Análise: Tropicalista radical, Tom Zé completa 90 com obra que implode o bom gosto

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Análise: Tropicalista radical, Tom Zé completa 90 com obra que implode o bom gosto


A radicalidade do projeto estético-político de Tom Zé, desde os anos 1960, está em sua obcecada busca por transformar a imperfeição em método crítico. Ao produzir deliberadamente uma música aberta, hesitante e aparentemente mal-acabada, ainda que construída por meio de procedimentos técnicos rigorosos, o músico baiano questiona os critérios pelos quais o virtuosismo, o refinamento e o bom gosto adquirem autoridade cultural.

Seu primeiro LP, “Grande Liquidação”, de 1968, já se apropria da sonoridade da Jovem Guarda, do rock e das guitarras elétricas para subverter tais estéticas por meio de letras irônicas sobre consumo, modernização e política. Já o segundo disco, de 1970, conhecido como “Jimmy, Renda-se”, leva a dimensão contestatória das canções para a própria forma musical.

As canções passam a ser construídas pelo estranhamento: arranjos incompletos, linhas melódicas interrompidas, rupturas harmônicas, construções intencionalmente simplórias, repetições e fragmentos. Tom Zé se aproxima de formas populares de produção, incorporando soluções improvisadas, economia de meios e hesitação ao processo criativo.

Mais do que isso, a obra revela, como num raio-X, o próprio processo de construção musical. É uma música que procura não saber completamente como ser música. Isso não significa abrir mão do controle técnico.

Gravação, captação e equalização são realizadas de maneira meticulosa, revelando um paradoxo fundamental: a sofisticação técnica é colocada a serviço do combate à própria aparência de sofisticação. Há a confluência de dois mundos, como num personagem de Edgar Allan Poe admirado por Tom Zé: a justaposição entre o mais erudito e o mais ordinário.

O LP de 1972, relançado em 1984 como “Se o Caso É Chorar”, talvez seja um dos discos mais radicais da história da música brasileira e torna esse projeto ainda mais explícito. Se o projeto político-estético apresentado em 1970 ainda poderia parecer circunstancial, em 1972 a ambiguidade se desfaz. Há um ímpeto deliberado de aproximação com o público, preocupação que Tom Zé descreve em sua autobiografia, “Tropicalista Lenta Luta”, de 2003, como central em sua formação desde suas primeiras apresentações musicais em Irará.

A aproximação intelectual com a poesia concreta de Augusto e Haroldo de Campos ganha uma dimensão material com a presença do poema trilíngue “Cidade/City/Cité”, de Augusto, na abertura de “Senhor Cidadão”.

Hélio Oiticica, numa conversa de 1971 com Haroldo de Campos, publicada pela Folha em 2003, afirma que as coisas feitas no Brasil já possuiriam um caráter “a priori underground” diante da cultura profissionalizada e de consumo americana e europeia.

Nessa linha, a condição marginal não seria uma deficiência a ser superada, mas uma posição crítica: precariedade não significaria atraso; nem marginalidade, incapacidade. A ausência de polimento tornar-se-ia potência. Na mesma conversa, Haroldo define a antropofagia como uma operação capaz de juntar “Sócrates e Tarzan e odaliscas no Catumbi”.

Nessa chave, Tom Zé reencena nos trópicos, quase 24 séculos depois, algo do método socrático: a posição daquele que deliberadamente não sabe, que se despe da autoridade do conhecimento para colocá-la em questão. A certeza dá lugar à hesitação; o virtuosismo, à simplicidade; a afirmação, à dúvida; a forma fechada, à aberta; o discurso eloquente, ao diálogo. Tom Zé finge não saber fazer música para interrogar a própria música.

Se até o disco de 1972 esse método se afirmava sobretudo no plano musical, pela imperfeição e simplicidade deliberadas, ainda não encontrava equivalente nas criações visuais dos álbuns. É em “Todos os Olhos”, de 1973, que a radicalidade musical contamina o objeto gráfico.

A ideia de Décio Pignatari era fotografar um ânus feminino com uma bolinha de gude, numa provocação cifrada à censura da ditadura. As primeiras tentativas ficaram explícitas demais. Na solução escolhida, fotografada por Reinaldo Moraes, a bolinha foi colocada entre os lábios de uma mulher.

A capa não mostra um ânus —constrói tecnicamente a ilusão de um. Um ataque ao refinamento e ao bom gosto como valores em si. No encarte, uma nota parece sintetizar o programa: “O Heraldo do Monte, do ex-Quarteto Novo, achou divertido não tocar bem e a gente deve agradecer muito a ele”.

Essas proposições encontram paralelo na obra de Lina Bo Bardi, sobretudo no projeto do Masp. Em 1972, a arquiteta afirmou que sua preocupação havia sido fazer uma “arquitetura feia” e uma “arquitetura ruim”, com espaços livres que pudessem ser criados pela coletividade. A incompletude não era uma falha a ser corrigida, mas a possibilidade de apropriação do espaço pelo público.

Tom Zé e Bo Bardi compartilham uma crítica ao diletantismo cultural e às noções canônicas de bom gosto, assim como a tentativa de desmontar as barreiras entre especialista e público, artista e espectador, arte e vida. A “arquitetura feia” de Bo Bardi é a “antimúsica” de Tom Zé.

O projeto estético-político do músico atravessa toda a sua obra posterior. Em “Estudando o Samba”, de 1976, Tom Zé desmonta e reconstrói o samba até levá-lo à abstração. Em “Com Defeito de Fabricação”, de 1998, incorpora máquinas e ferramentas industriais como instrumentos, produzindo ruídos e até faíscas nos palcos. Em “Jogos de Armar”, de 2000, escancara a abertura da obra ao acompanhar o álbum com um disco de células musicais, ou samples, para “permitir reelaboração e remontagens”.

Sua trajetória corporifica, assim, alguns dos pressupostos mais radicais e contestatórios da tropicália. Talvez justamente por ter levado às últimas consequências uma potência que o próprio movimento apenas começou a esboçar, tenha se tornado uma espécie de azarão da história do tropicalismo, presente desde o núcleo original, mas durante muito tempo lateral à narrativa de sua consagração.

No disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Circencis”, de 1968, Tom Zé aparece na capa, assina “Parque Industrial” e canta na gravação, embora sua participação vocal tenha desaparecido dos créditos do álbum.

Há nisso uma ironia —aquele que talvez tenha preservado de maneira mais persistente a capacidade da tropicália de transformar precariedade, mau gosto e incompletude em instrumentos de invenção permaneceu, por décadas, à margem da própria consagração do movimento. Lenta luta, Tom Zé.



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