Audiolivros piratas feitos com inteligência artificial se disseminam no YouTube

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Audiolivros piratas feitos com inteligência artificial se disseminam no YouTube


Por qualquer critério que se use, o mais recente thriller jurídico de John Grisham, “The Widow”, foi um sucesso absoluto. Vendeu mais de 1,3 milhão de cópias desde seu lançamento no outono passado e recebeu críticas entusiasmadas no Goodreads, Amazon e Audible, onde os ouvintes elogiaram tanto a história quanto a narração de Michael Beck.

Mas, no YouTube, uma versão gratuita do audiolivro de “The Widow”, que tem mais de 80 mil visualizações, recebeu uma enxurrada de reclamações.

Os ouvintes ficaram horrorizados com a narração emocionalmente monótona e robótica e confusos com os vídeos que passavam ao fundo. As cenas —mostrando uma cachoeira, uma família fazendo piquenique em uma praia tropical, pessoas mergulhando em um recife de coral e um homem trabalhando em um arrozal— não tinham nada a ver com a história de Grisham sobre um advogado de cidade pequena na zona rural da Virgínia que se vê julgado por assassinato.

“A voz de IA torna difícil acompanhar e fica entediante”, reclamou um comentarista. “A história parece ótima. Mas a narração a torna horrível.” “Tive uma reação parecida, mas aí lembrei que era de graça”, rebateu outro ouvinte.

“The Widow” é um dos inúmeros audiolivros pirateados que aparecem como vídeos no YouTube, reproduzindo desde “Harry Potter” e “Jogos Vorazes” até ficção literária de destaque e best-sellers de negócios. Os vídeos às vezes atraem dezenas de milhares de ouvintes.

Embora a pirataria seja um problema para o mercado editorial há muito tempo, o rápido crescimento de audiolivros não autorizados no YouTube, que editoras e autores acreditam estar corroendo as vendas de seus livros, representa um novo desafio para a indústria.

Os audiolivros dispararam em popularidade nos últimos anos nos Estados Unidos, impulsionados pelo uso generalizado de smartphones e pelo consequente aumento nos serviços de streaming de áudio, e se tornaram uma fonte essencial de receita para as editoras.

Editoras e produtoras de audiolivros estão investindo pesadamente neles, gravando produções grandiosas com elencos completos, repletas de efeitos sonoros e trilhas musicais, em um esforço para redefinir audiolivros como uma forma de arte narrativa própria, não apenas mais um formato editorial.

Ao mesmo tempo, programas de inteligência artificial deram aos piratas novas ferramentas para reproduzir rapidamente audiolivros e lucrar ilegalmente com eles por meio de anúncios.

A IA facilitou a criação rápida de audiolivros usando narração sintética. Como a maioria das tecnologias antipirataria é projetada para detectar arquivos idênticos, não alterados, muitos deles escapam da detecção por programas usados para identificar violação de direitos autorais. Versões de IA de livros muito aguardados frequentemente aparecem no YouTube horas após serem lançados.

Grisham diz que o YouTube deveria assumir alguma responsabilidade pela disseminação de audiolivros copiados ilegalmente em seu site.

“Os ladrões e piratas que roubam meu trabalho e tentam lucrar com ele, em qualquer formato, deveriam ser punidos civil e criminalmente”, escreve em um email ao New York Times. “E, neste exemplo específico, o YouTube é cúmplice, porque está claro que eles sabem o que está acontecendo e se recusam a impedir.”

Um representante do YouTube disse ao Times que nenhuma reclamação de violação de direitos autorais foi feita à empresa contra aquele vídeo contendo “The Widow”.

O representante afirma que as editoras são, em última instância, responsáveis por lidar com a violação de direitos autorais na plataforma, sinalizando-a ao YouTube, e diz que a empresa não está em posição de determinar se os usuários receberam ou não permissão dos detentores dos direitos para fazer upload de determinado conteúdo.

“Por mais de duas décadas, construímos sistemas que ajudam os detentores de direitos a gerenciar e controlar seu conteúdo protegido por direitos autorais — investindo continuamente para garantir que esses sistemas evoluam à medida que novas ameaças surgem”, diz um porta-voz do YouTube, Jack Malon, em comunicado. “A IA é a mais nova fronteira, e nossa abordagem permanece a mesma.”

Audiolivros copiados ilegalmente também apareceram em outras plataformas, onde os piratas às vezes os disfarçam como podcasts, dividindo-os em capítulos.

Mas as editoras dizem que o YouTube apresenta o maior desafio, tanto porque a plataforma é muito popular quanto porque o YouTube tem pouco incentivo para resolver o problema —diferentemente de plataformas como Apple Books e Spotify, que têm acordos financeiros com editoras para licenciar ou vender seu conteúdo.

