Estatuto que manda União Brasil e PP atuarem como um só partido preserva a autonomia das siglas e transforma Pernambuco no laboratório da contradição.
Igor Maciel
Publicado em 30/06/2026 às 12:15
| Atualizado em 30/06/2026 às 12:16
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A Federação União Progressista nasceu para unir e progredir, mas o estatuto mostra por que ela pode acabar fazendo exatamente o contrário. A disputa entre Miguel Coelho e Eduardo da Fonte pela vaga ao Senado parece, à primeira vista, apenas mais um conflito interno de um partido. Não é.
A briga expõe uma contradição presente no próprio estatuto da Federação União Progressista. O documento determina que União Brasil e Progressistas atuem “como se um único partido fossem”. Logo em seguida, preserva a autonomia de cada legenda. A combinação funciona enquanto os interesses caminham na mesma direção. Quando deixam de caminhar, o regimento oferece instrumentos para que cada lado reivindique legitimidade. Pernambuco acabou se tornando o primeiro grande teste dessa engenharia política.
Na prática, o estatuto poderia ter o título de “eterno enquanto dure”. E a paz não tem como durar muito.
Contradição
A crise atual em Pernambuco não nasceu da disputa pelo Senado. Ela nasceu do modelo escolhido para organizar a federação. Cada legenda continua preservando dirigentes, interesses e espaços próprios. A federação apenas cria uma direção comum para coordenar decisões eleitorais e políticas. É justamente aí que surge o problema.
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Quando os interesses deixam de convergir, a direção comum passa a disputar autoridade com as direções partidárias que continuam existindo. É como se você quisesse muito morar em uma mansão e fizesse um acordo para dividir o pagamento da casa com outras 50 pessoas. O endereço é vistoso, mas como é que você dorme e acorda com dezenas de pessoas e interesses diferentes sob o mesmo teto?
O conflito em Pernambuco apenas tornou essa tensão visível para os vizinhos.
Comando
A própria direção nacional demonstra isso. O estatuto determina que Presidente e Vice-Presidente pertençam a partidos diferentes e condiciona as decisões nacionais ao entendimento entre ambos. Na prática, nenhum dos dois exerce comando sozinho. Quando Antônio Rueda (União) e Ciro Nogueira (PP) passaram a defender encaminhamentos distintos para o mesmo impasse estadual a inviabilidade do projeto fica evidente.
Pernambuco
Foi nesse ambiente que Eduardo da Fonte (PP) construiu sua maioria dentro da Direção Estadual. O estatuto estabelece, como regra geral, que as decisões estaduais sejam aprovadas pela maioria absoluta dos integrantes. É nesse dispositivo que Da Fonte apoia sua interpretação. Miguel Coelho (União) sustenta entendimento diferente e tenta ampliar a discussão para além da simples contagem de votos.
Independentemente do desfecho jurídico, o dano político está dado. Os Coelho permanecem em posição minoritária dentro da direção da federação. A resistência pública de Miguel passa a depender muito mais da capacidade de prolongar a negociação e da disposição para judicializar do que da correlação de forças existente hoje.
Efeitos
O desgaste não se limita aos dois grupos. Raquel Lyra (PSD) observa a principal aliança de sua pré-campanha discutindo quem realmente possui autoridade para decidir uma das vagas mais importantes da chapa. Enquanto isso, nomes como Fernando Dueire (PSD) permanecem sendo lembrados como alternativas caso o impasse se prolongue.
Também voltam a circular especulações sobre uma eventual reaproximação política entre a Federação e João Campos (PSB). Não parece ser o cenário mais provável neste momento. Mas a simples existência dessa possibilidade já altera o cálculo dos envolvidos.
A disputa pela vaga de Senado em Pernambuco será resolvida mais cedo ou mais tarde. A dúvida que permanecerá será outra. A União Progressista conseguirá funcionar como um único partido quando seus interesses deixarem de ser únicos?
O caso pernambucano sugere que a resposta dependerá de entendimento muito maior entre as partes. Ou de uma mudança radical no regimento da Federação que, do jeito que está, tende a prejudicar as duas siglas no médio prazo, ao invés de fortalecê-las.













