Análise: Antonio Cicero foi o sábio que viu a potência da poesia na canção

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Análise: Antonio Cicero foi o sábio que viu a potência da poesia na canção


As conversas com Antonio Cicero sempre retornavam à Grécia Antiga, seu ideal civilizatório, onde a expressão dos afetos e do pensamento era intermediada pela lira. Por isso, é justo que o poeta e filósofo carioca seja reconhecido como sábio, o oitavo, segundo a mitologia da qual era cultor.

Imortal da Academia Brasileira de Letras, Cicero morreu aos 79 anos nesta quarta-feira, em Zurique, na Suíça, recorrendo à eutanásia, após um diagnóstico de Alzheimer.

Em uma carta de despedida endereçada a amigos, Cicero disse que já não podia mais escrever poemas ou ensaios. Sua vida, afirmou, tornara-se insuportável. “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade”, apontou, ressaltando ser ateu. Há quase duas décadas, Cicero defendeu o direito à eutanásia em artigo neste jornal. No Brasil, a morte assistida é proibida.

Até o fim da vida, o artista foi acompanhado por seu companheiro, o figurinista Marcelo Pies. O pensamento grego ofereceu ao poeta os alicerces de sua obra, que se espalha em ensaios, livros de poemas, discos e conferências, em que declamava, como poucos, versos seus e dos outros.

Como os aedos da Antiguidade Clássica, tensionou os limites entre poesia e música e ajudou a erguer a canção popular como uma representação da arte brasileira no século 20. Cicero gozou de popularidade incomum aos poetas. Na juventude, sua irmã, a cantora Marina Lima, surrupiava seus poemas das gavetas e os musicava.

Assim, nasceu “Fullgás”, do disco de mesmo nome lançado em 1983, um hit da música brasileira tocado até hoje em festas de apartamento. “Você me abre seus braços/ E a gente faz um país”. Essa máxima unia o hedonismo individual ao Brasil que passava a vislumbrar a utopia democrática.

Em sua sofisticação literária, Cicero adotava uma postura conciliatória aos desígnios da arte pop, então novidade na cena musical. Sua erudição não era dissonante ao “hit parade”, uma vez que a alta e a baixa cultura já haviam se diluído, nos anos 1970, numa geleia geral, anunciada pelo projeto modernista.

Desse modo, era possível tocar a teoria filosófica do absurdismo numa rádio FM. “As coisas não precisam de você/ Quem disse que eu tinha que precisar?”, pergunta o eu lírico em “Virgem”, canção de Marina, lançada em disco homônimo de 1987.

E, no refrão, a música se rende ao esplendor da orla do Rio de Janeiro, com a mesma indiferença existencial. “O Hotel Marina quando acende/ Não é por nós dois/ Nem lembra o nosso amor/ Os inocentes do Leblon/ Esses nem sabem de você.” Além dos gregos, o poeta citava o modernismo literário, representado aqui por “Inocentes do Leblon”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

Cicero era um defensor da canção. Dialogando com a teoria da poesia concreta, pensava já não haver forma lícita para a arte poética. Ele lembrava que os poemas líricos da Grécia Antiga eram letras de música. Ocorre, ele dizia, que poucas letras sobrevivem ao silêncio da página em branco. Por diversas vezes, Antonio Cicero exercitou essa tática de sobrevivência.

Filho de pais piauienses, ele se mudou, ainda criança, para Washington, nos Estados Unidos. Estudou filosofia na PUC-Rio e, diante da repressão da ditadura, foi terminar os estudos em Londres, onde conheceu Caetano Veloso, exilado na capital inglesa, tornando-se um de seus melhores amigos. A atitude progressista, em voga naquele momento, se expandiria durante a carreira literária.

Nos anos 1990, sua obra ganharia nova dimensão, em parceria com a cantora e compositora Adriana Calcanhotto. A estreia da dupla se deu no disco “Senhas”, de 1992, com “Água Perrier”. Em “A Fábrica do Poema”, o mais importante disco da artista, figurava “Inverno”, letra de Cicero, que se tornou um dos sucessos radiofônicos dela.

A melancolia do eu lírico se concretiza na imagem de um avião que cruza o céu até sumir. Na canção, Cicero renovou a sua capacidade de legar versos emblemáticos com “E o inverno no Leblon é quase glacial”, uma dramaticidade exagerada, capaz de produzir um instantâneo sentimento de identificação com o ouvinte.

“A Fábrica do Poema” é também o símbolo da amizade entre Cicero e Waly Salomão, dois autores opostos, se considerada a poética torrencial e verborrágica do baiano. A faixa-título do disco foi assinada por Salomão. Calcanhotto, por seu turno, andava pelo mundo, debatendo poesia e filosofia, escoltada pela força literária da dupla de poetas.

Em 1998, Cicero voltaria a colaborar com ela em “Asas”, do disco “Maritmo”. O tema lírico amoroso se anuncia com a imagem de um amor que se evola na paisagem, como um anjo ou um pássaro. “Suas asas, amor,/ Quem deu fui eu/ Para ver você conquistar o céu.” Elevado, esse ser amado passa a ser maior do que tudo, e a paisagem torna-se mapa.

“Observe tudo embaixo/ Ser menor do que você/ Como tudo é.” Essa canção atina para a relação entre a poesia e a paisagem do Rio de Janeiro, tão presente nos seus livros.

“Conheci-o no Arpoador:/ garoto versátil, gostoso, ladrão, desencaminhador/ de sonhos, ninfas e rapsodos/ comprei-lhe um picolé de manga/ e deu-me um beijo de língua”, diz o poema “Onda”, do livro “Guardar”. A dicção solene não se anula no erotismo, incrustado na paisagem carioca. Cicero enfrentava-a em seu cotidiano, em Ipanema.

No bairro da zona sul carioca, adorava papear na Livraria da Travessa, na rua Visconde de Pirajá. A poucos metros dali, tinha o hábito de tomar chope com seus amigos, no bar Lagoa, onde recebia cumprimentos de jovens admirados sempre com um largo sorriso. Sempre nutriu, porém, a consciência da morte, como deixou evidente em “Perplexidade”, de “A Cidade e os Livros”, publicado em 2002.

“Não sei bem onde foi que me perdi; talvez nem tenha me perdido mesmo/, mas como é estranho pensar que isto aqui fosse o meu destino desde o começo.”

Há quase uma década, ensaios de Cicero foram reunidos em “A Poesia e a Crítica”. Constam do volume um valoroso texto, intitulado “Poesia e Preguiça”, em que o autor defende a importância do ócio para o fazer artístico.No mesmo livro, ele analisa a obra de Armando Freitas Filho, outro pilar da produção contemporânea, que morreu no mês passado, também na capital carioca.

Em agosto, o autor de “O Último Romântico” (com Lulu Santos e Sérgio Souza) e “À Francesa” (com Marina) se confrontou com a sua obra pela última vez. Foi ao show “Ultramar”, em que Calcanhotto interpretava seu cancioneiro em voz e violão. Na época, sugeri a Calcanhotto que incluísse no roteiro “Asas”.

Sentado na plateia, o poeta ouviu uma celebração da vida no estribilho que ele próprio compôs. “Viva o prazer,/ o som/ O estrondo de uma onda na rebentação”.



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