Em 2018, diante da polarização que dominou o Brasil durante as eleições, Fernanda Torres tomou uma decisão drástica. Cancelou a temporada do monólogo “A Casa dos Budas Ditosos”, no Rio de Janeiro, por temer o humor do que chamou de brigadas conservadoras.
À época, a classe artística vinha sofrendo uma série de ataques promovidos por eleitores do então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. “A covardia nos fez deixar a baiana libertária de João Ubaldo de molho”, escreveu Torres, na ocasião. Após oito anos e perto de uma nova eleição presidencial, a atriz volta a encarnar a sexagenária despudorada que fascina espectadores, enrubesce reacionários e incendeia palcos ao longo de duas décadas.
Em cartaz no Vibra São Paulo, na zona sul da capital paulista, “A Casa dos Budas Ditosos” retorna, nesta quarta-feira (4), em curta temporada, com a mesma verve que o consagrou desde sua primeira montagem, em 2003. Depois desta primeira vez, dirigida por Domingos de Oliveira, a atriz voltou a encenar o espetáculo de forma sazonal em diferentes cantos do país, acumulando mais de 3 milhões de espectadores.
Em razão do sucesso e da longevidade, o monólogo se tornou um marco na carreira de Torres. É uma produção tão luminosa em seu currículo quanto “Ainda Estou Aqui” —filme que rendeu a ela o Globo de Ouro de melhor atriz e deu ao Brasil o seu primeiro Oscar— ou o seriado “Os Normais”.
“Ela virou um clássico. É a minha prima donna”, diz a atriz, em período sabático da sua coluna na Folha. “Quando enceno a peça, sinto que estou voltando a cantar de novo uma partitura que conheço muito bem e que não envelheceu ao longo dos anos.”
Uma espécie de tratado sobre o prazer e a liberdade, a peça parte do livro de 1999 de João Ubaldo Ribeiro, o mesmo autor do clássico “Viva o Povo Brasileiro”.
Na obra, uma mulher decide gravar, em fitas de áudio, a experiência sexual que acumulou ao longo de seus 68 anos para depois enviá-las a Ubaldo. O que se vê no palco é esse processo, em que ela narra os pormenores de suas aventuras sem qualquer culpa ou vergonha.
Por isso, tanto o livro quanto o espetáculo viraram alvo do escrutínio de grupos mais conservadores. Em 2000 e em 2008, a obra de Ubaldo fez barulho em Portugal, quando foi proibida nas livrarias de lá, sob o argumento de conteúdo pornográfico. Uma década depois, a radicalização política assombrou o Brasil.
“O mundo todo ficou mais agressivo e belicoso. Em 2018, havia convicções muito acirradas, com um processo de ataque à classe artística”, diz ela, acrescentando que sentia isso também ao escrever as suas colunas para este jornal. “Quando comecei a fazer os textos, eu não tinha medo. Mas, conforme os anos foram passando, fui temendo todos os lados, não apenas o conservador.”
Atualmente, porém, Torres diz sentir que a sociedade está menos reativa e beligerante do que naquele período. “Por um lado, entenderam que parte do Brasil é conservador, e que isso deve ser respeitado. Por outro, as pessoas se educaram a respeito de assuntos sobre os quais não conheciam, como racismo e machismo.”
Nos últimos anos, a própria atriz passou por um processo de aprendizado sobre esses temas. Em 2016, publicou um artigo sobre a questão de gênero que foi alvo de uma série de críticas.
No texto, afirmava que a “vitimização do discurso feminista” a irritava mais do que o machismo e que rejeitava campanhas “anti-fiu-fiu” —em referência aos assobios de paquera—, porque considerava “o flerte um estado de graça a ser preservado”. Dois dias depois, Torres se desculpou pelo artigo. “Fui apresentada a um novo feminismo que eu desconhecia. Entendi naquele momento que eu era uma pessoa do século passado. Aprendi apanhando.”
