Ao recorrer novamente ao protecionismo, Washington reage à perda gradual de sua capacidade de influenciar sozinho a economia global
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Prestes a completar um ano e meio de seu segundo mandato, Trump volta a transformar tarifas em arma de política externa. O discurso permanece o mesmo: proteger empregos, fortalecer a indústria nacional e corrigir desequilíbrios comerciais. O problema é que o mundo sobre o qual essa estratégia foi construída já não existe. Ao recorrer novamente ao protecionismo, Washington reage à perda gradual de sua capacidade de influenciar sozinho a economia global.
Durante décadas, os Estados Unidos lideraram a expansão da abertura comercial. Hoje recorrem a tarifas e medidas unilaterais justamente quando deixam de ocupar a posição dominante que sustentou esse modelo. A contradição é evidente: a maior defensora da liberalização comercial passou a flexibilizar suas próprias regras quando deixou de ocupar a posição dominante que ajudou a construir.
Essa mudança pode ser observada de forma objetiva nos fluxos do comércio internacional. Segundo o Indicador de Comércio Exterior (Icomex), da Fundação Getulio Vargas, em 2001 os Estados Unidos absorviam 24,4% das exportações brasileiras. Em outras palavras, um em cada quatro dólares exportados pelo Brasil tinha como destino o mercado norte-americano. Em 2024, essa participação caiu para 12,2%. Nos cinco primeiros meses de 2026, recuou para 9,4%, o menor percentual do século.
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Enquanto isso, a China percorreu o caminho oposto. Em 2001, representava apenas 3,3% das exportações brasileiras. Atualmente, responde por cerca de 28% das vendas externas do país e consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o fluxo comercial entre Brasil e China alcançou aproximadamente US$ 171 bilhões, mais que o dobro do registrado entre Brasil e Estados Unidos. O crescimento chinês não apenas desloca fluxos comerciais, mas reconfigura o centro de gravidade da economia global.
O que mudou não foi a importância dos Estados Unidos, mas sua posição relativa na economia internacional. Não é Trump quem está transformando a ordem internacional; é a redistribuição do poder econômico global que explica sua estratégia.
Hegemonias não sobrevivem apenas pela superioridade econômica ou militar. Quando uma potência deixa de convencer, passa a constranger. Tarifas deixam de ser instrumentos comerciais e tornam-se instrumentos políticos. Sob essa perspectiva, o avanço do protecionismo norte-americano pode ser interpretado menos como demonstração de força e mais como reação às mudanças na distribuição do poder global.
A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS, a reorganização das cadeias globais de produção após a pandemia e a crescente disputa por segurança econômica inauguraram uma nova etapa da globalização. O livre comércio continua existindo, mas tornou-se cada vez mais seletivo, subordinado aos interesses estratégicos das grandes potências.
O Brasil chega a esse novo cenário em condições diferentes das de vinte anos. A ampliação das relações comerciais com a Ásia, o Oriente Médio, a África e a América Latina reduziu a dependência de um único mercado e ampliou sua margem de negociação internacional. O desafio brasileiro continua sendo agregar valor às exportações, ampliar sua competitividade tecnológica e reduzir sua vulnerabilidade às decisões unilaterais das grandes potências.
Tarifas elevam custos, mas não alteram transformações estruturais da economia mundial. Nenhuma barreira comercial é capaz de inverter duas décadas de reorganização das cadeias globais de produção nem de restaurar a centralidade absoluta que os Estados Unidos exerceram no passado. O Brasil já não depende exclusivamente do mercado norte-americano para sustentar seu comércio exterior, e essa talvez seja uma das mudanças mais relevantes de sua inserção internacional desde a abertura econômica dos anos 1990.
O protecionismo de Trump talvez diga menos sobre a força dos Estados Unidos do que sobre sua dificuldade em aceitar um mundo no qual já não definem sozinhos as regras. A economia mundial mudou, e com ela mudou a distribuição do poder econômico. Nenhum decreto assinado na Casa Branca é capaz de restaurar a ordem internacional das décadas posteriores ao fim da Guerra Fria. O século XXI será marcado não pela volta da hegemonia americana, mas pela disputa permanente entre múltiplos centros de poder. A antiga ordem não está sendo substituída. Está apenas deixando de ser obedecida.
Priscila Lapa é jornalista e doutora em Ciência Política. Sandro Prado é economista e professor da FCAP-UPE.












