Artista portuguesa Joana Vasconcelos leva jardim imersivo ao Farol Santander

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Artista portuguesa Joana Vasconcelos leva jardim imersivo ao Farol Santander


Numa estrutura quase labiríntica, flores conectadas por fibra óptica cintilam na escuridão. Por entre elas, caminhos iluminados se formam e conduzem a uma caminhada sem destino, em que as cores das flores e das asas de borboletas de plástico se misturam, compondo uma atmosfera quase onírica. Em “Jardim do Éden”, a artista portuguesa Joana Vasconcelos leva ao Farol Santander, no centro de São Paulo, uma nova montagem do trabalho, já exibido em países como Itália, Inglaterra, França e Espanha.

Ao ocupar o espaço com um ambiente imersivo, Vasconcelos investe na fricção entre natureza e artifício —um jardim inteiramente fabricado que, ainda assim, preserva certa dimensão sensorial e contemplativa.

O trabalho parte de um elemento ordinário. As flores que compõem a obra remetem a modelos decorativos luminescentes vistos pela artista pela primeira vez, segundo conta, em um restaurante chinês. A partir desse repertório, ela desenvolveu, ao longo de três anos, um sistema próprio de iluminação com fibra óptica, capaz de produzir um efeito visual que sugere movimento e transformação.

Esse procedimento se desdobra na forma como a instalação ocupa o espaço. Multiplicadas pelo ambiente, as flores de plástico criam um padrão contínuo que, atravessado por luz e cor, altera a percepção do visitante. “Uso a repetição para alcançar um nível de abstração que projeta o espectador em outra dimensão”, diz.

Recorrente em sua trajetória, a operação de deslocar objetos banais para um regime de maior densidade simbólica aparece aqui de forma explícita. Materiais simples, de baixo custo, ganham escala e complexidade. Para Vasconcelos, o valor não está necessariamente nos materiais, mas na forma como são apresentados.

Embora já tenha exposto no Brasil desde os anos 2000, esta é a primeira vez que a artista traz ao país uma obra dessa dimensão. Ela identifica afinidades entre sua produção e o contexto brasileiro, destacando o uso da cor e o caráter dinâmico que identifica na cultura brasileira. “O Brasil é um país em transformação, diferente do peso histórico português. Essa ideia de que as coisas podem tornar-se outras coisas é muito forte aqui”, diz.

Essa noção atravessa sua pesquisa, que frequentemente questiona categorias como valor, luxo e riqueza. Mais do que qualidades intrínsecas aos materiais, esses atributos aparecem como construções —passíveis de deslocamento por meio da forma e do contexto.

Ao situar seu trabalho em relação à tradição portuguesa, a artista aponta para uma herança cultural difusa, que atravessa diferentes gerações. Cita nomes como Maria Helena Vieira da Silva e Paula Rego, cujas obras, embora distintas, carregariam marcas de uma experiência histórica comum; uma espécie de “herança” que se inscreve nas obras.

Entre suas referências, menciona artistas que, como ela, operam deslocamentos de sentido na realidade. Ela menciona sua visita recente a uma exposição do pintor britânico David Hockney, em Londres. “O artista tem esse papel transformador, de fazer olhar para o cotidiano de outra maneira, como Hockney faz. Quando vou a uma exposição e isso acontece, penso que é por isso que eu trabalho.”

Em um momento marcado por conflitos e instabilidade global, Vasconcelos atribui à arte uma função transformadora, ainda que indireta. “Os artistas ajudam, sem discurso direto, a transformar a realidade em um lugar melhor”, diz. “Eu acho que é um trabalho fundamental para mostrar que essa realidade pode ser positiva e pode ser muito simples, mas transformadora. E é isso que eu tento fazer.”



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