Quando questionada se já se autocensurou para evitar novas polêmicas, ela diz não ser contrária a essa prática. “Em certas ocasiões, você toma cuidado, faz uma curva e consegue ser ouvido. Um desafio hoje em dia, já que furar a bolha é difícil”, diz. “Às vezes, a autocensura é boa. Quem disse que a liberdade absoluta é a verdade absoluta?”
A atriz voltou a se desculpar, em janeiro do ano passado, desta vez por um caso blackface —quando uma pessoa branca pinta seu rosto e corpo de preto— num esquete de 18 anos atrás, do quadro “Sexo Oposto”, no Fantástico.
Torres reforça que se arrepende da caracterização, mas diz ter dúvidas se a gravação viralizou por motivos nobres. “A razão de terem achado aquilo não era social. Acho que tinha a ver com campanha de filme.”
O assunto voltou à baila em janeiro do ano passado, poucas semanas após a vitória dela no Globo de Ouro e perto da indicação de “Ainda Estou Aqui” a três categorias no Oscar —uma delas de melhor atriz para Torres. O prêmio foi para a atriz Mikey Madison, então com 25 anos, pelo trabalho em “Anora”.
Torres, porém, era mais nova que a sua concorrente quando, há 40 anos, tornou-se a primeira brasileira laureada como melhor atriz no Festival de Cannes, pelo filme “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor.
“Foi um prêmio importante, porque eu era muito nova. Ele me deu reconhecimento”, diz a atriz, que tinha 20 anos à época. “Viajei o mundo, fiz muitos festivais. Mas, a partir dos anos 1990, o cinema praticamente acabou no Brasil.”
No início daquela década, o governo do então presidente Fernando Collor de Mello gerou um apagão no setor com a extinção da estatal Embrafilme, principal produtora de filmes nacionais daquele período. A indústria cinematográfica só começou a se recuperar com o chamado cinema de retomada, a partir de 1995, com filmes como “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camurati.
Apesar do alarde recente com “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” —em bilheterias de cerca de R$ 180 milhões e R$ 95 milhões pelo mundo, respectivamente—, o cinema nacional, apesar de investimentos milionários, ainda tem fragilidades em suas políticas públicas, diz Torres. Isso se reflete numa falta de constância, conforme a presença do Brasil nos festivais internacionais de 2026 está minúscula, após uma onda forte nos dois anos anteriores.
No mês passado, reportagem da Folha mostrou que a rede Cinemark programou centenas de exibições de um filme infantil, mesmo sem público, para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo de estímulo à exibição de obras nacionais.
A atriz diz ainda que a pandemia e o avanço da inteligência artificial criaram desafios adicionais à indústria, não só no Brasil.
“Hoje, existe uma crise muito grande no cinema. Durante a pandemia, todo mundo comprou uma TV de muitas polegadas com home theater e se acostumou a ver cinema em casa”, diz ela. “Agora, ainda tem a IA. São tecnologias muito mais rápidas do que a nossa capacidade de legislar sobre elas. Por isso, estamos muito atrasados em termos de lei.”
Em paralelo, já está em pós-produção o filme “Os Corretores”, uma comédia sobre as ambições e dilemas de um grupo de agentes imobiliários, escrita e estrelada por ela, e dirigida pelo marido, Andrucha Waddington. A previsão é que chegue aos cinemas até o final do ano.
Quando o assunto é carreira internacional, Torres é mais esquiva. Diz avaliar alguns filmes no exterior, mas prefere não entrar em detalhes. “Não falo sobre coisas que ainda não existem”. A artista, porém, discorre de forma mais aberta sobre o longa “Cuddle”.
Com direção de Bárbara Paz, a produção tem no elenco Torres e Willem Dafoe —conhecido por filmes como “Homem-Aranha”, “O Farol” e “Projeto Flórida”. O projeto será gravado no Brasil e falado em inglês.
“Estou muito feliz de fazer esse filme e tenho muita curiosidade também”, diz a atriz, animada para dividir o set com Dafoe. “Ele se sentou ao meu lado na noite do Oscar. Era sensacional e tem um humor maravilhoso.”













