Carolina Dieckmmann, em ‘Pequenas Criaturas’, diz que julgar o corpo saiu de moda

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Carolina Dieckmmann, em ‘Pequenas Criaturas’, diz que julgar o corpo saiu de moda


“É tão fora de moda essa história de julgar o corpo alheio”, diz Carolina Dieckmmann numa tarde fria em São Paulom quando fez questão de usar uma regata branca, atendendo a pedidos de sua assessora de que tivesse um visual diferente para aparecer neste jornal. “Ao mesmo tempo, estou tão feliz com meu corpo que isso não bate em mim, não me atravessa.”

A atriz vestia um terno preto de alfaiataria com a tal regata por baixo, por dentro da calça, com um cinto grande e de fivela de metal enfeitada. Era o look da conversa com jornalistas para a divulgação do filme “Pequenas Criaturas“, que venceu o Festival do Rio em 2025.

À noite, na pré-estreia, optou por um vestido curto Louis Vuitton preto com detalhes brancos, meio retrô. Mas, entre uma roupa e outra, fez selfies numa janela envidraçada de camiseta e calcinha contornada de renda e postou nas redes. Está magra, mas forte, com músculos definidos.

Depois da entrevista, acaba confessando o segredo: fez 40 dias de jejum intermitente para viver Helena, a protagonista de “Pequenas Criaturas”. Comia uma refeição ao dia, à noite, e segurava a fome no resto do tempo com água com sal, para não cair a pressão.

O longa, que entra em cartaz nesta quinta, se passa em 1986 e segue Helena e seus dois filhos durante os primeiros dias da família em Brasília, para onde se mudam graças ao trabalho do marido, papel de Michel Melamed. Eles acabam de se instalar e o pai sai para uma viagem de negócios sem data certa de retorno.

Quase sem diálogos, o filme acompanha Helena e seus dois filhos, André, jovem interpretado por Théo Medon, vivendo descobertas, como o primeiro amor, e o caçula, Dudu, papel de Lorenzo Mello, de oito anos, que ainda tem o olhar peculiar de uma criança a quem não se explica muito.

Helena descobre que o marido esconde detalhes da viagem e mergulha numa espiral de solidão e desamparo. Rodado em Brasília e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães —que estreou na direção de longas em 2022 com “Transe“, codirigido com Carolina Jabor—, “Pequenas Criaturas” propõe uma reflexão sobre as mudanças inesperadas da vida e seus efeitos nos três integrantes de uma família marcada pela desconexão.

“Logo no começo da história, a Helena toma uma rasteira e engole seco, vai para dentro de si, numa viagem muito particular, muito solitária”, afirma Dieckmmann. “Eu sempre me dediquei ao drama, meu gênero preferido. Gosto de fazer mulheres com alguma dor. Acho mais interessante.”

Ao vivo, Dieckmmann parece mais leve que a sua personagem, muito mais calorosa, bem-humorada e diz ser uma mulher de sorte. Casada desde 2007 com o executivo Tiago Worcman, é mãe de Davi Frota, 27, de seu primeiro casamento, com Marcos Frota, e José Worcman, 18. Teve dois filhos, dois casamentos e um divórcio antes de chegar aos 30.

“Olho minha trajetória e vejo que todos os limões que passaram pelas minhas mãos viraram limonadas, desde um incêndio na casa de meus pais, quando eu tinha dez anos. O que ficou para mim foi que a gente na vida tem pessoas e não coisas”.

Com 19 novelas e 10 filmes no currículo, Dieckmman participou de momentos icônicos da televisão, como quando raspou a cabeça durante as gravações de “Laços de Família“, novela de Manoel Carlos exibida na Globo entre junho de 2000 e fevereiro de 2001.

Na trama, ela interpretava Camila, que recebe o diagnóstico de leucemia. A cena em que a personagem raspa a cabeça, ao iniciar o tratamento de quimioterapia, ficou eternizada na história das telenovelas.

“Não aconteceu nada no dia seguinte, não me trataram diferente, não ganhei mais dinheiro. Pelo contrário, perdi todas as campanhas publicitárias que eu tinha por ficar careca. Não era para ser um grande evento, mas, quando olho para trás, penso: ‘caramba, que bom que eu fiz o que tinha que ser feito, porque seria uma marca horrorosa na minha vida se não tivesse feito.'”

“Foi a primeira vez que eu comecei a me achar bonita. Eu tinha uma visão distorcida da minha imagem, achava que só tinha virado modelo porque era loirinha de nariz arrebitado”, adiciona. “Quando raspei a cabeça, me olhei no espelho e falei —‘caramba, essa sou eu?’ Foi um rito de passagem, comecei a me achar interessante”.

Mas talvez o feito mais inusitado da vida da carioca seja a lei que ela batizou. A Lei Carolina Dieckmann, ou Lei Federal nº 12.737, de 30 de novembro de 2012, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff, foi uma alteração no Código Penal brasileiro para classificar como crime a invasão de computadores, celulares e outros aparelhos eletrônicos sem permissão, especialmente para obter ou divulgar dados privados.

No começo daquele ano, hackers invadiram o computador da atriz e roubaram fotos íntimas que ela havia feito para o então namorado, hoje marido, e tentaram extorqui-la em troca de não divulgar as imagens. Ela se recusou e o material foi parar na internet. Aí, partiu para a luta.

“Não tinha outra coisa a fazer, mas tomei muita porrada. Ninguém está pronto para tomar porrada do jeito que eu tomei. Vi meu marido ir até a delegacia para dizer que as fotos eram para ele e as pessoas rindo dele. Fomos muito coerentes com quem somos, mas foi duro”.

A Polícia Civil identificou os envolvidos e apreendeu computadores e outros aparelhos. Os suspeitos foram investigados por furto, extorsão, difamação e formação de quadrilha, mas não foram presos. A repercussão impulsionou a aprovação da lei, já que a legislação da época não tratava esse tipo de crime com clareza.

“Pequenas Criaturas” foi filmado antes da nova “Vale Tudo“, em que Carolina viveu Leila, personagem que, na versão original, de 1988, era a assassina de Odete Roitman.

“Qualquer atriz que fosse interpretar a Leila gostaria de fazer essa cena, né? Seria incrível, mas já entrei sabendo que não seria o caso. A trajetória dela não é essa, a existência dessa figura tem outro sentido na trama. Então tirei esse assunto da cabeça. Eu era a única pessoa do elenco que sabia que não ia matar a Odete Roitman”, conta.

Ou seja, ela mantém a forma desde 2024, quando rodou este longa prestes a estrear. “Estou magra e bem feliz, mas já ouvi coisas horríveis sobre o meu corpo. Quantas vezes vi Preta ser julgada de forma horrível pelo corpo dela. Essa briga também é minha porque afeta muitas mulheres que não estão com os corpos que gostariam de ter. E essas mulheres sofrem profundamente”, afirma a atriz, em menção à cantora Preta Gil, morta em julho de 2025.

A artista morreu aos 50 anos, em Nova York, enquanto fazia um tratamento experimental contra um câncer de intestino, diagnosticado em janeiro de 2023. Ela passou mal quando se preparava para retornar ao Brasil e morreu a caminho do hospital.

“Não realizei o luto da Preta ainda. Tento entender como vai ser a minha vida sem ela, porque ainda não é, ela segue presente em muitos momentos. Ela foi minha melhor amiga durante 25 anos da minha vida”, diz Dieckmmann.

“Ela era extraordinária, não há ninguém como ela, sempre a mais corajosa, a mais afetuosa, a amiga mais presente.



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