É um quadrado ou um círculo? Depende da distância com a qual você observa a tela. De perto, trata-se de uma sequência de pontos dispostos lado a lado, alguns maiores e outros menores, pintados a óleo. De longe, as centenas de pequeníssimas esferas se tornam agrupamentos capazes de formar figuras geométricas.
“Deformiertes Quadrat”, obra de 1963 de Almir Mavignier, é um bom exemplo do trabalho do artista, apto a criar ilusões de ótica a partir da repetição de pontos de pigmento sobre a tela. Ele perfurava o quadro a partir de um molde, com furos organizados com precisão matemática, e então inseria neles crostas de tinta, que formavam pontos apelidados de suspiros devido aos seus formatos, semelhantes ao do doce.
Mavignier morreu aos 93 anos, em 2018, respeitado no meio da arte internacional —em parte por ter feito quase toda a sua carreira a partir da Alemanha— mas sem gozar do mesmo reconhecimento no Brasil. Agora, três exposições simultâneas, todas em São Paulo, querem preencher esta lacuna, ao apresentarem um amplo panorama da obra do carioca, uma figura central da arte concreta.
A maior exposição é a da galeria Dan Contemporânea, que representa o artista no Brasil há quase duas décadas. Organizada pelos curadores Luiz Guilherme Vergara, Luiz Armando Bagolin e Delmar Mavignier, filho do artista e responsável pelo seu espólio, a mostra tem dezenas de obras, entre as quais algumas raridades, como três telas que Mavignier criou quando coordenava a oficina de pintura do hospital psiquiátrico Engenho de Dentro, com Nise da Silveira.
São dois retratos e uma natureza morta que mostram o artista ainda na sua fase figurativa, antes de se radicar na Alemanha para estudar na Escola de Ulm, nos anos 1950, onde foi aluno do arquiteto, escultor e designer gráfico Max Bill. É deste grande mestre da arte construtiva e racional que Mavignier assimila um conceito fundamental, o de “Störung”, segundo o curador Bagolin.
A palavra em alemão designa uma “perturbação calculada do sistema”, diz Bagolin. “Por mais que o artista parta de um sistema racional, geométrico, algo no processo pode sair fora do planejado, e ele conta com esse acaso. O Mavignier estimula o acaso.” Embora as telas sejam furadas em posições precisas, as gotinhas de tinta que preenchem os buracos não são iguais. “O sistema foi perturbado”, acrescenta.
Na Alemanha, Mavignier abandona totalmente a figuração de seus primeiros anos e se volta à abstração, que passa a aplicar em pinturas de diferentes tamanhos e também em cartazes para exposições, como se vê na exposição na galeria Dan. Suas pinturas, luminosas, são geralmente descritas por críticos como tendo uma capacidade de vibração que o olho capta. Algumas parecem se movimentar.
Mavignier foi também um exímio artista gráfico. Segundo seu filho, para ele as pinturas não eram mais importantes que os cartazes ou as serigrafias —todas as práticas tinham igual relevância. A produção gráfica do artista, caracterizada por amplos campos de cores chapadas e composições visuais com poucos elementos, pode ser vista em parte na galeria Dan. Outra parte está na Unibes Cultural.
Na Unibes Cultural estão reunidas cerca de 50 “docugrafias”, termo que o artista criou para caracterizar reproduções digitais de obras suas que se perderam ou foram vendidas ou estão em coleções privadas, ou de museus e que, por estes motivos, “não podem estar presentes”, diz Bagolin. Segundo o curador, não são meras cópias de trabalhos originais, mas imagens produzidas digitalmente a partir das matrizes, que passam a ter uma existência própria.
Bagolin faz referência ao teórico alemão Walter Benjamin, para quem a obra de arte, na era de sua reprodutibilidade técnica, perderia a sua aura. “Para o Mavignier, não. Essa reprodução gráfica tem aura. Ela não é a original, mas tem autonomia. Ela pode estar aqui e agora, em São Paulo.”
A grande panorâmica sobre o trabalho do artista se completa com uma pequena seleção de quadros na galeria Paulo Kuczynski, que reúne trabalhos de Mavignier que o marchand comprou ao longo dos anos em leilões na Alemanha, onde o artista morou a maior parte de sua vida —após estudar em Ulm, ele foi professor de pintura na Escola de Artes Visuais de Hamburgo, entre 1965 e 1990, cidade onde morreu.
Na galeria de Kuczynski, o destaque é uma das primeiras telas de pontinhos criadas pelo artista, em meados dos anos 1950, antes de Mavignier dar volume e densidade aos pontos. O quadro ficou por anos pendurado na parede do ateliê do artista. No texto do crítico Paulo Venancio Filho para a exposição, ele argumenta que o pintor fazia o que se pode chamar de “pontilhismo geométrico”.
“A sua linguagem é a do ‘bip’, o sinal uniforme que pode variar de intensidade. É uma combinatória variável e constante que determina seus esquemas plásticos. Reduzidos ao mínimo de informação do mundo moderno, se aproximam da linguagem do mundo contemporâneo. As retículas de Mavignier antecedem de certa maneira o pixel da imagem digital”, escreve Filho.
A galeria dispõe a seleção de Mavignier ao lado de uma série de trabalhos de Arthur Luiz Piza, outro brasileiro que fez carreira na Europa —mais precisamente em Paris. O paulistano, da mesma geração de seu colega carioca, também trabalhava a geometria, mas de uma maneira mais fluida e menos rígida do que Mavignier.
Piza recortava pequenos quadradinhos de papel e colava sobre as telas —às vezes, usava areia como base para as formas geométricas. Ele também mergulhava capachos em tinta preta ou cinza e fazia dos tapetinhos a sua tela, dispondo sobre eles formas geométricas em metal. Suas escolhas artísticas davam aos seus trabalhos um caráter mais orgânico.
Segundo Anita Kuczynski, uma das organizadoras da mostra, na obra de Piza “há uma fricção constante entre aparência geométrica e imperfeição intencional”.














