‘Favoriten’, na Mostra de SP, vê mundo escolar pelos olhos de crianças imigrantes

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‘Favoriten’, na Mostra de SP, vê mundo escolar pelos olhos de crianças imigrantes


Cerca de 60% dos alunos de ensino primário em Viena não têm o alemão como primeira língua, num reflexo da onda migratória para a cidade que, apesar da posição conservadora da Áustria sobre a questão, abre cada vez mais os braços para refugiados de países como Síria, Afeganistão, Iraque e Turquia.

Mas não se preocupe, Ruth Beckermann não fala nada sobre estatísticas em seu novo documentário, “Favoriten”, em cartaz na Mostra de Cinema de São Paulo.

Após “A Valsa de Waldheim”, sobre a ascensão do ex-presidente Kurt Waldheim e seu passado nazista, e o experimental “Mutzenbacher”, inspirado na leitura de um pornô do século 19, a diretora austríaca aposta no registro de uma sala de aula ao longo de três anos.

“A ideia era não fazer entrevistas, só observar”, diz a diretora, que optou aqui pelo estilo do cinema direto —isto é, sem elementos que ressaltem a presença da câmera que vagueia entre as carteiras. São 25 alunos de terceira série sob a tutela da professora Ilkay Idiskut, de origem turca, na maior escola primária da capital austríaca, no bairro multiétnico de Favoriten.

“Dois dias após começarmos, nem parecia que estávamos lá para as crianças”, diz Beckermann, que se apaixonou pelas surpresas daquele espaço. “Foi um desafio para o diretor de fotografia e a equipe de som, que não sabiam que criança falaria, tendo de agachar ou se ajoelhar para ficar na mesma altura delas.”

“A única intervenção que fizemos foi dar a eles celulares que filmassem a si mesmos fora do ambiente escolar”, diz a diretora.

As atividades pedagógicas —desenhar, ler, decorar a tabuada, cantar e dançar— aos poucos se entremeiam a tiradas que só poderiam sair da boca dos pequenos —como suas opiniões sobre o futuro, sobre os papéis sociais dos homens e das mulheres, religião, conflitos mundiais e o que escutam dos pais em casa.

É numa dessas que um menino diz, sorrindo, que gosta de guerras e que elas são ótimas para resolver desentendimentos. Não que tenha vivido alguma, ao contrário de uma colega que convivia com bombardeios em seu país.

“As crianças observam e criam as suas próprias interpretações do mundo, do conflito na Ucrânia ou da experiência dos seus pais na Síria. Deveríamos ouvi-los com mais frequência”, afirma Beckermann, que editou dezenas de horas de gravações que bordam um painel da infância —do primeiro amor e da visão lúdica do corpo ao bullying— e de aspectos sociais determinantes.

É o que se vê, por exemplo, no contraste entre uma visita dos alunos à Catedral de Santo Estêvão —e o impacto das imagens católicas— e aquela a uma mesquita onde um dos meninos toma à frente e ora, recitando de cor os primeiros versos do Alcorão em sua língua materna. O mesmo que, depois, numa aula de ensino religioso, diz já ser capaz de jejuar como um adulto.

Noutro momento, uma menina diz que, quando crescer, quer apenas viver aventuras e não ter de cuidar de um marido. Depois, outra, apavorada por uma história que ouviu de sua mãe, se espanta ao ver que “kidnappen” (sequestrar) começa com “kid” (criança).

O alemão, não à toa, é o “maior desafio para essas crianças”, segundo a cineasta. “Na minha opinião, o sistema escolar deveria promover cursos intensivos de alemão antes de elas frequentarem a escola. Alguns são ótimos em matemática, mas não entendem as questões. É de partir o coração.”

O próprio fato de vermos apenas pequenos tão diferentes do que o Google entende por “criança austríaca” típico reforça a importância da professora nesse processo. Ilkay fica num meio —por obrigação, tem de lecionar apenas em alemão, mas quando um caso de bullying sai do seu controle, ela dá uma bronca em turco para que os envolvidos entendam bem a gravidade daquilo.

“Ela representa uma visão otimista do futuro”, diz Beckermann. “O presente é feito por crianças vindas de todos os cantos do mundo. Se não cuidarmos melhor deles, o futuro das democracias será sombrio.”



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