O YouTube atrai cerca de 2 bilhões de espectadores todos os dias. Uma pesquisa de 2025 com consumidores de audiolivros, encomendada pela Audio Publishers Association, descobriu que 35% deles tinham ouvido um audiolivro na plataforma.

É difícil determinar quantos audiolivros pirateados estão disponíveis no YouTube. As pessoas que fazem upload deles frequentemente tentam escapar da detecção alterando os arquivos, adicionando pausas, música ou até modificando ligeiramente o texto.

Às vezes, os piratas colocam conteúdo não relacionado no início para enganar a detecção. E quando um canal com conteúdo pirateado é derrubado, outro frequentemente toma seu lugar.

Executivos de editoras e de audiolivros dizem que não estão equipados para lidar com o problema usando o protocolo de remoção do YouTube, que exige que as editoras façam manualmente o upload de cada lote de solicitações de remoção.

“O processo atual é trabalhoso, demorado e, em última análise, ineficaz, já que os infratores republicam rapidamente sob um pseudônimo diferente”, disse Ana Maria Allessi, presidente e editora da Hachette Audio.

Os audiolivros se tornaram uma fonte crítica de crescimento para as editoras. As receitas com vendas de audiolivros digitais no ano passado atingiram US$ 1,1 bilhão nos EUA, um aumento de mais de 310% em relação a 2016, segundo a Association of American Publishers. A parcela de receita das editoras proveniente de áudio digital foi de mais de 11% no ano passado, ante 3,5% em 2016.

“A combinação de uma forma adicional de pirataria de audiolivros com o crescente público dos audiolivros tornou a pirataria no YouTube um problema real”, disse Mary Rasenberger, CEO da Authors Guild. “Se você pesquisar qualquer best-seller, encontra um audiolivro gratuito no YouTube.”

As grandes editoras estão contratando empresas de tecnologia para ajudá-las a identificar e combater audiolivros gerados por IA.

A Association of American Publishers, que atua como defensora jurídica e política para a indústria editorial, recentemente contratou a Vermillio, uma plataforma de licenciamento e proteção de IA que rastreia propriedade intelectual. A Vermillio está varrendo dezenas de milhares de audiolivros no YouTube e outras plataformas em busca de violação de direitos autorais, incluindo em arquivos que foram manipulados com IA.

No mês seguinte à publicação de um novo best-seller, a empresa encontra, em média, mais de 5.000 casos individuais de versões piratas de IA em várias plataformas online, diz um porta-voz da Vermillio. Essas edições piratas de IA podem coletivamente atrair mais de 200 mil reproduções, segundo a empresa —o que significa que um público substancial está consumindo os audiolivros gratuitamente.

“O que queremos na indústria editorial é que o YouTube seja um parceiro e não deixe passivamente o conteúdo ilegal proliferar”, disse Maria A. Pallante, presidente e CEO da Association of American Publishers. “Isso não é a dark web. Estamos falando de uma marca americana realmente popular.”

As grandes editoras e a Audible, maior produtora e varejista de audiolivros do mundo, que pertence à Amazon, intensificaram seus esforços antipirataria, o que inclui varrer plataformas em busca de conteúdo infrator.

“Estamos investindo significativamente na identificação e remoção ativa de conteúdo de audiolivros pirateados em sites e locais como o YouTube e trabalhando em estreita colaboração com nossos parceiros para enfrentar o desafio de confrontar e acabar com a pirataria”, diz Rachel Ghiazza, diretora de conteúdo da Audible.

Editoras e organizações de audiolivros dizem que o YouTube, que pertence ao Google, não fez o suficiente para resolver o problema, apesar de ter desenvolvido ferramentas sofisticadas para lidar com música e filmes pirateados.

Por meio de seu programa Content ID, o YouTube pode escanear automaticamente uploads de vídeo em busca de conteúdo protegido por direitos autorais. Os detentores de direitos autorais são alertados quando há uma correspondência e podem optar por bloquear o conteúdo pirateado ou monetizá-lo.

Mas as editoras dizem que o Content ID, que foi construído para música e funciona combinando conteúdo enviado com uma “impressão digital” de áudio de um arquivo de referência, não é tão eficaz para audiolivros quanto é para músicas.

Com audiolivros, mesmo pequenas alterações —como mudanças na velocidade, tom ou voz, ruído de fundo ou música adicionados— podem impedir uma correspondência.

Se há um lado positivo no aumento da pirataria no YouTube, é que o formato claramente encontrou um público crescente na maior plataforma do mundo.

“As pessoas estão se dando muito trabalho para piratear nossos livros, o que significa que há uma base de ouvintes e público lá”, disse Amanda D’Acierno, presidente da Penguin Random House Audio Global. “Só precisamos encontrar uma maneira legítima de levar o conteúdo até eles.”



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