor Roberto Lage não tiveram os projetos selecionados em um edital para ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet.

Os dois e Sylvia Moreira alugaram um espaço que estava fechado e idealizaram o centro cultural inaugurado em 1999, voltado para apresentações, cursos e reflexões teatrais. O trio estabeleceu quatro eixos que ainda norteiam as atividades, mas hoje Lage não faz mais parte da sociedade.

Frateschi afastou-se do espaço quando foi secretário de Cultura de Marta Suplicy, entre 2003 e 2004, após ter sido secretário de Educação e Cultura de Santo André na gestão Celso Daniel. Presidiu ainda a Funarte entre 2007 e 2008, no segundo governo Lula, experiência que deixou cicatrizes.

O ator renunciou ao cargo por meio de carta enviada ao então ministro da Cultura, Juca Ferreira, dois dias após O Globo publicar uma reportagem sobre suposto favorecimento ao Ágora. Havia também atritos com funcionários —a associação que representa a categoria acusou a gestão de Frateschi de ser autoritária e criar um clima de intimidação.

“Eu não tive um dia que não fosse de greve, desde que entrei até o dia em que saí”, afirma.

Com Juca Ferreira, os embates eram em torno da forma de administrar a cultura. “Ele era um dos adeptos da indústria cultural. Todos os argumentos eram o quanto a cultura gera em termos de dinheiro. Tudo isso eu acho um equívoco total, mas era isso”.

Os projetos atrasados da Lei Rouanet e a localização da sede da Funarte no Rio de Janeiro, longe de Brasília, também foram entraves para a gestão.

Frateschi acredita ter sido vítima de um processo de fritura, vindo de cima. Segundo ele, a acusação de favorecer o Ágora é mentirosa e foi criada após o teatro receber atrasado o segundo pagamento de um projeto aprovado anteriormente pela Petrobras.

Ao contrário do que muitos pensam, o ator diz que não é filiado ao PT e critica a gestão federal da cultura sem preocupação com possíveis reprimendas partidárias. “Sinceramente, ainda vejo o Ministério da Cultura preso nos padrões mais neoliberais da indústria cultural. Não consigo ver nenhuma ação mais concreta.”

Para ele, as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, de incentivo cultural, deveriam ser um laboratório para o Sistema Nacional de Cultura, mas isso não ocorre por problemas de definição de critérios e fiscalização sobre o destino dos recursos.

Frateschi também enxerga um ainda mal aproveitado potencial de desenvolvimento do cinema brasileiro. Diz compreender, no entanto, que nada acontece por decreto e que há a necessidade de muita negociação em relação às decisões governamentais.

Antes de ser secretário, integrou o Arte contra a Barbárie, movimento de grupos teatrais paulistanos contra a mercantilização das artes no fim da década de 1990. Ele mantém a defesa da cultura como direito de cidadania, “muito diferente do que está acontecendo agora”.

“O cidadão tinha que ter acesso ao bem cultural, aos instrumentos para se desenvolver culturalmente. Isso eu acho que seria o papel do Estado. E hoje o papel é financiar grupos”.

As mobilizações também são diferentes, na visão do artista, e ocorrem apenas nas urgências. Um exemplo seria a “situação nonsense” enfrentada por grupos teatrais em relação à Lei de Fomento, com entraves burocráticos e atrasos na gestão Ricardo Nunes, do MDB.

Enxuto e aberto também à locação para filmagens, o Ágora sobrevive com marido e mulher segurando as pontas, muitas vezes com recursos de trabalhos realizados fora do espaço cultural do Bexiga.

O espírito de Augusto Boal paira no local por meio de um grupo comunitário que se reúne aos domingos. Moradores da região e de outros bairros fazem ali um teatro não profissional, com expectativa de se apresentarem ao público até o fim do ano.

Outra lembrança inevitável é a do irmão morto aos 75 anos após ser esfaqueado pelo filho durante um surto psiquiátrico, em novembro do ano passado. “Meu irmão era meu herói. Um baita cara”, diz sobre o ex-deputado estadual Paulo Frateschi.

O dirigente histórico do PT já perdera dois filhos, de sete e 16 anos, em acidentes distintos, em 2002 e 2003. Francisco Frateschi, que matou o pai, sofreu acidente grave, passou por cirurgias, faz tratamento com medicamentos e foi internado após o crime.

“Encaro como uma tragédia mesmo. A tragédia não pressupõe culpados. O teatro ensina a gente a ver essa fragilidade humana, que conhecemos muito pouco”, diz sobre o destino do irmão.



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