Há muito o que ver em Belém, capital paraense que amo visitar. É daqui que escrevo este texto, com vista para a baía do Guajará, tomada por um sentimento de gratidão após o encontro com um patrimônio do Pará: a professora doutora Zélia Amador de Deus.
Para quem ainda não a conhece, é preciso dizer que a professora Zélia é uma lenda viva brasileira.
Nascida na Ilha de Marajó, é cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, o Cedenpa, uma das mais antigas e importantes organizações do movimento negro na região Norte e no Brasil.
Zélia deixou sua marca em todos os lugares por onde passou e teve papel decisivo na criação de políticas de ação afirmativa no estado.
É doutora e professora emérita de sua alma mater, a Universidade Federal do Pará, e doutora honoris causa pela Universidade do Estado do Pará. Durante décadas de docência, orientou incontáveis trabalhos acadêmicos. Ao longo de sua trajetória, destacou-se também como atriz —participando de inúmeras peças no Theatro da Paz—, escritora e ativista.
A professora Zélia é uma herdeira de Ananse, como escrevi nesta Folha em 2019. Representado como uma aranha, Ananse pertence à tradição dos povos fante-ashanti da África Ocidental. Em uma de suas narrativas, todas as histórias pertenciam a Nyame, o deus do céu. Com inteligência e astúcia, Ananse realiza tarefas consideradas impossíveis, conquista o direito de também possuir essas histórias e passa a distribuí-las pelo mundo.
Para Zélia, sua teia representa os vínculos que acompanharam a população negra na diáspora: fios de memória e resistência por meio dos quais os povos negros sobreviveram, preservaram seus saberes e criaram condições para contar a própria história.
Daí a honra de ser recebida em sua casa, no tranquilo bairro da Cidade Velha. Ali, Belém preserva parte importante de seu patrimônio: as casas e os prédios permanecem baixos, em uma região com atmosfera de cidade do interior.
No apartamento, subi de elevador e encontrei à porta seu companheiro, o médico pneumologista aposentado Anselmo. Juntos há mais de quatro décadas, eles formaram uma linda família, cuja história se espalha pelas fotografias dispostas por toda a casa. São lembranças de viagens, bailes e momentos de muita felicidade. Para mim, cujo sonho é envelhecer bem, ver uma senhora negra triunfante, cercada de amor, conforto e cuidado depois de tantos serviços prestados a este país, é algo que me sensibiliza profundamente.
Seguindo a sugestão da professora Isabel Cabral, sua fiel escudeira, levei-lhe a flor mais lilás que encontrei, em homenagem à cor de Nanã, a orixá anciã do panteão, soberana dos pântanos, senhora da sabedoria e da memória.
Certa vez, vi um vídeo do babalorixá Sidnei Nogueira no qual ele explicava que Nanã é a sabedoria porque ela também é a memória. Uma acompanha a outra —e ambas vivem em Zélia Amador de Deus, filha de Nanã e devota de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará.
A planta era grande e o vaso escolhido no mercado Ver-o-Peso trazia desenhos de símbolos de Exu, o orixá da comunicação. A escolha também homenageava um encontro nosso em 2019, do qual nunca me esqueci, quando a professora foi me visitar na Feira Pan-Amazônica do Livro.
Eu atravessava um período em que estava ferida pelas perseguições nas redes sociais. Naquele momento, a ascensão de uma mulher negra como intelectual despertava incômodos e os ataques se sucediam, vindos das mais diversas correntes ideológicas. Minha couraça ainda estava se formando. Talvez tenha sido isso que a professora percebeu quando fez questão de ir me ver.
Sentada comigo em um camarim, Zélia segurou minha mão e me disse: “Djamila, Exu é o senhor dos caminhos. Com sua agressividade, abriu trilhas pela diáspora. Precisamos continuar sendo corpos insurgentes, corpos que incomodam e abrem espaços. Não podemos abaixar a cabeça. Seja agressiva como Exu e abra seus caminhos”.
Como uma boa filha de Nanã e dona de uma excelente memória, ela se lembrou daquela conversa assim que viu o vaso. Juntas, reconstituímos os fios daquele encontro e os entrelaçamos às histórias compartilhadas naquela manhã, ao redor de uma mesa farta de café da manhã, com taperebá, cupuaçu e outros sabores do Norte.
Olho para a imensidão da baía com o coração aquecido pela honra de ter estado com ela. Entre as teias de Ananse e a sabedoria de Nanã, reencontrei a mais velha, que guarda o passado, abençoa o presente e aponta o futuro.
Que seu legado, como a flor mais lilás que encontrei, siga florescendo na memória de todas e de todos nós.
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