Outrora joia da coroa, a série “A Casa do Dragão” viu seu reinado ser contestado. Embora tenha surgido imponente, com uma versão polida da política palaciana de “Game of Thrones” —série da qual é herdeira—, sua segunda temporada, de dois anos atrás, foi vista por parte dos fãs e da crítica como arrastada e sem rumo.
Essa é uma das batalhas que a produção encara em sua terceira temporada, a ser lançada neste domingo (21), na HBO. Nela, Rhaenyra Targaryen, que se considera rainha legítima de Westeros, tenta agrupar exércitos com os novos dragões que conquistou, enquanto sua rival, Alicent Hightower, procura dar fim à guerra sem pôr mais vidas em risco.
Para sentar no Trono de Ferro, e vestir a coroa, Rhaenyra está disposta a matar seu meio-irmão Aegon, elevado a rei, mas moribundo após se meter numa luta de dragões. Enquanto ele se recupera, seu irmão Aemond se delicia com o comando do reino, que almeja desde a primeira temporada, de 2022.
Se Alicent quer o fim da guerra, suas esperanças vão por água abaixo já no primeiro episódio, que retrata um confronto naval marcado por uma rinha de dragões no céu. Parte importante do livro que inspirou a série, “Fogo e Sangue”, a luta era esperada para o final da temporada anterior, que preferiu, porém, terminar numa calmaria angustiante —para os fãs e para os personagens.
A ausência da batalha na última leva de capítulos incomodou também o próprio George R. R. Martin, escritor das obras que originaram “Game of Thrones” e “A Casa do Dragão”.
Na época, Martin apontou, em seu blog, mudanças na série, que, segundo ele, causariam problemas incontornáveis no decorrer da trama. Na publicação, criticou várias decisões do diretor Ryan Condal, com quem trabalha na série desde o começo. A relação, claro, azedou.
Ao site The Hollywood Reporter, Martin disse que se irritou porque Condal parou de ouvir suas sugestões. O diretor, por sua vez, afirmou à revista Entertainment Weekly que Martin havia deixado de ser razoável e que esperava conseguir se reconectar com o autor em algum momento no futuro. Em meio à polêmica, Martin apagou o texto do blog.
Em entrevista por vídeo à Folha, direto da CCXP México, há dois meses, parte do elenco negou que a briga tenha afetado a terceira temporada. “A mídia exagerou se compararmos ao que aconteceu de verdade”, afirma a atriz Olivia Cooke, que encarna Alicent. “Isso é algo para eles resolverem entre si”, completa seu colega Fabien Frankel, intérprete do lorde Criston Cole.
“Nunca houve tensão [conosco]. George Martin sempre foi muito aberto e generoso”, diz ainda Matt Smith, que faz Daemon Targaryen, tio e amante de Rhaenyra, a protagonista. “A gente só segue em frente e tenta fazer a série mais grandiosa, ousada e brilhante.”
Smith afirma que, embora Ryan Condal faça questão de manter o controle da produção desde a fase de roteiros, ele gostaria de opinar mais na construção de Daemon, seu personagem. “Não é exatamente esse tipo de espaço [aberto a questionamentos]. Eu gostaria que fosse. Mas acho que não é o que uma série como essa requer mesmo.”
Parte dos espectadores considerou que Daemon foi desperdiçado na temporada anterior. Em uma fortaleza obscura, o personagem passa vários episódios tendo alucinações e até previsões, com vislumbre de personagens conhecidos de “Game of Thrones” —como Daenerys e o Rei da Noite, numa tentativa de lembrar ao público que uma série se passa depois da outra.
“A Casa do Dragão”, afinal, trata da guerra que dizimou os dragões e reduziu a força política da família Targaryen. A série começa 172 anos antes do nascimento de Daenerys, que, em “Game of Thrones”, decide se provar rainha legítima após encontrar três ovos de dragão. Conforme a história avança, ela perde os escrúpulos.
É mais ou menos o que acontece com sua antepassada Rhaenyra nesta temporada de “A Casa do Dragão”, que ressurge não somente mais perto do conflito armado, mas também no meio de um emocional, com sua família cada vez mais despedaçada.
As coisas não vão bem também para sua antiga amiga Alicent, do outro lado do tabuleiro. Arrependida das suas atitudes —após interpretar erroneamente algo que o antigo rei disse, ela orquestrou a coroação do filho e deu início à guerra—, a mulher se envolve numa trama de manipulação com seus parentes próximos.
“Agora há mais urgência [na minha interpretação]”, diz Cooke, a atriz. “Despertou em Alicent uma vontade de se libertar da corte, da lei, do governo.”
Se a temporada anterior de “A Casa do Dragão” foi acusada de se alongar nos preparativos das batalhas, por outro lado, ela ajudou a aprofundar essas ambiguidades das personagens. Quem era pintado como antagonista agora parece mais um coitado, enquanto os vistos como heróis ficaram ensandecidos.
A nova leva de episódios transforma toda essa tensão acumulada em embates drásticos. Além da batalha naval da estreia, espera-se que a série mostre também Rhaenyra, com desejo de sangue, marchando em direção ao Trono de Ferro. Os fãs estão ansiosos por isso especialmente após o derivado “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, que, embora tenha agradado, é muito menos violenta.
“Sabemos que herdamos o sucesso de ‘Game of Thrones’”, diz Cooke, sobre fazer um prelúdio de uma das séries mais importantes da televisão. “Mas a pressão não afeta nosso trabalho. ‘A Casa do Dragão’ realmente parece ter virado uma entidade própria.”












