A beleza está nos olhos de quem vê, diz Lupita Nyong’o, Helena de Troia de ‘Odisseia’

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A beleza está nos olhos de quem vê, diz Lupita Nyong’o, Helena de Troia de ‘Odisseia’


“A beleza está nos olhos de quem vê”, diz Lupita Nyong’o em seu terno lustroso, num tom de dourado que brilha como o sorriso de alguém que não se deixou abalar pelos ataques recebidos ao ser anunciada como a Helena de Troia da versão de Christopher Nolan para “Odisseia”.

“Muita gente não pensou assim [que eu era bonita o suficiente], então me questionei se eu mesma conseguia me ver dessa forma”, continua a atriz, num humor e gentileza notáveis, que preenchiam a sala do hotel onde o elenco do filme recebeu jornalistas do mundo inteiro na semana retrasada, antes da première em Londres.

Personagem tida como a mulher mais bela do mundo, segundo os poemas atribuídos a Homero, Helena é mais presente na “Ilíada” do que na “Odisseia”. Ainda assim, Nolan decidiu ancorar boa parte de sua adaptação nos traumas e fantasmas gerados pela Guerra de Troia, fazendo dela uma peça central em seu filme.

Quando a vencedora do Oscar por “12 Anos de Escravidão” foi anunciada, porém, comentários de teor racista e machista, ou que discutiam a fidelidade histórica do longa, invadiram as redes sociais, questionando se Nyong’o era bela o suficiente para viver a mulher capaz de iniciar uma guerra devido à sua aparência.

Elon Musk, trilionário conservador à frente da Tesla e da SpaceX, participou da gritaria digital. Após o comentarista político Matt Walsh dizer que “ninguém no planeta acha que Lupita Nyong’o é a mulher mais bonita do mundo”, e que Nolan a havia escolhido para evitar ser chamado de racista, o que faria dele um “covarde”, Musk foi às redes sociais para concordar.

“Ele [Nolan] quer os prêmios”, disse ainda sobre a diversidade da produção, estendendo sua crítica à presença do ator trans Elliot Page no elenco. Em “A Odisseia”, o indicado ao Oscar vive o soldado Sinon, que nesta versão é notável por sua coragem e nobreza.

“Quando anunciaram que eu estaria no filme, fiquei muito intimidada pela personagem”, diz agora Nyong’o, já com alguns meses de distância da guerra cultural que sua escalação gerou. “Mas o que realmente importa é a pessoa que a Helena é para além da aparência, e eu senti que tinha liberdade para investigar isso.”

Helena foi justamente o estopim da Guerra de Troia. Filha de Zeus e da rainha de Esparta, Leda, seu título de mulher mais bonita da mitologia grega foi confirmado por Afrodite. A deusa prometeu ao príncipe de Troia, Páris, o amor da mulher mais bela do planeta caso ele a escolhesse como a deusa mais bela do Olimpo.

Ele, então, a levou de Esparta para Troia –raptada ou por vontade própria, a depender da versão–, forçando o marido de Helena, Menelau, a convocar seu exército e os de seus aliados para buscá-la. No filme “A Odisseia”, a guerra deixa marcas físicas e emocionais na personagem e em sua irmã gêmea, Clitemnestra, também vivida por Nyong’o.

“Não estamos acostumados a ver muita profundidade na Helena, mas ela é acusada de ter causado uma guerra”, diz a atriz, que busca paralelos entre a adaptação e a violência em curso no mundo hoje. “Ninguém realmente sai vencedor de uma guerra”, afirma.

“Em ‘A Odisseia’, nós finalmente vemos o que essa disputa causou nela, o que me deixou muito animada com o papel. Eu me senti liberta assim que deixei de lado a preocupação em ser a mulher mais bonita do mundo.”

O repórter viajou a convite da Universal Pictures



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