Justificativa instável, ruptura institucional e risco de escalada marcam ação dos EUA contra o Irã, cada vez mais parecida, com época da Guerra Fria.
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O ataque dos Estados Unidos ao Irã recoloca no centro do debate internacional uma estratégia antiga, aplicada agora em um contexto global profundamente distinto. A operação combina quatro vetores que se reforçam mutuamente: uma retórica instável por parte da liderança de Donald Trump, uma tentativa de reorganização política do Oriente Médio por meio da lógica de “Regime Change” forçado, um isolamento internacional crescente dos EUA e a elevação concreta do risco militar para o mundo inteiro.
Nas primeiras 24h desde o ataque, a única certeza é de que o movimento de Trump não se sustenta em uma justificativa única e consistente. Ele se apoia em uma narrativa que muda conforme a conveniência política, ao mesmo tempo em que ignora transformações relevantes na opinião pública e na correlação de forças global.
Contradição
A justificativa nuclear apresentada para a ofensiva não resiste a uma análise minimamente rigorosa. Não é que o Irã não seja perigoso nesse ponto de vista, mas uma negociação estava em curso sem nenhuma notícia de que tivesse fracassado até o momento em que os americanos começaram a atacar. A mesma liderança de Trump que afirmou ter neutralizado completamente a capacidade iraniana no ataque de junho do ano passado a uma estrutura que, supostamente, estaria enriquecendo urânio, volta a utilizar o argumento como base para uma ação militar.
A oscilação expõe incoerência factual e um padrão retórico de conveniência. A narrativa passa a ser moldada para legitimar decisões já tomadas e o efeito é imediato: perda de credibilidade externa e incapacidade de formar consenso internacional em torno da ação.
Estratégia
Diante da fragilidade do argumento formal, ganha força a leitura de que o objetivo central é a mudança de regime e nada mais. Se for isso, trata-se de uma lógica conhecida, baseada no enfraquecimento de governos considerados hostis e na tentativa de substituí-los por lideranças alinhadas aos interesses americanos. Para quem não lembra, era assim que EUA e URSS agiam na Guerra Fria.
Esse tipo de estratégia tem um histórico de intervenções com resultados instáveis e, em muitos casos, geraram traumas imensos, como no Vietnã.
A insistência nesse modelo revela uma opção clara de poder: a imposição como método e a negociação como variável secundária. Atualmente é algo muito praticado pelo atual presidente americano e que se pode chamar de “diplomacia de porrete”.
Histórico
Os exemplos acumulados ao longo das últimas décadas ajudam a contextualizar o momento atual. Intervenções com o objetivo de redesenhar regimes políticos produziram, com frequência, cenários de instabilidade prolongada e ataques terroristas em sequência por muitos anos. O padrão se repete com variações de contexto, mas com consequências semelhantes: fragmentação interna, conflitos persistentes e dificuldade de reconstrução institucional.
Instituições
A condução do ataque também expõe um problema institucional duplo. No plano interno, dos EUA, há um esvaziamento do papel do Congresso, responsável exclusivo por autorizar ações de guerra e que foi ignorado completamente.
No plano externo, observa-se um afastamento das instâncias multilaterais e dos mecanismos de coordenação internacional. A combinação desses fatores reduz a legitimidade da ação e amplia o custo político da operação. Se é que Trump está preocupado com isso.
A ausência de apoio consistente de aliados tradicionais reforça a percepção de isolamento. Ninguém viu Reino Unido, França ou Alemanha na empreitada. Porque eles não foram nem consultados.
A ação foi ideia de Trump, com ajuda de Israel e uma banana para órgãos multilaterais internacionais e para os congressistas americanos.
Riscos
O cenário se torna ainda mais sensível quando se consideram os fatores de risco. O Irã possui capacidade de resposta e já demonstra disposição para utilizá-la. Isso amplia o potencial de escalada e aumenta a exposição de forças americanas e de aliados na região.
Ao mesmo tempo, mudanças na opinião pública interna dos EUA criam um ambiente menos favorável a intervenções externas prolongadas. Trump foi eleito prometendo retirar os EUA de guerras pelo mundo, mas já se envolveu diretamente em sete novas ações em outros países.
Para completar, uma pesquisa Gallup, esta semana, mostrou que pela primeira vez em mais de 20 anos os americanos estão apoiando mais a causa palestina do que a israelense (41% x 36%). Era impossível imaginar que isso fosse possível depois do 11 de setembro de 2001.
E não, o Irã não é uma nação palestina, eles são persas, é importante reforçar. Mas o forte dos americanos médios não é história internacional. Se Israel atacar o Brasil, eles vão achar que os brasileiros são palestinos.





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