Acusações graves devem ser apuradas, mas Raquel e João precisam impedir que a guerra eleitoral substitua o debate sobre os problemas do Estado.
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Pernambuco precisa ser discutido. O Estado tem problemas demais para atravessar uma campanha inteira servindo apenas de cenário para a guerra entre Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB). No rádio e na televisão, os candidatos começaram falando de obras, trajetórias e propostas. Fora deles, a disputa já envolve acusações de espionagem, perseguição, mentira, milícia digital e gabinete do ódio. Há uma campanha apresentada ao eleitor e outra travada para destruir o adversário. Se a segunda engolir a primeira, todos perderão. Até quem ganhar.
Guerra
As acusações feitas nas últimas semanas são graves e precisam ser apuradas. Havendo provas de irregularidades, os responsáveis devem responder por elas. Campanha eleitoral também não oferece imunidade contra investigação, crítica ou cobrança. O risco começa quando episódios ainda sob apuração são incorporados às estratégias como verdades definitivas e utilizados para transformar adversários em inimigos que precisam ser eliminados da vida pública.
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Os dois campos construíram suas trincheiras. João acusa o entorno da governadora de organizar ataques, sustenta ter sido vítima de espionagem e fala em práticas autoritárias. Raquel nega as acusações, chama o discurso do adversário de mentiroso e também recorre à Justiça contra o que identifica como uma ação coordenada para atingi-la. Nessa dinâmica, qualquer crítica confirma uma perseguição e qualquer resposta autoriza uma nova ofensiva.
Versões
A eleição em rádio e TV começou com duas histórias incompatíveis sobre o mesmo Estado. Raquel afirma que “Pernambuco voltou”. João promete fazer Pernambuco “voltar a liderar”. A governadora diz que encontrou uma casa desarrumada depois dos governos do PSB e que recuperou a capacidade de investir. O socialista sustenta que o Estado perdeu protagonismo na atual gestão e apresenta a experiência no Recife como credencial para conduzir uma mudança.
Esse confronto pode ser útil. Obriga Raquel a demonstrar onde suas entregas modificaram a vida das pessoas. Obriga João a explicar como pretende realizar no Estado aquilo que promete e por que soluções agora anunciadas não foram adotadas durante os anos em que seu grupo comandou Pernambuco. A comparação entre administrações, equipes, prioridades e resultados ajuda o eleitor. A troca de acusações destinadas apenas a aumentar a rejeição do adversário prejudica a todos, principalmente quem importa: os pernambucanos.
Depois que cada lado terminar de explicar de quem é a culpa, continuarão faltando respostas sobre o que fazer.
Estado
Pernambuco não pode ser apenas o território onde a eleição acontece. Precisa ser o assunto da eleição. Raquel e João têm tempo de rádio e televisão, estruturas partidárias, equipes qualificadas e alianças suficientes para apresentar diagnósticos consistentes. Devem dizer quais serão as prioridades, quanto custarão, de onde virão os recursos e em quanto tempo poderão entregar resultados.
A campanha precisa ser dura. Raquel exerce o governo e deve responder pelo que realizou, pelo que não conseguiu fazer e pelo que promete novamente. João se apresenta como alternativa e deve submeter seus projetos ao exame da viabilidade, além de enfrentar as perguntas sobre o legado do grupo político ao qual pertence. Ivan Moraes e os demais candidatos também têm a obrigação de demonstrar que suas propostas cabem na realidade administrativa e financeira do Estado.
Há muito o que confrontar sem recorrer a uma rinha. É possível discutir por que Pernambuco perdeu posições econômicas, como recuperar a segurança, qual será o futuro da Compesa, como reduzir a dependência da Região Metropolitana e de que maneira levar serviços públicos de qualidade ao interior. São divergências capazes de revelar quem conhece melhor o Estado e quem está mais preparado para governá-lo.
Limites
Raquel e João não precisam proteger um ao outro. São adversários mesmo. Que se comportem como tal. Mas precisam proteger Pernambuco dos excessos de suas próprias campanhas. Divergências políticas não exigem gentileza artificial, silêncio sobre suspeitas ou abandono das cobranças, mas exigem responsabilidade com as consequências de cada acusação e compromisso para não substituir o debate estadual por uma sucessão de ataques.
Quando uma eleição se dedica apenas a provar que o adversário é indigno, o eleitor deixa de escolher entre projetos e passa a decidir qual inimigo rejeita com maior intensidade. Isso prejudica a democracia, prejudica Pernambuco e os pernambucanos.











