A tarde em que o Sport venceu e o futebol chorou

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A tarde em que o Sport venceu e o futebol chorou


Este artigo, escrito com a tinta da sofreguidão, objetiva resgatar uma história ainda inconclusa, pelo menos para alguns desportistas pernambucanos


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Corria o domingo, 7 de março de 1982. Numa tarde de muito sol, o Sport Club do Recife, treinado por Ernesto Guedes, entrava em campo para enfrentar, pelo Brasileirão, o XV de Jaú. Nas arquibancadas, a Charanga do Vitor animava a peleja prestes a se iniciar ao som de muito frevo. O campo, diante de um público pagante de 14.823 torcedores, entoava o seu tradicional “casá, casá”, grito de guerra famoso em Pernambuco.

Ao final, o placar registrou 4 a 0 para as cores rubro-negras. Um resultado desejável para os seus espectadores, sobretudo porque a vitória melhorava a posição do time na tabela do Brasileirão. Mas a vida caminha em movimento pendular, alternando momentos bons e momentos ruins. Este artigo, escrito com a tinta da sofreguidão, objetiva resgatar uma história ainda inconclusa, pelo menos para alguns dos desportistas pernambucanos. Naquela tarde, a Ilha do Retiro ficou encoberta pelo véu da tristeza, quando uma tragédia surpreendeu todos; Vamos à história.

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O atleta Carlos Alberto Barbosa, aos 28 anos, lateral-direito do Sport, caiu desacordado no gramado, vítima de um enfarte inopinado, dando a nítida impressão de que havia falecido. Não. No gramado, não. Uma ambulância, desprovida dos instrumentos necessários para emergências, percorreu trechos na contramão até chegar ao Procárdio para o atendimento de urgência. Quando Carlos Alberto chegou ao hospital, eu me encontrava ali acompanhando uma tia-madrinha, motivo pelo qual presenciei, com olhos de sofrer, o embate entre a vida e a morte.

Os médicos massageavam o jovem atleta, que recuperava os batimentos cardíacos; logo em seguida, porém, o eletrocardiograma voltava à estaca zero, sinalizando um possível desenlace. A arritmia impedia a estabilização dos batimentos. Pude sentir quão frágil é a vida, que não resiste ao menor sopro: logo se dissipa, iniciando sua caminhada rumo à eternidade.

Carlos Alberto veio das categorias de base do Santa Cruz, tendo atuado também no Palmeiras e no Vasco da Gama, antes de retornar ao Recife para defender o clube da Praça da Bandeira. Na base do Santa Cruz, ocupou inicialmente a condição de terceiro reserva na época de Gena, que, depois de integrar o hexa alvirrubro, se tornou um dos destaques do pentacampeonato do “Santinha,” como é carinhosamente chamado.

Na época, segundo o médico do Sport, Romualdo Veras — doutor em Medicina e doutor em Humanismo —, o jovem atleta não apresentava nenhum sinal de fragilidade coronária, nada que indicasse a iminência de um ataque cardíaco ou algo semelhante. Chegou a me dizer que, nos treinamentos físicos, Carlos Alberto era o puxa-fila, tamanha a sua vitalidade. Acrescentou ainda que o Sport guarda, até hoje, seu prontuário de atleta exemplar, cumpridor de suas obrigações e possuidor de plena saúde.

O Brasil sempre celebra a vida em excesso: no futebol, na música, na dança e nas ruas. Talvez por isso suas mortes públicas sejam tão marcantes e inesquecíveis, a exemplo de Ayrton Senna, que vaticinou: Deus é forte. Ele é grande. E, quando Deus quer, não há quem não queira. Tem razão o poeta Francisco Bandeira de Mello, nosso Bandeirinha, quando, em versos, define a fragilidade da vida diante da força e do poder: “Eu posso, tu podes, ele pode. / Eu pó, tu pó, ele pó.”

Já o poeta João Cabral de Melo Neto, em seu Pregão Turístico do Recife, exalta a dimensão humana: Podeis aprender que o homem / é sempre a sua melhor medida. / Mais: que a melhor medida do homem / não é a morte, mas a vida. O poema conduz a uma reflexão mais ampla sobre a relação entre fantasia e realidade.

Carlos Alberto encerrou sua trajetória terrena ao soar o próprio apito final, deixando o choro — sempre livre — para o manto triste daquela tarde amornada pela dor, após sua queda no campo. Na memória dos que o viram jogar, permanece silêncio e grito de bravura.

Roberto Pereira, Cadeira 35 — Academia Pernambucana de Letras






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