O eleitor não recebe a economia em forma de PIB ou taxa de desemprego. Ele a sente no contracheque, no supermercado, no aluguel, na segurança da rua
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O Brasil de 2026 vive um paradoxo que a política não pode ignorar. Os principais indicadores econômicos melhoraram, mas a confiança do eleitor não avançou na mesma velocidade. É nesse intervalo entre o dado econômico e aquilo que o cidadão percebe que a disputa eleitoral começa a ganhar complexidade.
A pesquisa Latam Pulse, da AtlasIntel, ajuda a entender. Entre 22 e 27 de julho, foram ouvidos 5.021 brasileiros. Para 55%, a situação do país é ruim; apenas 29% a consideram boa. Quando a pergunta passa para a própria família, o pessimismo diminui: 42% fazem uma avaliação negativa e 31%, positiva.
Há uma dissociação interessante entre a vida privada e a vida nacional. O eleitor não recebe a economia em forma de PIB ou taxa de desemprego. Ele a sente no contracheque, no supermercado, no aluguel, no emprego dos filhos e na segurança da rua onde mora.
Outro dado chama atenção: 43% acreditam que a situação da família vai melhorar e 39% esperam melhora no emprego nos próximos seis meses. Quando a pergunta passa para o Brasil, entretanto, o pessimismo reaparece: 41% acreditam em piora, contra 38% que esperam melhora.
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Os números do mercado de trabalho ajudam a explicar esse contraste. No trimestre encerrado em junho, o desemprego brasileiro caiu para 5,4%, com 103,1 milhões de pessoas ocupadas. O rendimento real chegou a R$ 3.738 e a massa de rendimentos a R$ 380,3 bilhões. Mas o eleitor não vota olhando apenas para eles. Vota a partir daquilo que sente, compara e interpreta.
Pernambuco conhece bem essa distância. No primeiro trimestre, enquanto a desocupação nacional estava em 6,1%, o estado registrava 9,2%, uma das maiores taxas do país. Não basta perguntar quanto a economia cresce. É preciso saber quanto desse crescimento se transforma em emprego, renda e mobilidade social.
As eleições de 2026 não podem ser tratadas como uma única disputa. Em Pernambuco, o eleitor votará para presidente, governador, duas vagas ao Senado, deputado federal e deputado estadual.
Há voto por convicção, simpatia, gratidão e interesse local. Ainda existe o voto influenciado pela máquina política, pelas relações de parentesco, amizade e dependência. O velho e o novo convivem na mesma eleição.
O eleitor pode pensar nacionalmente para presidente e localmente para deputado. Pode defender uma determinada visão política e considerar quem conhece sua cidade, seu bairro ou sua comunidade. Reduzi-lo a “direita” ou “esquerda” é, portanto, uma simplificação. Ideologia importa, mas não explica tudo.
Criminalidade e tráfico de drogas aparecem como principal problema para 61,3% dos entrevistados. Corrupção vem em seguida, com 57,5%. Economia e inflação aparecem com 22,5%. Há uma demanda por respostas para problemas que não cabem na velha guerra ideológica.
Segundo a pesquisa, 63,3% dos brasileiros acompanham influenciadores digitais que produzem conteúdo sobre notícias, política ou temas sociais. Quando questionados sobre o impacto desses influenciadores nas eleições presidenciais de 2026, 44,6% acreditam que eles terão “alguma influência” sobre o voto, enquanto 26,8% avaliam que terão “muita influência”.
Os partidos continuam controlando recursos, estruturas e candidaturas. Mas perderam o monopólio da intermediação política. Hoje, a política chega pelo celular, pelo grupo de família, pelo vídeo curto e pelo influenciador. Isso não significa que tenha ficado melhor.
Pernambuco precisa compreender essa transformação. As eleições serão uma disputa por cargos, mas também por confiança. E confiança não se produz apenas com propaganda ou presença digital.
A pergunta do eleitor parece simples: o que você pretende mudar na minha vida?
Quem conseguir respondê-la com clareza e apresentar alguma prova de que consegue transformar discurso em resultado poderá sair na frente.
No fim, talvez a grande disputa de 2026 seja menos entre velhas categorias ideológicas e mais entre expectativa e confiança. O voto será a maneira encontrada pelo eleitor para dizer em quem acredita e, também, em quem já não acredita mais.
Priscila Lapa é jornalista e doutora em Ciência Política. Sandro Prado é economista e professor da FCAP-UPE.












