Análise: Filmes no Festival de Cannes capturam o clima de mal-estar coletivo

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Análise: Filmes no Festival de Cannes capturam o clima de mal-estar coletivo


Houve um clima de mal-estar pairando sobre a Riviera Francesa nas últimas duas semanas. Não que o Festival de Cannes tenha sido palco de acontecimentos infelizes, mas os filmes exibidos no evento neste ano não eram dos mais alegres —tanto pela qualidade dos filmes, em boa parte medianos, quanto pelos temas que abraçaram.

Trauma geracional, descrença nas instituições, violência, fake news, saúde mental e autoritarismo foram alguns dos assuntos discutidos amplamente pelos postulantes à Palma de Ouro, o prêmio máximo da mostra, e também fora da competição principal. Como num complemento a eles, a memória e a importância de registros históricos ajudaram a narrar muitas das tramas.

Olhar para o passado nunca foi tão comum como neste Festival de Cannes –ou tão difícil. Do brasileiro “O Agente Secreto“, que se desenrola a partir de gravações em fitas cassete, ao catalão “Romería“, ancorada nos diários da mãe da protagonista, passando pelas histórias que lugares e objetos preservam, no norueguês “Sentimental Value“, e pelas canções que deixam viva a cultura de um povo, no anglo-americano “The History of Sound“.

O Agente Secreto” é um caso claro de um cinema brasileiro cada vez mais interessado em lidar com uma história sombria como a da ditadura militar, na esteira do Oscar de melhor filme estrangeiro vencido por “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles. Mesmo que o longa-metragem de Kleber Mendonça Filho não seja exatamente sobre o regime, ele é causa e consequência dos apuros que seu protagonista, vivido por Wagner Moura, enfrenta.

De forma parecida, “Eagles of the Republic“, de Tarik Saleh, mostrou a chantagem como arma política no Egito; “Un Simple Accident“, de Jafar Panahi, abordou a tortura e as prisões arbitrárias no Irã; “Two Prosecutors“, de Sergei Loznitsa, voltou suas lentes ao clima de terror do stalinismo.

Nas sessões especiais, “Yes”, de Nadav Lapid, deixou clara a oposição do israelense às ações de seu país em Gaza, misturando documentário e ficção numa cena final atormentadora, e “The Disappearance of Josef Mengele“, do russo Kirill Serebrennikov, escancarou os horrores de Auschwitz a partir dos experimentos de um médico nazista.

Não foi só ao olhar para o passado ou para as raízes históricas dos problemas que o clima pesou. Nas tramas ambientadas no presente, outros temas igualmente inquietantes se manifestaram. “Sentimental Value”, “Die, My Love“, “Alpha“, “Renoir”, “Romería” e “Sound of Falling” todos fizeram reflexos convincentes, cada um à sua maneira, sobre trauma geracional e as relações complexas entre pais e filhos, fazendo ruir a imagem de que elas são sempre amorosas.

Mais calcados em seu tempo, “Sirat” e “Eddington“, na corrida pela Palma de Ouro, e “La Ola”, em sessão especial, talvez envelheçam mal, mas derivam das páginas dos jornais de hoje. O primeiro, catalão, é uma inventiva crítica ao descaso europeu em relação aos conflitos e à pobreza que se abatem sobre a África. Já o segundo, americano, recriou a polarização que tomou o mundo durante a pandemia de Covid-19.

Na cidadezinha que dá nome à trama, um prefeito tenta se reeleger, mas precisa enfrentar um xerife truculento, motivado pela frustração em ter que usar máscaras em público e por teorias da conspiração sobre as vacinas. A única alternativa que os habitantes veem para suas discordâncias, porém, é a violência.

Em “La Ola”, Sebastián Lelio se inspirou nas manifestações estudantis que mobilizaram o Chile há cerca de uma década, pondo personagens femininas para cantar, com toda a raiva acumulada há gerações, sobre os males do patriarcado e de uma sociedade que frequentemente passa a mão na cabeça dos homens, mesmo em situações de assédio sexual.

Assim, este grande expurgo coletivo na seleção de filmes deste ano contrastou com o que foi uma edição bastante solar, com tempo firme e sol iluminando o tapete vermelho quase todos os dias.

No subsolo do Palácio dos Festivais, escondido do glamour que embala tantas tramas sombrias, o Mercado do Filme, área de negócios do evento, também dedicou tempo a outro mal-estar, engatilhado dias antes do início deste Festival de Cannes –as tarifas que o presidente Donald Trump quer impor sobre filmes gravados fora dos Estados Unidos.

No começo do festival, o temor era de que o anúncio fosse atravancar os negócios. Afinal, além de gigantes da produção e exportação de filmes, os americanos também são um público maciço das salas de cinema.

Representantes da cultura de países europeus chegaram a se reunir para discutir o assunto, e alguns preferiram ver o copo cheio. “O que está acontecendo com Trump é uma chance para nós”, disse Laurence Farreng, deputada do Parlamento Europeu, ao se referir à possibilidade de países surfarem no isolamento comercial do americano para investir em financiamentos autossuficientes dentro do próprio ecossistema europeu.

Especialistas apontaram, por outro lado, que o estande americano no Mercado do Filme estava mais dedicado a vender seu peixe em comparação a anos anteriores, quando a estabilidade dos Estados Unidos na indústria era inquestionável. Foi um sinal de que produtores americanos querem se mostrar abertos ao resto do mundo, apesar de seu presidente.

O que não faltaram, aliás, foram alfinetadas a Trump por parte de diretores que apresentaram seus filmes no Grande Teatro Lumière. “Não sou um especialista, mas 100% de tarifas faz parecer que ele quer ficar com tudo. O que sobra para nós? Ele pode prender um filme na alfândega? Não me parece que eles são transportados dessa forma”, ironizou Wes Anderson. Seu filme, “O Esquema Fenício”, que concorreu à Palma de Ouro, foi gravado na Alemanha e estaria sujeito às tarifas.

O mesmo poderia acontecer com “The Chronology of Water“, primeiro longa-metragem dirigido por Kristen Stewart, exibido na mostra paralela Um Certo Olhar e produzido em parte por países europeus. O novo “Missão: Impossível“, uma das maiores franquias da história americana, que teve seu novo capítulo exibido em sessão especial, também seria penalizado.

As críticas extrapolaram a questão comercial. “Os Estados Unidos me parecem um lugar ruim agora. Estou preocupado. É como se estivéssemos vivendo um experimento que claramente deveria ser interrompido”, disse Ari Aster, diretor de “Eddington”.

Seu comentário sucedeu um discurso emocionado de Robert De Niro na abertura do festival, quando o ator recebeu uma Palma de Ouro honorária. Desafeto histórico de Trump, ele chamou o presidente de fascista e valentão por cortar verbas destinadas à cultura e pelas tarifas que pretende impor aos filmes.

Ainda que na hora de fechar o caixa o rebuliço causado pelo republicano não tenha tido impacto significativo no Mercado do Filme, ele mudou a paisagem da avenida Croisette, especialmente na parte mais próxima dos luxuosos hotéis Carlton e Marriott.

Os cartazes e anúncios megalomaníacos de blockbusters hollywoodianos, que anualmente ocupam o calçadão da praia, desta vez deixaram seus espaços costumeiros para propagandas de marcas sem relação com o cinema. A sensação foi de que, nesta guerra comercial, quem mais tem a perder é a arte.



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