Opinião – Maurício Stycer: Não é fácil agradar a gregos e troianos

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Opinião – Maurício Stycer: Não é fácil agradar a gregos e troianos


Exibida pela Globo com bastante sucesso em 2016, a minissérie “Justiça” ganhou uma segunda temporada oito anos depois, em 2024. O longo intervalo entre uma e outra sugere que houve alguma dificuldade ou dúvida por parte da emissora no processo decisório.

Mais inesperada ainda foi outra iniciativa. A segunda temporada foi oferecida apenas aos assinantes que pagavam pelo serviço do Globoplay. A cada semana, ao longo de quase dois meses, os espectadores tinham direito de acessar blocos de quatro episódios, num total de 28.

Desde o final de maio de 2024, “Justiça 2” está disponível na íntegra na plataforma de streaming da Globo. É um produto velho, pode-se dizer. Mas, segundo divulgado, vai entrar na programação noturna da TV aberta, no final da noite, antes do Jornal da Globo.

A decisão de exibir “Justiça 2” na TV aberta dois anos depois de seu lançamento pode levar alguém a pensar que a minissérie está sendo vista como um tapa-buraco na programação.

Na primeira metade desta década, a Globo fez várias investimentos buscando ampliar o número de assinantes da sua plataforma online. Atirou em muitas direções sem saber exatamente qual era o alvo.

Em junho de 2025, por exemplo, o Globoplay lançou “Guerreiros do Sol”, também exclusivamente para assinantes. A produção foi apresentada como uma “novela“. Na prática era uma trama de 45 episódios de alto padrão de qualidade. Um biscoito fino. Só um ano depois, em abril de 2026, foi exibida na TV aberta, em 39 episódios, com bastante sucesso.

Criada por Manuela Dias, a primeira temporada de “Justiça” chamou a atenção pela estrutura engenhosa. Ambientada no Recife, a minissérie contava quatro histórias independentes, mas que se cruzavam, de pessoas presas numa mesma noite.

Ainda que não fosse original –filmes como “Short Cuts” (1993), “Crash” (2004) e “Babel” 2006), entre muitos outros, adotaram formatos semelhantes–, a minissérie de 2016 foi um avanço em matéria de televisão aberta.

Em 2024, porém, a segunda temporada soou como um pastiche. Manuela Dias trocou Recife por Brasília e Ceilândia, mas manteve a mesmíssima estrutura, com o adicional, negativo, de propor histórias previsíveis e excessivamente mastigadas ao espectador.

Registrei aqui na Ilustrada minha decepção com a nova temporada de “Justiça”, numa coluna em que lamentava o rebaixamento da qualidade do que vem sendo produzido pela TV, e não apenas no Brasil. “O texto, porém, insiste em conduzir o espectador pela mão, como se ele fosse incapaz de entender, por conta própria, o que está acontecendo. O resultado, para mim, é frustrante, mas esse parece ser o único caminho possível hoje.”

A busca por novos assinantes e a manutenção dos velhos exige manter uma oferta consistente de conteúdo que o público deseja ver e algumas pílulas de ousadia, que o espectador talvez não saiba que precisa conhecer.

O negócio do streaming é, realmente, complexo e, às vezes, de difícil compreensão. Nestes últimos dois anos, as plataformas estrangeiras têm oferecido cada vez mais conteúdo óbvio, de consumo fácil, e menos opções ousadas, provocativas, surpreendentes.

Com uma perna em cada canoa, a Globo enfrenta uma dificuldade adicional, além da concorrência. Do ponto de vista dos negócios, a TV aberta ainda é muito relevante. O streaming exige recursos, mas entrega menos do que se espera. Com um catálogo interminável de novelas –brasileiras e estrangeiras–, séries e filmes de apelo popular, a empresa tenta satisfazer gregos e troianos. Não é fácil.


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