Opinião – Plástico: Artista investiga um velho túnel embaixo da avenida Paulista, e Masp abre o seu

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Opinião – Plástico: Artista investiga um velho túnel embaixo da avenida Paulista, e Masp abre o seu


O lugar lembra um cenário de guerra. É um labirinto de destruição em que túneis, escadarias e emaranhados de ferro retorcido juntam pó na escuridão, esquecidos debaixo dos nossos pés. Esse subsolo de ruínas é uma estrutura cavernosa de galerias e passagens construídas pela metade debaixo da avenida Paulista, o avesso do cartão-postal de São Paulo.

O inferno de concreto, face subterrânea da força da grana que ergue e destrói coisas belas, agora está no centro de um livro e de uma exposição da artista Sonia Guggisberg, que há anos vem documentando o que então se chamou, no bom marketing político, de Nova Paulista.

O projeto da década de 1970, em plena ditadura militar, pretendia criar uma via expressa logo abaixo da avenida, acelerando o trânsito no subsolo para deixar a vida correr solta na superfície, como acontece hoje aos domingos com a via fechada para o trânsito de carros. Desavenças políticas levaram ao fim das obras, mas uma carcaça de infraestrutura viária ainda apodrece ali, um mausoléu de memórias urbanas que a artista devassa num gesto de arqueologia da metrópole.

Todo o processo, que rendeu um documentário e agora se transforma no livro “Testemunhos de Subsolo” e numa exposição, em outubro, no Paço das Artes, revela como os poderes, políticos, intelectuais, ou frutos da vaidade, moldam os nossos espaços de vida. É ao mesmo tempo um lamento e uma celebração, a ideia de ruína urbana não como cemitério de ideias mas testemunho de liberdades ainda possíveis.

Nas palavras da artista, no livro, esses são “submundos de amor e violência”, pulsões contraditórias que, no fundo, são as raízes de toda metrópole com história para contar, territórios desaforados e desejantes na contramão da mão pesada de qualquer prefeito, governador ou general no comando no momento.

Nesse sentido, o trabalho de Guggisberg é tão feio quanto belo. Ela não está sozinha numa longa tradição de exaltação da ruína como sinalizador de rumos possíveis, desde o romantismo séculos atrás, que via na destruição um alerta para o futuro daqueles ambiciosos demais, às provocações da land art, quando o americano Robert Smithson chamou de monumento os canteiros de obras de Nova Jersey, talvez a desconstrução mais potente e mais atroz da ideia de beleza intocável no pesadelo da vida moderna. Isso sem esquecer, é claro, os gestos de deriva urbana dos situacionistas franceses, o acaso como seiva e motor do movimento na selva de pedra.

SOB OS MEUS PÉS, OS CAMINHÕES Outro túnel debaixo da avenida Paulista, aquele novíssimo em folha que vai ligar os dois prédios do Masp e vem causando controvérsia mesmo antes de ser inaugurado, vai ser aberto com uma festinha ao som da música de Jão, cantor que já gravou um clipe entre os cavaletes de cristal do museu, na semana que vem, para patronos da casa.

Um dos motivos da irritação de moradores ali, que levou à instauração de um inquérito do Ministério Público, é que o futuro bulevar a ser construído na rua Professor Otávio Mendes, lindo no papel, só vai servir para carga e descarga de obras no grande complexo que se tornou o museu desenhado por Lina Bo Bardi.

TERRAS RARASLuana Vitra, uma das artistas mais celebradas do momento, ocupa o octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo nesta semana com uma obra monumental, em que um arco e flecha aponta para uma bandeira branca fincada na terra escura rodeada de facões e dormentes de trem. Patrocinada pela Chanel, que também vem apoiando o museu, Vitra escancara as batalhas e as matérias do progresso.


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