A indicação de “Ainda Estou Aqui” ao Oscar de melhor filme sacramenta um dos anos mais imprevisíveis da premiação. Depois de duas edições marcadas por campeões avassaladores, em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” e “Oppenheimer”, a categoria agora apresenta uma disputa sem favorito óbvio.
Isso é uma notícia ótima para o longa de Walter Salles, a primeira produção brasileira a disputar a estatueta principal. O filme já começa a corrida como o indicado do momento, graças à aparição surpresa na lista e ao lançamento recente nos cinemas americanos —nos próximos dias, esse circuito será ampliado para outras centenas de salas.
O mais importante, porém, é que o longa de Walter Salles está livre do fogo cruzado das redes sociais e da imprensa internacional que afetou a maioria de seus rivais. Não é exagero dizer que a premiação este ano é marcada pela sinalização de virtude. O Oscar irá também ao filme mais neutro da lista, vencendo as críticas mais violentas do público nas próximas semanas.
O exemplo mais chamativo é “Emilia Pérez”, que desde o início da temporada supera todas as controvérsias possíveis. Da estreia no Festival de Cannes ao Oscar, o filme de Jacques Audiard já passou por todo tipo de atropelamento. O público mexicano ficou ofendido com a sua representação na história, espectadores trans se incomodaram com a protagonista, e o filme recentemente confirmou o uso de inteligência artificial para ajustar a pronúncia do elenco nas falas em espanhol.
Tudo isso não parece afetar os votantes do Oscar, que fizeram da produção o título não americano mais indicado da história do prêmio. Os veículos especializados apontam que o longa, graças ao musical e ao melodrama, é um favorito dos membros fora dos Estados Unidos e nas regiões de Los Angeles e de Nova York, que concentram votos.
Por isso mesmo, “Emilia Pérez” é no momento o nome maior da briga. O seu único obstáculo é a distribuição nos Estados Unidos pela Netflix, plataforma que é um nêmesis histórico da premiação. A resistência à empresa é tão grande que levou “Ataque dos Cães” a perder o prêmio há dois anos —justamente para “No Fundo do Coração”, outra produção do streaming.
Outros nomes badalados da temporada sofreram esmigalhamento parecido. “O Brutalista”, grande mamute da disputa, um drama histórico sobre um arquiteto visionário que chega à América do pós-guerra, chegou às dez indicações logo após entrar na polêmica do uso de inteligência artificial.
O filme também usou a tecnologia para ajustar sotaques, dessa vez húngaros, e aproveitou a ferramenta para ajudar na criação dos desenhos feitos pelo protagonista.
A notícia pegou mal, até porque Hollywood ainda se recupera dos efeitos das greves sindicais movidas pelo tema. Foi barulho o suficiente para Brady Corbet dar entrevistas sobre o assunto, que prejudicou uma produção que atende bem aos anseios estéticos e temáticos dos votantes ao ser um épico sisudo sobre imigração.
Já “Anora”, Palma de Ouro em Cannes, foi amplamente questionado em novembro pela decisão de dispensar o coordenador de intimidade nas cenas de sexo. A revelação veio de Mikey Madison, protagonista do filme, que disse ser a autora do pedido à produção. Enquanto ela perdeu gás na briga do Oscar de atriz, o longa de Sean Baker chega ao prêmio principal sem grandes chances, mesmo com a conquista de seis indicações.
Nesse contexto, “Ainda Estou Aqui” tem seu trunfo. O público internacional vê no brasileiro um melodrama sobre resistência, político o suficiente para mandar uma mensagem sem causar grande alarde.
O longa também está sob a batuta da Sony Pictures Classics de Michael Barker, que ao lado de Harvey Weinstein ajudou títulos não americanos a saírem da categoria de filme internacional e invadirem o Oscar.
Mais importante, porém, é que Barker sabe conduzir indicados à vitória sem fazer alarde, uma especialidade da sua distribuidora. A Sony Classics foi responsável pelo Oscar de Anthony Hopkins em 2021, por exemplo, chocando o mundo ao superar o favoritismo amplo de Chadwick Boseman.
“Ainda Estou Aqui” pode passar por algo parecido em melhor filme, e o histórico recente do prêmio ajuda. Para vencer, o longa de Salles tem que repetir o caminho de “No Ritmo do Coração”, que em 2022 venceu em todas as três categorias que disputava na cerimônia. O filme de Sian Heder superou o status de azarão e levou o Oscar daquele ano com uma campanha grande, mas tão moderada quanto a do brasileiro.
Esse perfil ajuda numa briga em que até produções menos polêmicas enfrentam o fogo quente e politizado das redes sociais. Exemplo disso é “Conclave”, que viu seu suspense da escolha do papa ser acusado de anti-católico por Megyn Kelly, jornalista americana e apoiadora do presidente Donald Trump.
“Wicked”, por sua vez, teve apoio do outro lado da esfera política do país. Enquanto um artigo do New York Times defendeu o filme como um alerta contra o fascismo, o diretor Adam McKay afirmou nas redes que a produção seria banida do país em até cinco anos.
O musical também lidera um grupo mais ou menos encorpado de hits de bilheteria na categoria, outro fator crucial da briga. Na última semana, uma reportagem da Variety disse que os votantes estariam atrás de filmes escapistas, sobretudo frente à destruição dos incêndios de Los Angeles e à posse presidencial de Trump. O número menor de filmes indicados na lista este ano, de apenas 50, reflete a exaustão dos membros.
Essa mentalidade cansada explica a presença da cinebiografia “Um Completo Desconhecido”, com oito indicações, e do terror “A Substância”, com cinco. Mas a Academia também parece estar atrás de um equilíbrio entre as partes, vide a indicação da segunda parte de “Duna”, um “blockbuster” sobre os perigos de uma guerra santa.
Também houve espaço para “Nickel Boys”, sem previsão de estreia no Brasil, filme que é uma crítica pesada ao sistema carcerário do país. A produção adapta o livro premiado de Colson Whitehead e é um queridinho da crítica americana, mas chegou tímido demais. Além de melhor filme, ele briga apenas por roteiro adaptado, onde derrubou “Ainda Estou Aqui”.
É nesse espaço, entre a política e a inocência, que o longa de Walter Salles pode crescer nas próximas semanas. O longa é uma história de resistência passiva em um país distante da realidade dos Estados Unidos, que ainda concentram o grosso dos votos da Academia. Para a campanha, o desafio agora é mostrar que “Ainda Estou Aqui” é dono deste equilíbrio tão difícil que o prêmio tanto busca.

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